Na oposição à ditadura de Salazar, distinguiram-se o comunista Álvaro Cunhal, o socialista Mário Soares, o monárquico Paiva Couceiro e o católico Pereira de Moura, entre muitos outros. Luis Corvalán era um opositor comunista à ditadura de Pinochet, José María Gil-Robles era um opositor democrata-cristão à ditadura de Franco.
Nenhum deles foi classificado de “dissidente”. Chamar-lhes dessa forma teria algo de pejorativo, quase insultuoso. Mas na China todos os opositores são “dissidentes”. Como hoje sucede também em Cuba ou antes sucedia na União Soviética. Ao opositor, nos países submetidos a ditaduras comunistas, os responsáveis por esses regimes não concedem sequer o direito a ter uma ideologia própria, diferente da ideologia oficial. Espantosamente, os órgãos de informação dos chamados países livres fazem coro com esses responsáveis, chamando “dissidentes” a quem ousa divergir da corrente dominante.
Um democrata é um democrata. Não é um dissidente.

Um democrata é um democrata. Não é um dissidente.
Nem todos os opositores a ditaduras são democratas. Alguns são tão-somente partidários de ditaduras de sinal contrário.
Não frequente tanto o “priberam”. Depois fica tão baralhado que já nem consegue balbuciar conceitos.
chamando “dissidentes” a quem ousa divergir da corrente dominante
Mas um dissidente é, precisamente, uma pessoa que diverge de uma corrente!
No dicionário Priberam:
“1. Que dissente, discorda ou diverge de algo.
2. Que ou quem se separa de um grupo por divergência de opiniões, princípios, comportamentos, doutrinas, etc.”
Um conselho: consulte outros dicionários. Esqueça esse dicionário “on line”, que é uma sopa da pedra onde entra tudo – incluindo vários calhaus.
Se houvesse uma ASAE para os dicionários, esse já estava fora do alcance dos consumidores.
Tem toda a razão: esse dicionário é efetivamente uma sopa de pedra. Citei-o aqui por ser aquele que está mais à mão. E, neste caso, ele não me parece errado…
O enorme defeito desse dicionário é precisamente corolário dessa vantagem que você menciona: está muito à mão.
Infelizmente está muito à mão não só para consulta mas também para verter conteúdos: tudo acaba por cair lá, sem norma nem critério.
Viva, Vorph. Abraço.
É uma reflexão interessante Pedro. Faz-me no entanto lembrar a diferença entre “guerrilheiro” (ou combatente pela liberdade”) e “terrorista”, definições que dependem de quem as profere e de quem vence.
Não argumento que é o caso aqui, mas pela mesma lógica podemos argumentar que quem esteja contra a democracia é um fascista, ou comunista, ou anarquista, mas não um dissidente. Pela mesma lógica, dissidentes poderão não existir.
Claro, podemos olha para as coisas pelo prisma de João Amaral, alguém que sempre se afirmou comunista, mesmo até à sua morte, mas que poderia ser visto pelo PCP como um dissidente, mesmo sem entrar pela ruptura do “Grupo dos Seis” (cito de memória e até porque era demasiado novo na altura para compreender estas coisas, por isso perdoa-me asneiras).
Poderemos dizer que pequenas diferenças mantendo a mesma linha serão dissidências (na China seria discordar de Xi mas continuar a citar Mao) mas pela mesma lógica é impossível traçar uma linha a partir da qual poderemos dizer que uma pessoa é dissidente e outra não.
É no entanto uma reflexão interessante Pedro, e bem lembrada em relação à China e à forma como os media reproduzem as definições de governos de forma acrítica.
Tem a ver com a utilização mecânica da linguagem no exercício do jornalismo. Muitos jornalistas limitam-se a reproduzir os mecanismos da propaganda comunicacional de certas ditaduras. Sem fazerem sequer ideia disso.
Há diferenças óbvias entre opositor e dissidente: em circunstância alguma é tolerável qualquer confusão entre os dois termos.
