Os comentários da semana


Pedro Correia,

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«Foi a época da energia abundante ao preço da chuva, dos herdeiros do Infante D. Henrique, do Colombo e do Far West. Esse optimismo expirou por volta de 1970 com a divulgação do Relatório Meadows, conhecido erroneamente como relatório do clube de Roma (na verdade, foi produzido por malta do MIT a pedido do clube de Roma). É de notar que os redactores desse relatório não fizeram previsões para a evolução da sociedade, pois isso é impossível e eles sabiam-no muito bem. Eles estudaram cenários hipotéticos, o mais plausíveis à época.

 

A traço grosso, as conclusões do estudo desses cenários foram:

1- As modalidades de crescimento indefinido (demográfico, consumo energético e de matérias-primas) levam ao esgotamento irreversível dos recursos (energéticos, mas não só) não-renováveis (o que constitui uma conclusão evidente, uma mera tautologia) e a uma degradação prejudicial à produtividade dos ecossistemas resultante da poluição e sobre-exploração crescentes;

2 – Extrapolando a partir dos ritmos observados em 1970, o colapso do sistema seria de esperar, não para daqui a milénios, mas já em meados do século XXI (esta foi a surpresa, mas mesmo essa surpresa é indevida pois já no século XIX os ingleses estavam cientes da inevitabilidade do esgotamento do carvão extraído na Grã-Bretanha, e nisso foram corroborados durante o século XX).

 

Hoje toda a gente sabe isto, mesmo os que o negam. Consumimos mais do que o planeta produz (estamos a esgotar as nossas “poupanças no banco”), já passsámos o pico do petróleo convencional e, por issso, o rátio entre energia extraída e energia consumida durante a extracção é uma função monótona decrescente (e quando descer abaixo de um acaba o jogo).

O consumo de combustíveis fósseis estagnou na Europa já há uma década e é essencialmente por isso que o crescimento económico gripou. Quando o consumo de combustíveis atinge um planalto, o número de máquinas a trabalhar atinge outro que lhe corresponde (o padeiro já não tem espaço no forno para tirar mais croissants para alimentar mais) e a economia que roda à custa das máquinas estagna também. À estagnação seguem-se as narrativas apocalípticas.

 

Ah, resta-nos desvendar o enigma da esfinge: a criatura capaz de reconhecer a sua própria natureza quando ela lhe é ensinada, mas que soçobra presa de pulsões niilistas quando ela lhe é ocultada.»

 

Do nosso leitor Miguel. A propósito deste meu texto. 

 

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«Cinquenta anos de optimismo e felicidade de plástico prometida nos spots publicitários. A crença absoluta no domínio do homem sobre a natureza. Tão desajustada quanto o entretenimento e a ficção sórdida que procura colmatar desejos de negritude e alegado realismo na vida dos derrotistas.

Uma população ocidental a viver grosso modo em melhores condições físicas do que há cinquenta anos – e uma opinião pública educada há décadas no facilitismo e na falta de juízo crítico. Não é de educação formal nem de erudição que falo; essa preocupa-me bastante menos, mas da falta de noção do comezinho. Da falta de consciência do peso de cada um na sociedade, da sua responsabilidade, das suas obrigações. Já que dos direitos a maioria dos cidadãos ocidentais parecem bastante conscientes. A desejável reivindicação de maior justiça social e respeito pelos direitos fundamentais foi desvirtuada e transformada em fonte inesgotável de egoísmos e bandeirinhas folclóricas. Conduziu também à necessidade de sempre culpar o outro, por total incapacidade de reconhecer a própria responsabilidade ou pela crença na inexistência de razões naturais e fortuitas – não assacáveis aos homens.

