
Portugal descobriu, esta semana, os trabalhadores ilegais. Camaratas com dezenas de pessoas, sem condições mínimas de higiene, sem distanciamento social, alimentação inenarrável, horários de trabalho esticados até ao limite da resistência física. Indigno, desumano, cruel.
É irónico que este assunto seja discutido quando se assinala mais um Dia do Trabalhador, essa “festa” da “esquerdalha”, que os críticos do sofá afirmam servir apenas para passeios, piqueniques e compras, com a desculpa das manifestações. Esse dia anacrónico, fossilizado, de uma luta que, dizem, já não se justifica e que é só uma desculpa para não trabalhar.
Mas não é, pois não? Se dúvidas havia, os trabalhadores ilegais do sudoeste alentejano aí estão, evidentes, impossíveis de ignorar, a demonstrar que há ainda tanto por fazer, tanto por que lutar.
A crueldade maior – e a hipocrisia de tudo isto – é que se não fosse a Covid, permaneceriam “arrumados” nas suas camaratas, invisíveis de segunda a sábado, fugazes na carrinha que os leva a fazer as compras ao domingo e os traz de volta ao alojamento. Em Odemira, no cultivo dos frutos vermelhos, mas também nas estufas entre Pegões e o Montijo, ou no Alentejo interior, no tempo da azeitona. Fazem o que os portugueses não querem fazer. Ou melhor, corrijo: fazem o que os portugueses fariam, se recebessem salários compatíveis com a dureza do trabalho, em horários decentes e com condições de alojamento minimamente dignas.
A Covid, que não distingue ricos e pobres, trouxe-os para a ribalta, exibiu-os aos olhos de todos. Eis a podridão do sistema. Eis o que todos sabiam, mas sobre o qual nunca falavam. Eis o que se permitiu que acontecesse, com a conivência do silêncio, dos suspiros ligeiros para o lado, enquanto se murmura “coitados!”.
Este “coitados” não são mais do que os portugueses que nas décadas de 60, 70 e 80 limparam prédios e escritórios, trabalharam na construção civil e nas fábricas de França, Suíça ou Alemanha. Mas a esses, aos nossos, não os víamos, estavam longe dos olhos. Só lhes conhecemos os carros, os modos estrangeirados e o português transfigurado, com os quais rapidamente fizemos piadas de mau gosto.
A estes, aos que nos produzem os frutos que saboreamos, não os podemos ignorar. Estão aqui e são um problema que se alimentou de um silêncio insuportável. Do nosso silêncio insuportável.
(imagem retirada daqui.)

Mas o governo reconheceu que errou e vai instalar os trabalhadores num resort de luxo.
Podemos ficar descansados que o trabalho não pára, os proprietários das casas começam já na segunda-feira na apanha da fruta.
Um erro em cima de outro erro, não fazem um certo (é assim a expressão?). A culpa tem destas coisas, é impulsiva.
Eu não sei se o erro é intencional ou não, o que eu sei é que as câmaras onde ocorrem os cercos sanitários são governadas pelo PSD.
Olhe que não. O Presidente da Câmara de Odemira, José Manuel Guerreiro, foi eleito pelo PS. Por acaso, é interessante analisar os comportamentos dos eleitos pelo partido do Governo nesta situação. Perante a população, há uma demonstração de indignação contra o Estado (o governo desaparece do discurso), ao mesmo tempo que se assume o papel de bom cumpridor perante a estrutura partidária. Mas esta conversa dá para outra discussão.
Em Odemira é praticamente impossível o PSD ganhar a câmara. Lá consegue em Milfontes e numa ou outra freguesia muito ocasionalmente, mas não vai mais longe do que isso.
O presidente da CMO é um mole, diga-se de passagem. Há anos que o ouço a queixar-se do excesso de população e da falta de infraestruturas para essa população (o que é legítimo), mas não lhe vi grande acção para resolver a coisa. Até podia dar o desconto da distância (já lá não vivo, afinal), mas quem conheço que lá vive e trabalha diz exactamente o mesmo. A pandemia veio colocar tudo a nu: tanto a miséria de muitos imigrantes que por lá sobrevivem, como a inércia do poder político, tanto local como nacional.
Tem razão, li algures não confirmei. E não confirmei porque não desconfiei.