Situemo-nos em exemplos portugueses: Humberto Delgado e Henrique Galvão acabaram por ser opositores firmes e determinados à ditadura, mas foram – eles sim – dissidentes. Neste caso, dissidentes do salazarismo, que serviram convictamente durante anos.
Em circunstância alguma poderíamos alargar este conceito, abrangendo nele também figuras como Álvaro Cunhal ou Mário Soares, só para mencionar dois casos muito conhecidos.
Acontece que, no discurso jornalístico corrente, todos os opositores em ditaduras como a chinesa ou a cubana – como no passado sucedia quanto à URSS – são Delgados ou Galvões, nunca Soares ou Cunhais. Isto é inaceitável.
Quem foge ao pensamento único é um dissidente. Prefiro ver nessa expressão a mensagem subliminar
Um dissidente afirma-se pela negativa. Repudiando um sistema em que militou e no qual acreditou.
Ora um democrata não se limita a discordar da ditadura nem mesmo a combater os seus aspectos mais ferozes. Muito menos tem de ser alguém que anteriormente integrou os mecanismos da ditadura ou contemporizou com ela.
Um democrata distingue-se pela positiva: acredita convictamente num sistema não apenas alternativo mas antagónico à ditadura. E age em função desse ideário, que para ele não representa só um meio: é também um fim.
Não sei se a dissidência tem por si só uma conotação negativa.
Também os há muitos democratas que nem sempre o foram. Portugal é pródigo em pessoas que defenderam a ditadura do proletariado e posteriormente se converteram em democratas (ou então fingem muito bem).
O que esses órgãos distinguem será entre as ditaduras estabelecidas (Irão*, China) e as de ocasião (Venezuela). Assumem implicitamente que as primeiras não caem, portanto não têm opositores, mas sim dissidentes.
Como referiram acima, fazer oposição a uma ditadura não faz de alguém um democrata. Bem como quero acreditar que há pessoas que vissem virtudes nos regimes totalitários e que mudassem de ideias (o Gorbachev tinha uma opinião interssante sobre isso).
Claro que uma ditadura é uma ditadura, não as há bonzinhas e más.
*por acaso não sei qual o rótulo, opositor a Teerão ou dissidente.
Em Teerão também são “dissidentes”, segundo o léxico jornalístico dominante.
Não há opositores nos regimes comunistas nem nas teocracias islâmicas. Só há “dissidentes” – isto é, variações conjunturais à matriz dominante.
Como se não houvesse outras matrizes.
Sim, “dissidente” é redutor e até pejorativo.
Se você vivesse num Estado comunista ou numa teocracia islâmica não “dissidia”: opunha-se.
Porque um dissidente admite sempre uma base comum ao regime que contesta. Num opositor, essa base não existe porque os postulados são diferentes.
A escolha das palavras nunca é irrelevante.
Importa notar que num ambiente inundado por uma informação em forma de vagas sucessivas de ‘verdades’ , com origem em múltiplas fontes mas que buscam a uniformidade e não a controvérsia, a palavra dissidente é adequada a exprimir afastamento desse corretês assim formado.
“Corretês” é termo adequado neste contexto.
Um democrata , tal como um ditador, nunca é um dissidente. Mas um incidente.
Muitos exemplos existem na altura do pós guerra, onde muitos dos que lutaram contra os nazis fizeram-no também contra os russos e alguns foram condenados à morte pelos últimos por serem dissidentes e traidores.
Na Netflix há um filme que retrata bem um desses casos: 08149
https://pt.flixboss.com/filme/milada-801
O problema é quem não apoia o regime capitalista é anti democrático, é o que está subjacente neste texto e nestes comentários, se até a palavra capitalismo desapareceu do léxico comunicacional e foi substituída pela palavra «democracia« é democrata se aceitar a subjugação imperial, é ditador se se lhe opuser e resistir. É esta a nova linguagem do novo «jornalismo«
Os “dissidentes” cá do retângulo não ganham direito a subsidio de fidelidade.
