O regresso


Pedro Correia,

VBBL97HO.jpg

Foto: João Relvas / Lusa

 

O estado de anemia do espaço político tradicional do centro-direita ficou bem patente, nestes dois últimos dias, com o regresso de Pedro Passos Coelho aos focos noticiosos. Nem precisou de abrir a boca. Bastou-lhe aparecer na convenção promovida pelo MEL no centro de congressos de Lisboa para se tornar notícia. Em silêncio, conseguiu mais protagonismo do que todos os oradores.

Quem esteja atento aos sinais, percebe que nada disto acontece por acaso. No segundo dia, Passos entrou na sala seguido de Paulo Portas – numa espécie de hierarquia natural, reproduzindo a existente no Governo que ambos formaram há dez anos. Também aqui foram desnecessárias palavras: a linguagem não-verbal dizia tudo. Com um toque de premonição, como o futuro próximo demonstrará.

Enfim, o tratamento que o ex-primeiro-ministro dispensou a André Ventura foi igualmente revelador. O ansioso deputado do Chega acercou-se dele de mão estendida, procurando potenciar aquela photo op, como se diz em jargão de assessoria mediática. A reacção de Passos não deixou margem para dúvidas: nem se levantou para lhe retribuir o cumprimento, nem lhe deu uma segunda hipótese para nova imagem conjunta, abandonando a sala antes de o líder do Chega descer do palco.

Enfim, evidências de profissionalismo político. Demonstrando aos amadores como se faz. Sem necessidade de nenhuma agência de comunicação a ditar regras ou dar o mote. Quando há dotes naturais de liderança tudo isto parece fácil. Quando não há, até a própria sombra atrapalha. 

11 comentários em “O regresso”

  1. são estratégias, meras cambalhotas políticas com fim pré determinado. Não o encontro um bom líder, mas sou apenas um indivíduo num mar de gente.

  2. Dando um salto no tempo, e a confirmar-se o regresso da dupla – o que não seria mau para o país –, faço votos para que atrelados a Passos Coelho e Paulo Portas não venham de enxurrada os Relvas e as fornadas de habituais empertigados e insensíveis das ciências jurídicas e empresariais com muita lábia para vender e se promoverem a si e aos amigos e pouco conhecimento e preocupação com o país real.

  3. É nos pequenos gestos que se percebe a educação. Passos Coelho devia o ter cumprimentado por uma questão de civilidade.
    Mas num país de ódios, é assim mesmo, o que conta é andar tudo a batatada para bem da suposta democracia de velhos espíritos ditatoriais

    Joana Neves

  4. Os dotes naturais de liderança revelam-se enquanto se lidera e não nas poses pós oportunidade de liderança. Um dos problemas que acomete transversalmente a sociedade é facto de se ver muitas poses e poucas lideranças.

    Que isto não é por acaso todos sabemos. Mas também sabemos que um dia os outrora falhados também merecem ser reabilitados.
    Por outro lado, a importância que o Chega tem no meio social e político serve como sinal indicativo que o meio político tem sido uma merda.
    O PSD, associado ao poucochinho Costa, foi causador desta mesma bagunça. Seguro, inicialmente titubeante, soube percorrer o caminho das pedras. Porém como tudo é imediato em política e vive-se para o momento, sem memória e sem visão profética, a merda que acima referi tem-se há muito acumulado.

    O exemplo mais recente da verdade no parágrafo anterior também ocorre nos USA. Isto é, depois de um grande momento Trump surgiu outro trumpista sem qualquer talento, mas, por gostar de likes e subscrições, dá seguimento ao que o antecessor fez aparecendo ele a dizer-se autor do que não faz e nunca fez.

    Qualquer semelhança com a realidade nacional não é mera coincidência.

  5. Este texto fez-me recuar àqueles tempos das festanças em que no meio deles e delas a dar nas vistas, aparecia sempre a Jeitosa, já com a casa composta, em que tudo botava o olho embora chegasse sem espalhafato, mas que só dava cavaco (sem duplo sentido) a um grupo restrito.

  6. Ainda hoje não sabemos como teria sido Passos Coelho em diferentes circunstâncias. É certo que excedeu as expectativas e conseguiu uma saída limpa do resgate, contra os prognósticos dos mais bem informados. E conseguiu-o alienando para sempre toda a esquerda que o acusa de ter ido mais longe do que “troika”. Também é certo que todas as medidas que tentou para reduzir a despesa foram inviabilizadas, quer por falta de suficiente apoio do seu próprio partido quer pela guerrilha mediática e arruaceira, quer sobretudo pela força de obstrução que efectivamente foi o tribunal constitucional. Assim, reduziu o défice exclusivamente pelo aumento da receita, com o mais grave agravamento fiscal em curto tempo, o que também lhe terá alienado algum suporte à direita.
    Hoje o quadro piorou. São de esperar ainda mais oposição do sistema mediático, ainda mais arruaceirismo, o boicote de alguns sectores da administração pública fortemente infiltrada pelo PS e aliados e até um dos muito agressivos críticos de Passos Coelho, preside hoje ao tribunal constitucional.
    Se PPC tem o profissionalismo que o autor do postal lhe atribui, não lhe vejo outra possibilidade de êxito a não ser como sucessor de Marcelo. E, para que isso seja possível, parece-me necessário que o PS continue a governar depois de 2023 e que a situação de tal forma se degrade que o país esteja disposto a assegurar-lhe uma vitória suficientemente expressiva para poder puxar o sistema que hoje temos – semi-presidencialismo de primeiro-ministro – para um sistema de semi-presidencialismo de presidente da república.
    Sinceramente, parece-me mais provável outro resgate e o governo efectivo de “troikas” de alemães mascarados de europeus e de europeus ao serviço dos alemães.

  7. A geringonça foi um desastre político. Impediu Passos Coelho de continuar a sua obra e quem colheu os frutos foi o Costa. O Bloco e o PCP ficaram reféns do Costa, obrigados a engolirem muitos sapos e deixaram de ser referência para muitos descontentes. Isto fez crescer a extrema-direita (sim, eu acho a extrema-direita mais perigosa do que a esquerda – nota: não sei se há extrema-esquerda em Portugal).

    Rui Rio enveredou por uma estratégia política desastrosa. Engorda o Costa e o chegueiro e esvazia o PSD (espero que não lhe tire o ar todo).

    Votante na reserva. Fico à espera de melhores dias…

  8. Eu acho que ele se levantou para cumprimentar Ventura. Mas terei de rever as imagens para confirmar.

    E acho que se não se levantou devia tê-lo feito porque sim.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *