Inversão de valores


Pedro Correia,

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Numa recente edição de um mesmo jornal, que se vem especializando em fornecer aos leitores “conteúdos patrocinados” – ou seja, publicidade e propaganda em vez de jornalismo – podemos ler um rasgado elogio a um hotel português recentemente remodelado, situado no centro de uma capital de distrito. «Tivemos um grande cuidado na escolha dos colchões, roupa de cama e atoalhados», declara o administrador do hotel, citado no periódico. Enquanto se elogia o estabelecimento por ser «um espaço onde reina o sossego». Acrescentando-se: «Razão pela qual não aceita crianças com idade inferior a quatro anos, nem reservas de grupos.»

Vira-se a página, fugindo deste hotel alérgico a crianças, e o que encontramos? Outro artigo, dando um enorme destaque a esplanadas e restaurantes «onde os animais entram mesmo», como proclama o título. «Se gosta de levar o seu animal de estimação para todo o lado, esta lista é para si. Compilámos vários restaurantes ‘pet-friendly’ [sic], onde os animais entram mesmo e não são recambiados para as esplanadas.»

 

Estas quatro páginas – primeiro em desbragado elogio ao hotel que proíbe a entrada de crianças até quatro anos, depois em apologia não menos calorosa aos restaurantes que permitem a entrada de animais – são um perfeito retrato desta envelhecida Europa em que vivemos: bebés postos à distância e cachorrinhos acolhidos com beijos e abraços.

A narrativa corrente bestializa seres humanos (desde logo por impedirem o “sossego” alheio) e humaniza a bicharada, em versão ainda mais delicodoce do que os filmes de Walt Disney. Nesta visão, que se vai tornando dominante, um mundo perfeito seria aquele que não tivesse bebés (com o seu abominável cortejo de fraldas, sessões de choro e noites mal dormidas), entretanto substituídos por adoráveis mascotes de quatro patas com os seus irresistíveis e submissos latidos.

 

Contra a corrente, chamo a isto inversão de valores, sujeitando-me a que me chamem um impenitente reaccionário. Sinto-me, de facto, muito antigo ao defender que não existe equivalência entre seres humanos e animais nem estes são titulares de direitos na medida em que ninguém pode impor-lhes o correspondente catálogo de deveres. E sinto-me quase pré-histórico por recusar hospedar-me em hotéis que não são ‘children-friendly’, para usar esta expressão popularizada na modernaça escrita jornalística cá do burgo.

Até aprecio sossego. Mas esse não, obrigado.

0 comentários em “Inversão de valores”

  1. “Sinto-me, de facto, muito antigo ao defender que não existe equivalência entre seres humanos”

    Equivalência não existe, mas tenho a tendência a amar os animais domesticados que certos animais racionais que andam por aí. Por mim mereciam rastejar.

  2. Decadência do chamado “ocidente”.
    E, como não podia deixar de ser, no”torrãozinho de açúcar” , a coisa sai sempre com um toque ” à la Salcede”, imitando o “chic” lá de fora…

    JSP

  3. Boa tarde Pedro Correia.
    Salvo melhor opinião estamos a viver tempos …….caricatos?
    Bom, as suas palavras fazem-me recordar tempos passados, concretamente quando por razões profissionais estive quase dois anos a trabalhar / viver em Haia.
    Uma noite, num belíssimo e não barato restaurante, especializado em boa carne, numa mesa ao lado da minha, um holandês que na altura imaginei tivesse pelo menos 60 anos jantava calmamente tendo sentado a seu lado um “Grand Danois”, cuja cabeça estava um pouco acima do tampo da mesa.
    O mesmo garfo saltitava da boca do homem para a boca do cão que bem apreciava a carne.
    Gostos!
    Com o que hoje se vai passando, periodicamente recordo esta “cena”!!!
    António Cabral

    1. Se fosse na China, meu caro, o Grand Danois passaria rapidamente da sala para a cozinha.
      E lá teriam os nossos relativistas morais de aceitar tal facto, em nome do “multiculturalismo”. Batendo palminhas.

  4. Subscrevo completamente.
    A inversão de valores e a contradição dos princípios enunciados pelas práticas correntes está em quase tudo e por toda a parte.
    Mas há uma que é a mãe de todas as inversões:
    – 26 entidades (privadas) acumulam tanta riqueza como 4 mil milhões de pessoas; em França, 6 entidades (privadas) acumulam tanta riqueza como 1/3 dos seus habitantes!
    E a tendência continua…
    Qualquer outra discussão acerca de inversão de valores…
    João de Brito

  5. Há de facto uma inversão de valores. Começa logo nessa tristíssima hipocrisia dos “conteúdos patrocinados”. Como se a publicidade – essa actividade legal, regulada, parte lícita da economia e que até pôs, suponho que põe, o pão na mesa a alguns tão, e tão bem, admirados artistas e pensadores (alguns ideologicamente incompatíveis com ela) – fosse um deplorável vício. Vício sem o qual se não consegue viver, mas que jamais se confessa e até num plano ideal se ab-roga. E com isso não é o vício que sofre, é o viciado que mais se afunda.

    Quanto ao resto, os tempos que aí vêm – o dia e noite passados, e a manhã de hoje, são disso claro exemplo – não serão melhores do que os que deixámos. Ser reaccionário, e não conservador, é por isso, e com muita pena minha, um mero dever de civilidade. É uma lástima, mas é – vai sendo – verdade.

