
A História, com agá maiúsculo, escreve-se muitas vezes a partir de minúsculos pormenores. Regressemos por momentos a 2008: José Sócrates, com maioria absoluta, estava no auge do seu consulado. O PSD ficou órfão de líder, como tantas vezes tem acontecido. Todos os olhares se viraram para o Porto: ousaria Rui Rio descer à capital para tomar conta do partido que tanto parecia desejá-lo?
Hesitou, chegou a alimentar expectativas, mas a resposta foi negativa. A pretexto de completar o mandato na Câmara do Porto, onde estava desde 2001, decidiu ficar por lá. Avançou então Manuela Ferreira Leite, como solução de recurso. Sabemos o que sucedeu nas legislativas de 2009: nova maioria do PS, embora sem maioria absoluta.
Sem aquela hesitação, talvez o país tivesse sido poupado a dois anos suplementares de socialismo em versão socrática. Talvez Passos Coelho jamais tivesse ascendido à liderança do PSD. Talvez a geringonça de António Costa continuasse a ser mero exercício especulativo sem aplicação prática.
Mas Rui Fernando da Silva Rio, à época com 51 anos, recusou montar o cavalo do poder. Talvez por não sentir o menor fascínio por Lisboa, onde se manteve como deputado durante a década de 90 e foi efémero secretário-geral do PSD, com Marcelo Rebelo de Sousa na liderança. Desentenderam-se. Há quem jure que as relações entre ambos nunca voltaram a ser as mesmas.
Os tempos são outros: com um em Belém, o outro aspira à chefia do Governo e os seus mais próximos garantem que está «preparadíssimo para ser primeiro-ministro». A hesitação anterior forçou-o a aguardar quase cinco anos entre o fim do mandato autárquico e a corrida à sucessão de Passos. Lidera desde Janeiro de 2018 um partido que com ele ao leme mantém o segundo posto em todas as sondagens.
Rio milita desde os 18 anos, conhece as hostes sociais-democratas como poucos e sabe falar para as bases envelhecidas e rarefeitas. Superou três adversários sucessivos – Santana Lopes, Luís Montenegro, agora Paulo Rangel. Na mais recente eleição interna – que venceu por 1746 votos num escrutínio com 36 mil votantes – acenou ao povo laranjinha com aquilo que ele mais queria ouvir: a perspectiva de um regresso rápido do PSD ao poder. Se tiver de ser com o PS, que seja.
Nos quatro anos mais recentes, aliás, já houve sintonia entre os dois partidos em questões tão diversas como o fim dos debates quinzenais no parlamento, a imposição do mandato único à Procuradora-Geral da República, o condicionamento das ordens profissionais, as nomeações políticas para as comissões de coordenação e desenvolvimento regional e a flexibilização das regras da contratação pública, só para citar alguns exemplos.
É mais fácil imaginar Rio como hipotético vencedor das legislativas de 2009 contra um Sócrates já enfraquecido do que a conseguir o triunfo nas urnas a 30 de Janeiro. Mas a política, imitando a vida, é feita de mil surpresas. Para vencer, o primeiro requisito básico é estar no sítio certo à hora que o destino marca e a vontade dos eleitores impõe. O resto são cenários. E dos cenários não reza a História.
Texto publicado no semanário Novo

Bom dia Pedro Correia
Sim, muitos cenários, muitas cenas. E no seio dos meus concidadãos, encenadores de jeito, competentes, respeitosa mas sinceramente parece-me haver poucos. Mas, como sempre, admito estar enganado, e respeito opinião de outrem.
Tenha um bom feriado. Saúde.
António Cabral
Obrigado, caro António Cabral. Bom feriado nacional para si também. E boa saúde, sempre.
“Em terra de lobos uiva como eles”. De mansinho ao seu jeito, mas parece que já se preparou..
Povo que lavas no rio
Que talhas com o teu machado
As tábuas do meu caixão
Pode haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado
Mas a tua vida não
Por causa desta do “povo” e da outra parte “dormi com eles na cama” o poeta Pedro Homem de Melo levou porrada de criar bicho dos caceteiros estúpidos e ignorantes.
É verdade.
A pretexto de completar o mandato na Câmara do Porto
Não é pretexto nenhum. É honestidade, é honradez, é seriedade, é responsabilidade. Tinha sido eleito pelo povo do Porto para ser presidente da Câmara, não deve abandonar esse lugar a meio do mandato. Para não fazer a mesma péssima figura que Durão Barroso fez.
Você arrisca-se a ser o rei das calinadas aqui no blogue.
Percebo agora melhor por que motivo mudou de identidade.
Sem aquela hesitação, talvez o país tivesse sido poupado a dois anos suplementares de socialismo em versão socrática.
Talvez. Mas é muito improvável. O povo votaria muito mais em Rui Rio do que votou em Ferreira Leite? Parece-me altissimamente duvidoso. O povo votou em José Sócrates porque gostava dele.
Mesmo assim, registo o cumprimento que Pedro Correia faz a Rui Rio; é raro.
«O povo votou em Sócrates porque gostava dele.»
Que bacorada.
Nem o Galamba hoje é capaz de escrever um dislate destes.
Para já, o que é o povo? Só regimes totalitários invocam essa figura mítica.
Em eleições democráticas, não há “povo”. Há eleitores.
Estes eleitores votam consoante as opções existentes. Em 2009, com segurança, só pode dizer-se que entre Sócrates e Ferreira Leite – as opções que havia para governar – a maioria (não absoluta) dos eleitores optou por Sócrates.
Se Sócrates tivesse outro opositor, outro seria o resultado. Como se verificou dois anos depois. Quando Passos Coelho derrotou Sócrates.
Quando os eleitores (o povo é toda a gentalha) votaram no Passos derrotaram Sócrates foi por aquela de ‘acabar com os gorduras do Estado’. Logo a seguir vem o mais tarde ‘irredutível’ que não sei quê a banca rota nem havia dinheiro para pagar ordenados. E heis que logo no mês seguinte já havia dinheiro sem que houvesse chegado o empréstimo do fuminhas. Calhando foi dinheiro por conta da eliminação do feriado em que hoje estamos a escrever estes comentários.
“Se Sócrates tivesse outro opositor, outro seria o resultado.”
É verdade quando o opositor foi o Santana Lopes, o Sócrates teve maioria absoluta.
Quando o opositor foi Passos Coelho, lá foi ele alojar-se no pardieiro de Paris.
A inveja é pecado.
Viver com o dinheiro dos outros deve ser virtude.
Há alguns pressupostos do seu raciocínio que não percebo.
Diz que o PSD não ganhou a Sócrates porque Rio não avançou e teve de ir Ferreira Leite. Fico sem compreender como é que um partido com 36 mil inscritos só havia duas pessoas para concorrer, sendo que uma não podia e a outra não servia. São 35 968 inúteis num partido, mesmo para o PSD parece-me muito.
Diz que qiando Passos avançou ganharam logo ao Sócrates, Não sei de cor a idade de Passos Coelho mas penso que já era vivo quando foram as eleições entre Sócrates e Ferreira Leite, não compreendo porque não avançou nas nessa altura.
O seu PSD parece ser um partido de gente excelente só que só elege gente que não lhe serve. Ou não há ninguém que sirva ou não têm jeito para escolhê-los.
Como é patente no seu comentário, há imensa coisa que você não compreende.
Recomendo-lhe o que Otelo Saraiva de Carvalho recomendou a Vasco Gonçalves em Agosto de 1975: «Descanse, repouse, serene, medite e leia.»
Quando a ministra da justiça de Passos Coelho chegou ao Ministério, verificou que não havia dinheiro para salários.
Pois, essa foi contada de manhã, à tarde e à noite.
Então o que é que que aconteceu, sem ter entrado, ainda, o dinheiro do FMI, não ter havido salários em atraso no Estado?
Caro Pedro Correia, as suas cantigas de escárnio e maldizer constantes, que não se tornem amêndoas amargas, na suas aspirações de vencer, na vida democrata.