Ler (2)


Pedro Correia,

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É sempre um momento agradável. Quando abro um novo livro, já o anterior ficou para trás. Faço questão, quase sempre, que seja de um género muito diferente. Para que as memórias de um e outro não se confundam.

Mas desta vez encalhei no primeiro parágrafo. A obra seleccionada foi Último Olhar, o mais recente romance de Miguel Sousa Tavares. Na esperança de que atenue tantas asneiras que tenho lido dele no Expresso sobre a agressão russa à Ucrânia.

Vicio de jornalista que passou largos anos a corrigir prosa alheia: leio sempre de lápis na mão. É uma forma de dialogar com o autor. Desta vez fiz cinco anotações imediatas no texto. Coisas que me pareceram incorrectas e deviam ter sido alteradas por um editor rigoroso.

Os livros de Sousa Tavares padecem deste mal: Equador, romance com méritos, tem cerca de 150 páginas em excesso e pelo menos um longo capítulo que está ali a mais. Imagino que ninguém na editora ousou beliscar o ego do autor, sugerindo-lhe alterações profundas no original. Foi pena. Teria sido melhor para todos. Incluindo os leitores.

 

Vamos lá às modificações que eu faria se fosse editor do romancista Sousa Tavares. Estão aqui assinaladas.

A primeira resulta de uma sintaxe que se vai generalizando por óbvia influência brasileira, derivada da escrita norte-americana. Refiro-me à mania de polvilhar frases com pronomes que no português europeu são desnecessários por estarem subentendidos. É o caso deste possessivo: se «consultou o relógio de pulso», só podia ser o dele. Aquele seu está ali a mais.

Segunda: o coloquialismo é que, redundante na escrita literária, aceita-se apenas se estivermos a reproduzir discurso oral. Não é o caso. Merecia o risco que lhe passei em cima. Já recomendava o grande Georges Simenon: «Escrever é cortar.»

Terceira: erro elementar de lógica: se são «cinco em ponto da tarde», em aparente paráfrase ao verso de Lorca, aquele mais ou menos inserido na mesma frase perde sentido. Uma coisa não cola com a outra.

Quarta: outra redundância, esta ainda mais escusada. A tal caravana de ambulâncias trazia a bordo, obviamente. Não iria transportar fora de bordo fosse lá o que fosse. Algo similar ao célebre «cai chuva lá fora» em que tropeço com frequência. Só admissível nos casos em que possa chover dentro de portas.

Quinta e última: o vírus da covid-19. Não entendo aquela preposição. Outra frase com gordura em excesso. E já nem discuto a súbita alteração de género, transitando do vírus masculino para o acrónimo de importação inglesa tornado feminino. «O vírus covid-19» bastaria. Mesmo numa Espanha «agonizante de pavor>.

 

Cinco incorrecções num parágrafo inicial são fatais, segundo o meu critério. Algo só possível porque os editores literários, quase sem excepção, recusam hoje alterar o material que lhes chega de autores consagrados. Noutros países, como os EUA, as provas são observadas e anotadas com minúcia. Longos excertos cortados, abundantes pontos de interrogação e comentários de todo o tipo ajudam o autor a melhorar o seu trabalho, chame-se ele como se chamar.

Levaram-me a fechar o livro, que aguardará nova oportunidade. Hei-de voltar a ele. Mas outros já lhe passaram à frente.

62 comentários em “Ler (2)”

  1. “o Federico já não se vai importar, pensou para consigo”
    Eu diria o mesmo em menos palavras:
    Federico não se vai importar, pensou.
    O “já” não adianta nada na frase.
    Pensar é sempre para consigo, digo eu.
    Culpas o editor mas o escritor, também, tem responsabilidade, apresenta uma prosa pouco enxuta.

    1. Sim, os exemplos que apontas também são evidentes.
      O abuso das redundâncias, os advérbios semeados a eito como os pronomes.

      Outro: «numa altura destas» é substituído com vantagem por «agora».
      Mais um pouco e ficava quase todo o parágrafo riscado.

      Critico o editor – este, como tantos outros – por não ousar emendar prosa dum autor consagrado.
      Deixa a tarefa, que devia ser dele, a cargo do leitor.
      Esquecendo o ensinamento do sábio Simenon: «Escrever é cortar.»
      Alguns não cortam porque não sabem, admito.

      Quanto ao autor, critico-o do princípio ao fim. Não preciso de usar maiúsculas ou semear o texto de pontos de exclamação (outros disparates que as redes ditas sociais desenterraram dos baús) para evidenciar isto.

  2. Tinha o Miguel Sousa Tavares em grande conta. Desapaixonei-me da sua escrita pela previsibilidade dos enredos dos últimos livros. Este ainda não li. Desapaixonei-me do escritor por expor tão flexuosamente as suas opiniões. Lamento.