    Direitos sem os deveres correspondentes, na verdade, já os humanos crescentemente os reclamam (os direitos) e sem o menor pudor recusam (os deveres). E de forma clara parece ser esse o politicamente correcto. Cuidemos então e quanto possível – pois é nossa responsabilidade enquanto seres superiores – do bem-estar dos animais que decidimos chamar de irracionais.

    Tenha eu escolha quanto aos locais que frequento: seja eu livre de não tomar uma refeição ao lado de um adorável cãozinho que, todavia, há muito deveria ter tomado um banho. E possa eu passar um (ansiado, merecido, necessário e pago com o meu trabalho) fim de semana de paz, sem criancinhas, pequenos tiranos sobre quem qualquer esforço de disciplina é crime (e educar é tudo permitir), a correr e guinchar interminável e impunemente entre mesas ou o que seja.

    Quanto ao inocente choro de bebés, são isso mesmo: bebés. Quem os gerou deveria perceber a responsabilidade de tal acto. Deveria merecer os filhos. Há idades e momentos que se deveriam passar em casa, em paz, e não onde manifestamente e para próprio bem se não deveria – salvo caso de força maior – estar.

    Mas que quem aceite isso, ou até o procure, o possa fazer. Sem ponta de ironia ou cinismo, há espaço para uns e outros. Há coisas muito, muito piores, a desenhar-se no horizonte. Mas consta, dizem os correctos pensadores, que afinal são as certas.

    Costa

  6. Os cães são inteligentes como os seus donos, há uma relação directa.
    Conheço um sujeito com 80 anos que tem de subir e descer 5 andares a pé porque 2 cães no seu prédio têm prioridade.
    Assim como uma enfermeira que conheci num hospital que até a baba dum cão lhe provoca grandes alergias.
    Deprimente ver gente nova e casais novos que precisam de se acompanhar de cão.

  7. Bom, educam mais os cães que as crianças.. ensinam um cão a comportar-se em sociedade (sentadinho, coleira, caladinho e tal) , enquanto deixam as crianças, hoje em dia, à solta completamente selvagens, como se os outros as tivéssemos de aturar. Aqui está a primeira inversão de valores : educam os bichos, mas não as crianças, coitadinhas , podem ficar traumatizadas….

    1. Ora muito bem.

      Mas se o resultado pode ser inversão de valores a pergunta que deve fazer é porquê?

      E a razão é porque as pessoas precisam de encontrar algo supostamente moderno -desde que seja diferente do que existe- para mostrar virtude aos outros e assim se afirmarem social e como consequência politicamente na sua geração.

      Ainda me lembro nos anos 80 quando no Ensino Secundário o 7º-9ºano deixou de ter notas de 0-20 para passar a 0-5 porque tanta diferença poderia traumatizar os adolescentes…

    1. Estas coisas ainda me fazem muita confusão, Dulce. Continuo mal adaptado a este admirável mundo novo, em que os deputados legislam sobre a admissão de cães e gatos em restaurantes enquanto recusam criminalizar o abandono de velhos e o Governo ignora por completo o estatuto de cuidador informal – de seres humanos, não de bichos.

      https://www.sabado.pt/portugal/politica/detalhe/criminalizacao-do-abandono-de-idosos-rejeitada-no-parlamento

      https://www.publico.pt/2018/12/14/sociedade/noticia/lei-bases-governo-deixa-cair-estatuto-cuidador-informal-1854704

      1. Afasto-me do tema, mas a referência que faz ao estatuto do cuidador informal (consagrada mas estranha denominação, pois que formal e materialmente ele, o cuidador, cuida) leva-me a invocar a caixa de Pandora que o poder abriria se o reconhecesse. É que estaria, pelo menos, a reconhecer a sua – do poder – reiterada e longeva incapacidade para com suficiência e dignidade (na verdade para de todo) apoiar de forma organizada, extensiva, o cidadão idoso ou afligido por doença ou condição incapacitante. E isso num país onde o saque fiscal é o conhecido e a administração pública tem uma dimensão longe de residual.

        Seria uma confissão que se não tem a coragem – ou a honestidade – de fazer.

        A desonestidade oficial tem destas coisas: reduzir a uma informalidade (e percebe-se: se não é prestado pelo estado, o que quer que seja é coisa informal, mesmo que essencial e mesmo que o estado o não preste), algo cuja ausência provocaria uma verdadeira catástrofe social. Reduzir à informalidade e, como tal, ignorar.

        Um problema e uma despesa a menos.

        Costa

    1. Neste caso não li o livro: só vi o filme. A acção futura decorre em 2021. Faltam agora só dois anos.
      Estamos muito menos longe desse cenário do que à época se imaginou.

  8. Cada um é como é.
    Enquanto a minha filha era pequena (1, 2 anos), não frequentei restaurantes porque na minha ideia, o seu comportamento (natural) iria perturbar as outras pessoas. Por outro lado, já tive petizes a correr pelo meio das cadeira de um restaurante, a bater nas pessoas, e quando as mães foram chamadas à atenção pelo empregado, saíram indignadas do mesmo porque o cliente que protestou (eu) fora rude. Mas são pensamentos individuais.
    Do mesmo modo, só frequento locais onde me sinta bem. Tal como não vou ao cinema porque não suporto música mandibular e sorver ao desafio, deixo de ir a qualquer estabelecimento que aceite animais de estimação.

    1. Já não deve ir ao cinema há anos.
      Eu vou muito ao cinema e além de não deparar com “música mandibular”, quase não vejo espectadores.
      Um dia destes começam a cobrar bilhete a bobis e tarecos: pode ser que atraiam mais bichos. Quero dizer, mais gente.

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