Em Odemira há uma série de juntas, curiosamente os presidentes das duas juntas que estão com o cerco sanitário, são do PS. Ambas as reacções foram extremamente violentas, contra o governo. O contrário de Ovar, aonde o presidente da câmara quis ter o protagonismo.
Ovar, sim. E Reguengos, até ao momento em que começaram a surgir as vítimas mortais.
Mas a Zélia conhece, com um mínimo de detalhe, as condições de vida desses trabalhadores? Já visitou as instalações onde dormem? Já comeu as refeições deles? Sabe quais são os seus horários de trabalho? E já entrevistou essas pessoas, a perguntar-lhes porque insistem em vir para Portugal?
Eu já ajudei uma pessoa, no Norte, a equipar uma casa que depois arrendou a trabalhadores migrantes na agricultura. E, pelo quie essa pessoa me diz, as condições da casa não são nada más, e os trabalhadores vivem lá deveras bem.
Pode ser que no Alentejo seja pior, não sei.
Sim, já vi. Não comi as refeições, mas já vi. Vi no Alentejo.
Vieram para Portugal à procura da sobrevivência e é em nome dela que se sujeitam a tudo isto. Mas isso não justifica que estas situações continuem a acontecer. Não é por eles estarem tão desesperados a ponto de aceitar o que lhes é imposto, que isto se torna correcto ou adequado.
Claro que há casos, como o que refere, de pessoas que tratam os trabalhadores com dignidade. O que precisamos é que esses casos sejam a regra.
Boa tarde
Os trabalhadores não são ilegais, são pessoas com necessidades de subsistência enquanto vegetam neste mundo.
Ilegais são aqueles que os exploram até o tutano e que têm o desplante de se intitularem homens, quando não passam de brutos carnívoros canibais.
Zé Onofre
Tem razão. Tristemente, toda a razão.
Eu acabei de ver na televisão, mas parece que não sei o quê da bola é mais importante. Na mouche o seu post. Keep them coming.
A bola (da qual também sou fã) não pode ser desculpa para o alheamento e a indiferença. Obrigada.
Tal como foi referido num comentário acima, estes trabalhadores não são ilegais, chegam a Portugal com um visto de trabalho. E isso é um pormenor bastante relevante, na medida em que responsabiliza as empresas e o Governo pela indecência que se passa nas explorações.
É também um exemplo da irresponsabilidade e da desumanidade da nossa politica de imigração, que gostamos tanto de vender na feira de vaidades das NU e da UE: os vistos são concedidos sem realmente exigir responsabilidade a estas empresas abutres e depois logo se vê. O que interessa é que venham, quanto mais miseráveis melhor, que refilam menos. Não é responsável e não é justo. Se os nossos não aceitam trabalho naquelas condições, é legítimo oferecê-las a quem não tem quase nada? E ai de quem criticar, que leva o selinho de fascista.
O Governo é, pelo menos, conivente com o que se passa no Alentejo. Permitiu que a situação se criasse e, quando correu mal, não tinha meios para lhe fazer frente, apesar da extorsão fiscal que impõe aos cidadãos. Algo está profundamente errado neste país, e não é de agora.
Concordo consigo. É assim mesmo, como diz.
Apenas um esclarecimento quanto aos ilegais: as obrigações contratuais, de acordo com a lei portuguesa, não são cumpridas nas situações que descrevi. De facto, as pessoas não são ilegais, têm um visto, os seus contratos de trabalho é que não cumprem a legalidade. Se a cumprem no papel (imagino que sim, para fundamentarem o visto), a realidade é bem diferente, como agora se tornou público.
“Do nosso silêncio insuportável.” Eu não tenho responsabilidade alguma nisso. Falem sobre Odemira, sua população, as supostas autoridades locais e até mesmo os representantes dos diversos partidos nessa área. São esses que devem ser julgados.
Esses é que estiveram calados, e quiçá alguns deles a beneficiar disso.
Trabalhadores ilegais (salvo seja)?
Vá lá, algo em que estamos em linha com a Europa do pelotão da frente.
O Mundial de futebol também está aí, não está?
Os avós desses trabalhadores das estufas, já há muitos anos iam fazer trabalho sazonal de frutos silvestres na Escandinávia, frutos silvestres e não só mas acabava a época e partiam. Assim acontecia por cá na zona da pera rocha do oeste e ainda acontece inclusive com famílias ciganas.
