No discurso da vida toda a contradição é recomendável. Numa contradição meramente aparente, digo-vos, a contradição é mesmo o caminho mais verdadeiro. Só convictamente acreditando numa coisa, experimentando-a e vivendo-a, teremos sobre ela propriedade, ao ponto de mais tarde e maduramente para o seu contrário mudarmos. Vimos, sentimos, estivemos, conhecemos. A contradição é mãe da mudança, essa filha da liberdade. Em tanto da nossa vida só assim verdadeiramente chegaremos à nossa verdade.
Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Tudo muito verdade.
O que irrita não é alguém mudar de ideias. O que irrita são os que sendo fanáticos na defesa de uns ideais que se tornam fanáticos na defesa do seu contrário. Há gente que sabe sempre a verdade absoluta, vai é mudando de verdade.
Sim, mas há que usá-la com moderação.
Pessoas que se contradizem todos os dias, porque o vento também muda, não interessam a ninguém.
Essa é a justificação de qualquer troca-tintas quando o partido B lhe oferece mais uns tarecos. Veja-se o caso da Zita Seabra.
Quando as pessoas perdem a noção da coerência perdem também a noção do ridículo.
Poderá ser a justificação de “qualquer troca-tintas”, de facto. Mas não deixa de ser verdade. E uma verdade salutar. A contradição e a incoêrencia, se de facto fundamentadas (que não por venalidade, egoístico interesse imediato ou baixa política, como é óbvio), e desde que se não sucedam como se ao sabor do vento, acabam por ser – por poder ser – sinal de maturidade. Sinal de humildade, o que nada tem de humilhante.
“Vimos, sentimos, estivemos, conhecemos”, escreve-se no texto que comentamos. E depois disso, inevitavelmente depois disso e desejavelmente com honesto fundamento – perante nós, desde logo – prosseguimos o rumo ou alteramo-lo.
Claro que tentar fazer esquecer, apagar o passado ou modificá-lo na sua forma publicamente conhecida, em lugar de admitir uma mudança de rumo por razões atendíveis, evitar admitir um erro, mesmo um erro de boa-fé, será sempre uma tentação. Tão mais forte, creio, quanto mais pública a pessoa.
Mas há que julgar com calma (e, sempre, não perdoar o que o não merece), antes de apontar depreciativamente a alguém a contradição e a incoerência. Fazendo-o sempre que tal se imponha.
E pensar sempre bem, antes de afirmar, afirmar peremptoriamente, “sempre” ou “nunca”.
Contigo em contradição,
Pode estar um grande amigo.
Duvida mais dos que estão
Sempre de acordo contigo.
A. Aleixo (citado de cor)