A ressaca do confronto com a realidade origina tremendas frustrações que conduzem a um chinfrim contestatário onde ninguém se entende, à falta de autoridade dos Estados, aos radicalismos e à proliferação dos distúrbios mentais – é uma maçada, mas nem sempre há outros disponíveis para o sacrifício, para assumirem a culpa que não é sua. Nem a natureza se comove (sempre) perante os caprichos humanos: igual a si própria dizima mais de três milhões de seres humanos de uma assentada, como se dissesse “presente, estou aqui” perante um mundo distraído entre contabilizar o número ou as razões aparentes para tantas mortes e o desejo de retoma à “normalidade” e às catadupas de slogans inconsequentes.

 

Da nossa leitora Isabel Paulos. A propósito deste meu texto.

13 comentários em “Os comentários da semana”

  1. Este texto está bem escrito, penso mesmo que o leitor absorve bem a ideia mas tem um certo burilar irritante. Nota-se alguma falta de dados que comprovem a veracidade da explanação do autor. A fixação pela ficção é hoje prática corrente dos demagogos burilistas.

    1. Anónimo,
      Faça o favor de demonstrar onde está a demagogia e a ficção do meu comentário. Ficarei à espera do seu bitaite rigoroso e fiel aos factos, burilado ou por burilar.

  2. “Conduziu também à necessidade de sempre culpar o outro, por total incapacidade de reconhecer a própria responsabilidade ou pela crença na inexistência de razões naturais e fortuitas – não assacáveis aos homens.”
    Palavras para quê? Bem prega Frei Tomás…

  3. “desejos de negritude”
    “noção do comezinho.”
    “não assacáveis aos homens.”
    “A ressaca do confronto “
    “chinfrim contestatário”
    “proliferação dos distúrbios mentais”

    O que é isto? Mas que azedume ! A Isabel Paulos parece uma moldura de um quadro de Picasso esgravatado numa parede despida de sentimento.
    O primeiro passo é assumir o que eu sou e não o que os outros são.
    A questão é : O que é a Isabel Paulos ? Se tudo isto ou apenas um pequeno borboto à espera da salvação ?

    Rui Sousa

  4. Obrigado pelo destaque e pelo cuidado editorial, Pedro. A outro propósito, comecei a ler a autobiografia do Ruben A. A abertura – a cena do naufrágio – é de se lhe tirar o chapéu. A descrição da casa do Campo Alegre é primorosa, paira pelo livro uma discreta ironia muito deliciosa: um átrio de embasbacar, dezenas de salas de todos os feitios e dois quartos de banho apenas. “Tudo se processava numa medida faraónica, excepto dois míseros quartos de banho onde a família formava bicha nos patamares da acanhada escada”, que ficava por detrás do átrio para não prejudicar a faustosa simetria. Vou nas páginas 90 e, se até ao fim não se lhe esgotar o fôlego, é um livro e peras. Um museu a visitar logo que possa passar pelo Porto, sem dúvida.

    1. Essa cena do naufrágio ficou-me para sempre na memória. Tão vívida, tão bem descrita, que parecia estarmos lá também a ver.
      Não tardei a visitar o antigo palacete da família Andresen, no Campo Alegre – hoje reduzido a cerca de um terço do original pois parte do terreno foi expropriado para a construção dos acessos à Ponte da Arrábida.
      Está hoje transformado em jardim botânico, aberto ao público. Na casa, sem mobílias, realizam-se eventos culturais.
      Vale a pena visitar. É um belíssimo espaço da cidade do Porto.

  5. Como opinião pessoal, o primeiro texto escolhido vale apenas na medida em que o relatório seja desconhecido ou esteja já esquecido.
    Como o autor diz, a primeira conclusão é uma tautologia mas, parece de facto que (ainda?) não é equacionada em grande parte da decisão económica mundial.
    A segunda conclusão, como comentei no primitivo postal, foi prejudicada no seu “timing” por descobertas posteriores. Por exemplo, as reservas mundiais de petróleo conhecidas, são hoje de cerca do dobro das que eram conhecidas em 1970 embora, como o autor bem aponta, a maior parte delas tem um rácio (o Pedro Correia que me desculpe mas ou “ratio” ou “rácio”) bem mais desfavorável.
    Mas um relatório de 1970, dada a vertiginosa evolução verificada, está forçosamente datado.
    Mesmo não se tratando da extinção da humanidade mas de questões que irão ou poderão provocar enormes mudanças de paradigma, antes da exaustão dos recursos naturais, hoje eu escolheria outros dois.