Este caso das estufas no sudoeste alentejano é diferente. São culturas de pequenos frutos que estão sempre a crescer. Na Holanda acontece o mesmo nas estufas de flores e também são estrangeiros a trabalhar, com a diferença que lá ganham mais ou menos e os de cá ganham uma miséria para assim se poder dizer/fazer preços competitivos.
E cá temos produtos com preços competitivos só com salários e condições de trabalho miseráveis.
“E cá temos produtos com preços competitivos só com salários e condições de trabalho miseráveis.”
Competitiva, uma ova. O “horroroso” dr. Salazar, manteve os produtos agrícolas a preços baixos porque não queria nem fome nem revoltas nas cidades. Como consequência os “horrorosos” latifundiários tinham de manter os salários baixos e como nessas condições não poderiam haver descontos, os trabalhadores agrícolas não tiveram previdência até que Marcello Caetano a impôs mas sempre sem aumento de preços, criando assim o primeiro défice no orçamento da segurança segurança social pois as pensões concedidas não tinham descontos anteriores.
Ou seja, a burguesia citadina, incluindo os intersindicalistas, aliás sobretudo os intersindicalistas, sempre viveram acima do que deveriam ser as suas possibilidades por exploração dos assalariados rurais.
Esta realidade ocorreu, com características e tempos diferentes por toda a Europa (e EUA e outros) e assim se incentivou a fuga para as cidades e o esvaziamento dos “hinterland”. A verdade que ninguém assume é que os produtos primários deveriam ter preços finais muito mais altos, desde os hortícolas aos agrícolas e também os florestais (por isso os proprietários,incluindo o Estado, se desleixam e não fazem limpezas que, simplesmente, não são economicamente suportáveis).
Assim que os nacionais (ou regionais) se apercebem que é preferível um emprego precário ou um subsídio de desemprego do que o trabalho na agricultura, a única solução é o recurso a imigrantes dispostos a tudo, fosse nos EUA com os sazonais (As vinhas da ira, de Steinbeck) fosse nos países nórdicos com os frutos silvestres, ou na Holanda das flores.
A realidade que ninguém assume, é que para a burguesia citadina, incluindo comentadores do Delito, poder continuar a ter i-phones etc., isto tem de continuar assim. Basta prestar atenção ao peso da PAC no orçamento da UE.
O caso actual do sudoeste alentejano, nem dependerá tanto de serem culturas em permanente ciclo produtivo mas mais, das consequências de esquerdismos e materialismos, particularmente de 20 anos de governos que, apesar dos discursos e narrativas, tem muito menos ética do que os governos do “horroroso” dr. Salazar e do tribalismo que faz que quem devia prestar atenção, prefira olhar para o lado (tal como fizeram com Sócrates, etc.). E, não, ninguém vai deixar os preços subirem porque isso faz perder eleições.
Com a devida vénia:
https://corta-fitas.blogs.sapo.pt/f eios-porcos-e-maus-7354562
Os problemas destes trabalhadores são :
Não pagam quotas para nenhum sindicato.
Não podem votar em eleições.
WW
Sendo nós inquestionavelmente iguais na dignidade, acabamos por ter trajectos diferentes. Desde há vinte anos que largas dezenas, ou mesmo centenas de milhões de pessoas saíram da pobreza absoluta e felizmente agora podem aspirar e obter uma vida com rendimentos regulares, e que lhes permita dar melhores condições à sua descendência do que aquelas que tiveram. Será que isto é negativo?
Cresci a ouvir relatos na primeira pessoa dos portugueses que chegavam de noite a Champigny-sur-Marne, dormiam no meio dos ratos, e eram contratados para trabalhar ao dia todas as madrugadas. Hoje os seus filhos não aceitariam essas condições, mas sem que alguém tivesse passado por isso, poderiam ser eles a estar nessa situação.
O mundo é desigual, mas o que mata é a pobreza e não a desigualdade. Sendo nós inquestionavelmente iguais na dignidade, temos expectativas diferentes e por isso alguns de nós aceitam coisas que outros nunca chegariam a considerar.
Não duvido que no futuro, no longo prazo, tudo será melhor, mas não nos podemos abstrair de que estamos hoje muito melhor que no passado.
É a globalização que permite que se importe mão-de-obra de locais tão longínquos, e é graças a ela que os sítios de origem de todos esses trabalhadores estão a beneficiar também com as transferências regulares que recebem.