Curiosamente são os termos e os lugares-comuns que se aprendem na escola de jornalismo, juntamente com os “ditadores” de direita e os “líderes” de esquerda. A semântica tendenciosa (e nalguns casos nojenta) que é ensinada nas escolas e depois repetida até à exaustão na comunicação social, devia ser uma das preocupações principais dos praticantes dessa modalidade..
” Espantosamente, os órgãos de informação dos chamados países livres fazem coro com esses responsáveis, chamando “dissidentes” a quem ousa divergir da corrente dominante.”
Há pior. A mesma razão porque nos jornais e TV’s Ocidentais, Fidel era o Líder Cubano e o Pinochet era o Ditador Chileno.
Adjectivar alguém de Líder é logo não discutível, efectivamente legitimado, adjectivar o outro de Ditador logo é ipso facto ilegitimo.
São operações de guerra psicológica feitas pelo jornalismo “de referência” Marxista.
O líder Cubano porque liderou fisicamente a revolta, ou seja seguiu à frente com os revoltosos, o mesmo acontecendo com Mao.
O problema é quando as revoltas saem vitoriosas e essas forças vitoriosas não começam de seguida a ‘agora vamos todos começar a formar partidos políticos para se realizarem eleições para ver quem governa’. Calhando ficariam todos a olhar uns para os outros e a questionarem-se: mas temos todos as mesmas ideias. E pronto que chatice, coisas de marxistas, não deviam ter feito a revolta.
Calhando ficariam todos a olhar uns para os outros e a questionarem-se: mas temos todos as mesmas ideias.
Ahahah, belo argumento totalitário e, no fundo, pior-que-fascista. O essencial é sempre o diferente, o particular. De Platão a Deleuze toda a gente que pensa sabe isto. Só mesmo quem não tem ideias nenhumas é que partilha as ideias com os outros. E não é para partilhar: é para ter algumas.
Mais um ponto de contacto entre os comunistas e os islamitas: ou pensam todos da mesma forma ou então também não precisam da cabeça para nada.
Ó V, imaginemos que os barbudos da Sierra Maestra pensavam, para não serem totalitários pior-que-fascistas, cada um de maneira diferente dos outros, como é que se entendiam para deitar abaixo o regime? Aqueles barbudos actuaram militarmente para derrubar o regime e, logicamente, todos teriam essa ideia. Que chatice, não haver uns a quererem uma coisa e outros a outra, e todos a entenderem-se perfeitamente. Eles não eram militares, para depois da revolta entregar a poder ao povo. Eles eram o povo.
Mas o normal (o natural) é as pessoas pensarem de maneira diferente, em diversos domínios — desde os as preferências culturais ou artísticas à maneira de arrumar as gavetas ou de pentear os cabelos. Por que carga de água é que um país tem de ser governado apenas elas preferências ideológicas ou a maneira consensual de fazer leis? Por que é que o mundo tem de ser igual para todos e não diferente para todos, provavelmente com uma quota muito maior de felicidade para cada um?
Então seria de esperar que o jornalismo se referisse a Mussolini como o Líder Italiano e não o Ditador Italiano, ou Franco o Líder Espanhol em vez do Ditador Espanhol…
Vou ao Avante, ao Publico e à SIC verificar se a nova norma editorial aqui exposta é respeitada.
É coisa de Marxistas matar milhões em revoltas e fora delas, a maior parte dos Marxistas assassinados foram-no por outros Marxistas. Legitimadas pelo jornalismo Marxista: Afinal foi o Líder que deu a ordem não um Ditador…
Pq TV’s Ocidentais e não TVs Ocidentais, mesmo que siglas e acrónimos não tenham plural?
Tem razão.
Facto: O pcp até ao 25 de Abril de 1974 matou mais dissidentes (ex-camaradas) do que Salazar matou dissidentes.
Uma balada para os cães.