    O primeiro seriam as alterações climáticas e a subida das temperaturas médias e do nível dos mares (sem discutir aqui se apenas por acção humana se por mudança de ciclo climático longo). Na componente humana, lembro o recente cargueiro que entupiu o Suez. Há actualmente cerca de 40 destes super-cargueiros a navegar e os níveis de poluição e CO2 que produzem são iguais aos de toda a frota automóvel mundial (dados de há 2/3 anos, publicamente apresentados por Carlos Tavares, CEO da Peugeot-Citröen a propósito da transição para os veículos eléctricos). Além dos super-cargueiros, lembraria os maiores poluidores (antes de certas indústrias) que são os aviões. Ora não só a carga aérea está em crescimento acelerado como o mesmo tem acontecido ao turismo.

    O segundo é mesmo a guerra. Poucos identificam a TSMC, menos ainda sabem que produz mais de metade dos microprocessadores do mundo, ainda menos imaginam que se situa em Taiwan, e muito raros saberão que, na práctica, esta situação não se pode diversificar a curto prazo. Ora muito recentemente uma muito ligeira quebra no fornecimento de microchips provocou problemas em todo o mundo (até a Autoeuropa parou completamente uma semana e não sei se retomou a 100% ou ficou mais tempo em produção reduzida).
    Os curiosos podem ler o artigo de José Couto Nogueira (que interessa na parte final) aqui:
    https://domtotal.com/noticia/1460402/2020/07/as-guerras-do-5g-mostram-como-o-digital-e-a-nova-arma-de-supremacia-mundial/
    Se alguém leu o meu referido comentário, percebe melhor ao que me referi quando no pior cenário incluí disrupções no comércio mundial, .
    Acrescento ainda que um analista de política internacional que habitualmente sigo e subscrevo, prevê (nos tempos de desordem que se seguem mas isso seria outro assunto) desenvolvimentos no conflito Irão vs. Arábia Saudita (hoje muito complicados pela alta probabilidade da Turquia se tornar também um “player”), possivelmente no Cáucaso e, como guerras possíveis (Rússia vs. Suécia, Alemanha, Polónia, Inglaterra, etc.) e, com maior probabilidade, China vs. Japão, Coreia e Taiwan (também recentemente alterado e não para melhor).
    Neste quadro, seria para muitos chocante, alinhar umas ideias entre as políticas externas de Trump e de Biden mas, para já e com desculpas ao autor e ao seleccionador, para mim o Relatório Meadows ficou a quilómetros do centro das minhas preocupações.

    1. Caro Francisco, muito obrigado pelos seus comentários.

      A significância do relatório Meadows reside, em boa medida, em ter sido o primeiro bemol historicamente significativo à poderosa e sedutora visão do mundo que propulsionou (e ainda o faz) a hiperpotência americana durante décadas. O relatório Meadows, passada a agitação inicial, foi um daqueles sinais fracos, compreendido ao princípio por poucos, que anunciam o fim de uma mundivisão hegemónica (ou, melhor, o início da problematização de uma ideia de contornos prometeicos; foi o fim de uma certa “idade da” inocência). Essas ideias, esteja descansado devidamente actualizadas, eram já moeda corrente nos meios científicos de ponta norte-americanos em finais dos anos 90. Os meios da política e da economia, esta última pretensamente apolítica, são outra história em que não tenho vontade de entrar por agora. O relatório Meadows terá constituídou, avento eu, uma espécie de contraponto histórico a um outro relatório célebre “Science: the endless frontier” redigido por Vannevar Bush para FDR/Truman. E eis-nos de volta ao ponto de partida: The endless frontier, the Far West, Colombo, o Infante D. Henrique e a Ínclita Geração. Mas ainda com um enigma por resolver.

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