    1. Sousa Tavares é o género de autor que ficará sempre a meio caminho, na estrada da literatura, sem um editor que ouse limpar-lhe a prosa.

      Ao ter de escrever pelo menos cinco mil caracteres por semana para o ‘Expresso’ despediu-se da prosa enxuta.

      Não é tarefa de revisor. É mesmo tarefa de editor.
      Este parágrafo inicial comprova isto.

  3. Tomei sempre a precaução de não ler e de nem querer ouvir MST —um diletante que põe sempre as suas estimas e afeições à frente das análises com que alguém insiste em brindar-nos regularmente— mas fico sempre fascinado com a sua capacidade para ser incorrecto. Excepção feita ao facto de ainda usar uma ortografia decente.

    Para o caso, o vírus é o SARS-Cov-2. A doença (a parte manifesta da virose) é que leva o nome de Covid-19. O problema aqui está, obviamente, na “actualidade” do assunto. Na patetice tremenda de escrever sobre uma coisa actual. A actualidade não tem relevância artística nenhuma. E é por isso que MST é mau: é um padeiro. Devia fazer pão.

  4. O estádio estava completamento cheio ou o estádio estava completamente vazio, qual é mais redundante: completamente cheio ou completamente vazio?

      1. Sabes que a malta leu Eça e ficou obcecada com os advérbios de modo. O problema é que poucos escritores são o Eça, claro.
        Uma das revisões de texto que faço quase sempre é mesmo para cortar advérbios de modo.

        1. Fazes bem, João. Eu tento o mesmo.
          Eça usava-os com evidente intenção irónica, de todo ausente da maioria das prosas contemporâneas. Aliás a ironia está em desuso acelerado, tal como as metáforas. Na era das redes ditas sociais só a linguagem denotativa tem livre curso.

        2. Foi com o Eça — o deus da Literatura Portuguesa na minha opinião — que aprendi a abusar dos advérbios de modo. Infelizmente, não sou o Eça e a minha escrita é uma aversão.

          Influenciada por ele ser o filho de uma das minhas poetisas de eleição, gosto de alguns dos livros do Miguel Sousa Tavares. O seu último romance ainda não o li.

          1. Já li vários livros dele. Distingo os de crónicas, memórias ou reportagens (‘Sul’, ‘Não te deixarei morrer, Davdi Crockett’, ‘Cebola Crua com Sal e Broa’) da narrativa romanesca.
            Como ando a tentar eleger os melhores romances portugueses do século XXI li o ‘Equador’, livro a que falou um bom trabalho de edição (com erros evidentes que deviam ter sido eliminados em tempo útil). E tenciono ler este quando me passar a má impressão causada pelo parágrafo inicial.

      2. Gabriel Garcia Márquez, contou numa entrevista que tinha conseguido libertar-se da utilização dos advérbios de modo, “dá trabalho mas o texto fica mais limpo” dizia.

        1. Pois. Não basta escrever. Uma grande parte do trabalho da escrita vem depois. Para eliminar gorduras, pleonasmos, entulho verbal.

          Há expressões que usamos muito na linguagem oral mas na escrita equivalem a pedras no sapato.
          “Anos atrás” é uma das mais frequentes: MST usa e abusa disto no ‘Equador’.

          Por isso compreendo hoje muito bem aquela frase do Simenon que parece um paradoxo. Escrever é cortar.
          Acertou.

        2. Há anos, quando o Arturo Pérez-Reverte reeditou um dos seus primeiros livros, li uma sua entrevista onde ele disse que reviu o texto para, entre outras coisas, retirar muitos advérbios de modo que eram “vício de principiante”.

  5. Não digo nada sobre Miguel Sousa Tavares.
    Vasco Pulido Valente disse tudo o que há a dizer sobre ele quando Sousa Tavares o provocou.

        1. Grato pela ligação, preciosa, que já cuidei de preservar. De facto, muita falta faz VPV. E que alívio para alguns que tenha partido.
          De Sousa Tavares li a “Cebola crua com sal e broa”. Tomei por boa a declaração da segunda edição (a de que tenho exemplar): de que “de olhos bem abertos” seria o “testemunho de um mundo”. (auto)Biográfico, sê-lo-a, resta-me aceitá-lo. O mundo dele. Isso e, na forma, a escrita em português de ortografia decente,. O que por estes desgraçados dias não é mérito menor.
          Mas, isto assente, mentiria se afirmasse a vontade de voltar ao que escreve

    1. Don’t bother, já encontrei. Nem li tudo. É demasiadamente mau. Fez-me recordar aquele artigo do Harold Bloom no NYT a desancar no saloio do Paul Auster. Até incomoda.

      1. VPV era arguto crítico literário. Fez, em poucas linhas, a melhor análise que conheço às virtudes e defeitos da obra romanesca de Agustina. Sem os berloques estilísticos tão comuns em Portugal.

