Pouca terra


eventhorizon,

Já não será talvez notícia o descalabro do serviço ferroviário da CP. São os atrasos diários e as supressões frequentes de comboios, com nenhum aviso e poucas alternativas. São as saunas forçadas nos dias mais quentes, em composições cujos sistemas de ar condicionado não funcionam quando as temperaturas exteriores ultrapassam os 40º (algo que, convenhamos, não é exactamente incomum em boa parte do país durante os meses de Verão). É a falta de limpeza de estações e carruagens – ainda há umas semanas, na viagem que fiz no Intercidades que liga Lisboa a Faro, deparei-me com uma casa-de-banho acabada de abrir coberta, literalmente, de mijo e merda. É a falta de manutenção dos comboios e a utilização de automotoras dos serviços Regionais em percursos feitos pelos Intercidades, sem que a redução de qualidade seja acompanhada pela redução do preço do bilhete*. E, claro, é a indiferença generalizada de quem está no poleiro para com a degradação evidente e inegável dos comboios de Portugal. Como disse, talvez nada disto seja notícia – mas nem por isso deve deixar de ser noticiado. Merece por isso destaque o Público pelas excelentes reportagens que tem vindo a publicar sobre o assunto, como se pode conferir na etiqueta comboios. Durante esta semana serão publicadas cinco reportagens sobre o serviço em algumas linhas de comboio, no dossier  “A ver passar comboios” – arrancou hoje com a ligação cada vez mais precária no que resta da Linha do Alentejo*, num texto que deve ser acompanhado por esta excelente reportagem fotográfica. Aguardo pelas restantes com expectativa.

 

* No início do Verão, e quando o serviço da CP já estava a descarrilar, houve quem fosse para a comunicação social reclamar pelo fim da concessão à Fertagus – que presta um bom serviço, ainda que caro, aos habitantes da margem Sul do Tejo – e pela entrega desse percurso… à CP. Ele há coisas do arco da velha. 

** Sobre a linha do Alentejo, convém não esquecer que a ligação directa por Intercidades entre Beja e Lisboa acabou no início de 2011, e a linha entre Beja e a Funcheira – e o Algarve, portanto – foi suprimida no final de 2011. Curiosamente, em 2011 foi inaugurado o Aeroporto… de Beja. Isto talvez já nem seja do arco da velha. 

8 comentários em “Pouca terra”

  1. A história dos comboios portugueses vive neste momento um descalabro e, por muito que se imagine, ninguém calcula o transtorno diário de quem não tem outro meio de transporte. Entre tudo que o governo apregoa e todos sabemos que é menos do que diz porque conta a meia verdade que lhe convém, esquece muita coisa que está como a CP, em fim de linha. Se é verdade que este governo não pode fazer tudo, repor tudo que está em falta, também é verdade que há prioridades e urgências. Mas parece que é tudo muito lento e só daqui a três anos, se renovam os comboios e que entretanto alugamos alguns a Espanha…o que significa melhorar mas pouco. Quem mal está, mal vai continuar. É de uso.

    1. Se é certo que a culpa do descalabro não é apenas deste Governo – o estrago vem sendo feito há algumas décadas -, já a desfaçatez e o assobiar para o ar são da inteira responsabilidade. Mas desfaçatez e assobiar para o ar são praticamente o ar que António Costa respira. A táctica é a de sempre: não se passa nada, a culpa é de quem esteve antes, e com jeitinho dá para empurrar a coisa até o problema ser de outro governo.

      Entretanto, cá vamos andando em comboios atrasados, esperando por comboios suprimidos, e agradecendo à sorte quando as casas de banho das ligações de longo curso não estão demasiado sujas.

      1. É, tristemente – e sempre – essa a regra do que de mau acontece neste país. Mas tal ramerrame não me deixa mais conformada. E ainda espero que o hábito mude, se não de todo, pelo menos em parte mais larga. Entretanto, o cansaço vence-nos por ezes, mas penso que seja natural à amargura solitária de um povo que não é perfeito mas mantém a esperança em governantes autênticos e que, quem sabe, um dia, pensem nele de verdade.

  2. Gosto de ver o país em alerta com a degradação da CP, das ligações, da ferrovia.

    Mas confesso que me assalta um triste meio-sorriso de cinismo ao ver como todos estão indignados agora que perdem comboios…
    A linha do Oeste sempre foi a parente pobre das linhas e serviços ferroviários, nascendo no Oeste e morrendo no Oeste, zona industrializada com praias e turismo, povoada e populosa, mas com ligações ferroviárias a outras linhas apenas “eventuais”, e via Coimbra. Quando, há trinta anos, nos começámos a manifestar por melhores condições, os utentes das outras linhas assobiaram para o lado. Afinal, tínhamos o IC2, e mais tarde a A8 e a A17… estávamos servidos, argumentavam comissões de utentes de outras linhas, que pediam prioridade para mais comboios na sua zona. Como se os transportes públicos não devessem ser uma prioridade para todo o território, uma forma de combater o isolamento e a desertificação…

    A linha do Oeste não morreu por falta de utentes. A linha do Oeste matou os seus utentes ao longo de 30 anos, com o beneplácito dos utentes de outras linhas que queriam comboios de meia em meia hora. As alternativas, por cá, continuam a passar por ter carro próprio.

    E assim vamos caminhando, olhando o nosso umbigo. Até ao dia em que percebamos que o umbigo é de cada um mas a placenta é de todos.

    1. Não conheço a linha do Oeste, tirando uma ou outra viagem curta entre Entrecampos e Sete Rios em automotoras que sobre as portas ainda têm o mapa ferroviário do Algarve. Mas conheço as linhas do Baixo Alentejo, ou o que resta delas, e vi a CP terminar o antigo Inter-regional que ligava o Barreiro a Vila Real de Santo António (no qual viajei a cada duas semanas durante os meus primeiros anos de universidade em Lisboa) para o substituir por um regional entre o Pinhal Novo e Faro, eventualmente descontinuado após a procura escassear perante alterações de horário incompreensíveis. Para nem falar na ligação Funcheira – Beja, extinta em no final de 2011, ou a ligação directa entre Beja e Lisboa, substituída por automotoras precárias no início do mesmo ano.

      É um facto que a destruição da ferrovia portuguesa não começou em 2015. Nem sequer em 2011. Talvez seja tarde para nos indignarmos, mas se a indiferença a roçar o autismo dos labregos que nos governam *agora* não serve para mais nada, então que sirva para a indignação, por inconsequente que seja. Pode ser (é) pouco, mas sempre é melhor que nada.

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