A imprensa e os jornalistas dependem da relação fiduciária que estabelecem com leitores, ouvintes e espectadores. Uma vez quebrado o laço de confiança, não há injecções de capital nem ajudas de Estado que os salvem.
Vem isto a propósito de três episódios ocorridos nas últimas semanas. Primeiro, a SIC emitiu uma peça sobre tumultos em Londres motivados pelo coronavírus. Ora esses motins nunca aconteceram e as imagens que ilustravam a ‘notícia’ eram de um protesto ocorrido em 2011. Depois, vários órgãos de comunicação social publicaram um documento falso que se fazia passar por decreto do governo com as medidas para o estado de emergência. Hoje, parte da imprensa voltou a cair no truque do documento oficial falso, desta feita sobre o alegado cancelamento do projecto do aeroporto no Montijo.
O caso do motim em Londres espelha inépcia grosseira e falta de profissionalismo no seu máximo esplendor. Já a publicação dos documentos falsificados revela pelo menos falta de atenção, uma vez que era fácil suspeitar da sua veracidade – recebi o suposto decreto do estado de emergência através das redes sociais e mal terminei de ler a primeira página já estava a franzir o sobrolho.
Pede-se mais, sobretudo num momento de crise e ansiedade. Todos erramos, evidentemente, mas este tipo de erros não são justificáveis. Convidam-nos a assinar jornais, a ajudar a imprensa, mas não se garante a lisura e o rigor na produção de conteúdos. Suspeito que, a continuar por este caminho, a decadência será inevitável, com elevado prejuízo para a qualidade da democracia e para o direito (e necessidade imperiosa) de estar informado.

Muito justo e oportuno este teu comentário, Diogo.
Lamentavelmente, Teresa. E obrigado.
Percebo Diogo. Mas a SIC, através de Rodrigo Guedes de Carvalho,pediu, posteriormente, desculpa pelo sucedido. De louvar também a parceria SIC /Polígrafo
Não foi um erro ou uma distracção. Não foi um “vi mal” ou um “não percebi”. Foi a fabricação pura e dura de uma ‘notícia’. Parece-me que o pedido de desculpas não chega, desde logo porque a jornalista que assinou a peça continua a tratar do internacional nos espaços noticiosos da SIC.
Bem, se foi uma “fabricação” presumo que tenha tido um propósito, inclusive não jornalístico. Político? Acusação grave, segundo me contam, passível de originar queixa crime por parte da estação televisiva ou de quem denúncia.
Quanto a “fabricações” também me recordo de algumas, em tempos de crise, por parte da estação pública. Famosas ficaram as reportagens “gregas” feitas pelo “repórter de guerra” .
Tudo de bom
É a economia “liberal”a funcionar…
Já os pedinchas do Observador, ECO e “trust in news” nem têm vergonha, especialmente o Observador criado para servir uma agenda e agora anda a pedir.
Não esquecer também os Jornalistas desempregados e que diziam mal das empresas publicas e agora é vê-los a comer sentados á mesa do orçamento.
WW
Não tem absolutamente nada a ver com liberalismo – só por cegueira ideológica se encontra nisto os males da economia de mercado. O Observador e ECO não têm caído nestas falhas, tanto quanto pude perceber. E têm todo o direito de defender agendas. Aliás, como leitor, prefiro o modelo espanhol, onde todos sabem o que estão a ler – ao contrário do sistema dominante em Portugal, onde são todos “imparciais”, mas jorram clubite por todo o lado.
Ai que medo a economia liberal. Você escreveu o seu comentário onde — numa puta de uma ardósia e pediu a um fascista para o pôr online?
V, eu escrevi liberal entre aspas, acho que isso diz tudo.
Em resposta ao Diogo Noivo tenho de dizer-lhe que os que referi parecem umas cigarras sempre a cantar e a gozar com as formigas e agora andam de mão estendida, se não podem continuar devem falir como todos os negócios privados tirando os bancos claro, que esses não são privados nem públicos, são a 3ª via …
WW
O maior problema, Diogo, é as empresas jornalísticas que tanto exigem aos políticos a aplicação da ética da responsabilidade não praticarem essa mesma ética intramuros.
A prova está à vista. Quem cometeu o erro grosseiro que mencionas e quem o validou continuam em plena actividade. Um dia destes, um e outro talvez até se atrevam a dar lições de ética e deontologia profissional a terceiros.
Na mouche, Pedro. E sim, não preciso de puxar pela imaginação para ver esse filme, onde quem cometeu erros grosseiros dá lições de ética e deontologia profissional a terceiros.
Artur Batista da Silva não foi assim há tanto tempo.
Costa
Baptista, creio. Meu erro.
Pois não, Costa. Tal como sucedeu dessa vez, desta também não veremos consequências.
Consequências houve: foi nomeado há alguns anos pelo governo de Costa para a presidência da Lusa (os favores pagam-se). Pior: anda agora por aí, sem que ninguém se lhe ria na cara, a perorar contra o fenómeno das “fake news”.
Ontem, mesmo antes desse Nicolau botar o seu discurso diário na Antena 1 – sempre “isento”, claro – outro “isento” que bota discurso diário na Antena 1, o Sena Santos, clamava contra as “fake news” e saudava o facto de a UE ter criado um Sistema de Alerta Rápido para suprimir campanhas de desinformação e aplaudia a decisão do Facebook, Twitter e Instagram apagarem posts do Presidente do Brasil. Hoje o mesmo Sena Santos dizia que o facto do Primeiro Ministro da Hungria ter criado legislação a punir as “fake news” era prova de que era um ditador. São tão “isentos” que nem dão conta que num dia são a favor da censura e no outro são contra, consoante quem censura e quem é censurado.
O costume, JPT. Recordo-me de um jornalista, que depois foi para consultor de comunicação de um hooligan qualquer da bola, que numa semana saudou o papel da ideologia na política para na semana seguinte dizer que o “mundo está perigoso” por força da ideologia. Génios incompreendidos.
Tens toda a razão, João. A consequência é serem chutados para cima.
Acima de tudo mostra aquilo a que poderíamos chamar qualidade de serviço.
De certeza que uma empresa de electrodomésticos não faz de propósito mandar para as lojas um frigorífico com defeito. Ou a MEO não anda aí aos cortes para diversão da empresa.
A nossa escolha por um bem ou serviço baseia-se na qualidade destes.
E eu a pensar que isso das fake news era tudo mentira. Que o sensacionalismo e o alarmismo não eram geradores de receitas.
Que o código deontológico dos jornalistas apenas permitia a publicação de notícias confirmadas por segunda fonte. Que os jornalistas eram autênticos “tudólogos”, que trauteavam sobre a espuma dos dias com a mesma facilidade com que tratavam estatísticas, gráficos, leis da Física, da Química e outros assuntos científicos da mais diversa natureza, sem nunca se engarem e raramente terem dúvidas.
Como me confesso desiludido por não acreditar nas fake news… na sua existência, queria eu dizer (grande gargalhada, equivalente a LOL).