          1. Romances não sei, mas as previsões dela no axis of evil são pura ficção. Nunca nenhuma se concretizou.

  6. O primeiro e último livro que li de MST foi o madrugada suja. Não sei se é preguiça ou mesmo falta de talento, mas o que escreve e como escreve é banal.

    1. O principal problema dele é ao nível da edição dos textos. Deve ter pouca ou nenhuma pachorra para rever e corrigir. Ou delega tal função em quem não devia, o que é mau, ou proíbe que lhe façam alterações, o que é pior.

      Mas um editor competente nunca lhe deveria dar luz verde a obras com erros grosseiros. Limito-me a apontar um: na página 101 de ‘Equador’ menciona São João Baptista de Ajudá, minúscula possessão portuguesa até 1961 na costa ocidental africana, dizendo que se encontrava «no Ghana».
      Ora Ajudá era um enclave no Daomé (à época do romance colónia francesa), independente desde 1960 e hoje designado Benim.
      O Gana, que só passou a denominar-se assim desde 1957 (sem aquele agá em português), era nesse tempo possessão britânica, designado Costa do Ouro.

      1. Leia-se Carlos Maria Bobone, em “A escrita de Miguel Sousa Tavares”. Creio que está lá tudo (ainda que em “acordês, desgraçadamente).

          1. Permite, pelo menos, que imprimam em acordês aquilo que escreve. Veja-se o texto na revista “especial aniversário”, número sete, págs. 130 e seguintes, do Observador.
            Uma lástima, enfim.

          2. Ainda bem que me avisa. Não irei adquirir tal publicação – embora alguns dos mais qualificados colunistas do ‘Observador’ façam questão de escrever com ortografia correcta, sem exterminarem consoantes nem mutilarem famílias lexicais.

          3. “(…) embora alguns dos mais qualificados colunistas do ‘Observador’ façam questão de escrever com ortografia correcta”. Razão porque a adquiri e li.
            Como documento de um tempo. Um tempo de que nos não orgulhamos – outros talvez se orgulhem – e que vale como tal: como documento. Definitivamente não como “literatura”.

  7. Quando és famoso podes escrever/cantar/pintar etc qualquer porcaria, o que vende é o teu nome e em Portugal isso é cada vez mais óbvio
    Pedro Cunha

    1. Diz o Senhor que o que vende em Portugal é o nome – ora eu tenho nome e não vendo nada… ando sempre a ver se vendo, a ver se vendo e nada…
      Ó c`um caneco!

  8. Estou a ler um livro recente de história que bem precisava de um trabalho de revisão a sério, com a quantidade de redundâncias e sentidos equívocos das frases. Até em anos se enganam: aparece um 1373 em lugar de 1873 (não me lembro se os anos são bem esses, mas a diferença é). Até fui conferir as páginas iniciais para ver se havia revisão. Havia. Ou antes, indicavam uma revisora, porque duvido que tenha tido qualquer trabalho.

    O Rio das Flores ainda tem mais palha que Equador. Na ânsia de despistar quaisquer erros e gaffes, temos 15 páginas de como se joga o bacarat, outras vinte sobre a tourada à espanhola e umas trinta sobre a história e política brasileiras dos anos 30. Coisas que caberiam em duas páginas, ou em mais se dissimuladas pelo meio ao longo dos parágrafos. E com isso quebrou-se a narrativa do que podia ser um excelente romance.

    Acredito que os “cinco em ponto do tarde” seja mesmo uma referência intencional a Lorca. Além da acção se passar no sul de Espanha, lembro-me de MST referir muitas vezes que Lorca era um autor que Sophia o obrigava a recitar de cor.

    1. lembro-me de MST referir muitas vezes que Lorca era um autor que Sophia o obrigava a recitar de cor.

      Credo, isto não se faz a uma criança..

      Não me choca tanto como a VPV coisas pouco exactas ou mesmo algum grau de desconhecimento da História, porque para os personagens pode ser real. Aliás, vemos que na realidade também há muita gente equivocada com a história, como os comunistas, que mentem e a falsificam deliberadamente.

      Chateia-me mais uma trama mal urdida, ou um texto mau, cheio de truques, lugares-comuns ou cor local. Acho que o maior problema dos romances (históricos ou não) é o impulso quase inconsciente do escritor para encher o texto de coisinhas comuns e não aprofundar a caracterização psicológica das personagens (que é feita pelo particularismo e não pelos tiques dos chavões — é por isso que, por exemplo, Bloom acusava Auster de criar personagens vulgares que diziam coisas vulgares e tinham pensamentos vulgares como se tivessem vindo de anúncios. O que revelavam era o vazio da sua figura (uma personagem-tipo) e falavam para o vazio (para corresponder à ideia do que pensa ou faz uma personagem-tipo).

  9. Equador deu para entreter, Rio das Flores desiludiu, no Último Olhar foi difícil chegar ao fim.
    É preciso coragem para uma segunda oportunidade caro Pedro.

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