Ao demonizar esta realidade, ficamos sem entender se os culpados são os empregadores, os empregados, o estado ou os habitantes da região. Ou todos.
Eu prefiro não demonizar ninguém. Um fenómeno idêntico explica que os baixos preços de tudo o que compramos da China, que inclui também os processadores das máquinas que usamos para trocar estes comentários. Lá, além de trabalharem emprateleirados nos dormitórios das fábricas, têm ainda o sistema de créditos sociais a exigir-lhes a leitura do breviário do senhor Ji, entre outras sevícias.
O mundo a preto e branco, composto por bons e maus, é bem confortável, mas a realidade não é monocromática. E ainda bem.
Mas porquê bons e maus, preto ou branco? Que tom de cinzento é este, ou que cor é esta e por que razão devemos ou podemos sentir-nos confortáveis com ela?
Sim, essa realidade já foi aceitável, segundo padrões sociais e éticos de outros tempos e outras geografias. Mas vivemos num Estado onde foram criados instrumentos legais que pretendiam impedir que situações destas pudessem ocorrer. Por que não impedem? Porque alguém decide não cumprir e muita gente vê o não cumprimento e assobia para o lado.
Interessa-me pouco arranjar culpados. Se o post serve para alguma coisa, nesse campo, será para admitir que eu sabia. A comunidade que me rodeia sabia. As autoridades locais sabiam. Alguma comunicação social regional
sabia, denunciou e foi ignorada.
Nada se fez. Onde estava a fiscalização? O ACT, a ASAE, a Segurança Social, a Autoridade Tributária, as forças de segurança?
Mesmo não sendo monocromático, neste universo parece-me claro e evidente que as vítimas – da fome, do desespero, da indiferença – são os trabalhadores. Mesmo não sendo monocromático, parece-me que quem decide pagar 5 euros por dia, por um trabalho violentíssimo, e cobra 100 euros de alojamento numa camarata com 20 pessoas, terá alguma culpa no cartório.
Como achega deixo o link para um editorial de um órgão de comunicação social regional: https://www.sulinformacao.pt/2021/04/od emira-ou-a-cronica-de-uma-confusao-ha-mu ito-esperada/
A questão está mal colocada, como sempre, desde que os Russos inocularam o vírus da semântica marxista nas opiniões públicas dos países ocidentais. A verdadeira questão é: o que é que esta gente está aqui a fazer e por que é que é possível a empresários nacionais ir buscar mão-de-obra escrava a países do sol nascente? Claro que num país governado por um primo deles essa questão não vai ser colocada, mas é óbvio para toda a gente que isso do vir para a Europa “à procura de condições” é conversa fiada e que a situação tem piorado a cada ano.
Temos cá muita gente que trabalharia de bom grado nesses sítios —provavelmente geridos por empresários espanhóis que são todos uns ciganos e uns aldrabões de primeira— e que receberia o ordenado adequado se não fosse possível ir buscar caixotes de gente ao Bangladesh e ao Nepal e sabe-se lá a que outros buracos do mundo para não ter de pagar salários reais pelo trabalho.
Metam isto na cabeça: nós não temos de aturar os filhos das desgraças dos outros. Eles que se arranjem lá nos países deles, ou então façam menos filhos que é o que nós fazemos quando somos pobres. Isso de fornicar que nem coelhos para invadir a terra do lado não é correcto nem deve ser amparado. Porque a sustenção de uma população equivale à sustentação da outra. Párem de inventar essas culpas que não temos e libertem a Europa dessas engenharias sociais de esquerda. A maior pandemia de todos os tempos é o esquerdismo jornalístico e não há meio de passar.
Portugal descobriu agora? Enquanto no sofá criticamos o 1º de Maio? Lamento, mas até eu que sou um reaccionário impenitente resmungara sobre esses “compounds” para asiáticos para cuja construção houve alteração legislativa (temporária, note-se) aprovada pela então geringonça: aqui no DO a primeira que o motor de pesquisa me mostra tem um ano, mas não terá sido a minha primeira referência em blogs: https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/o s-hostels-e-o-covid-19-11588539
Pois isto tem muito mais do que a mera crítica ao poder local. Onde estiveram – antes, durante a discussão legislativa e depois – as centrais sindicais? A apelarem a residências universitárias para filhos de funcionários públicos? Ao dreno para sustentar a TAP? Contra a medicina privada e viva a ADSE? Onde estiveram os académicos “da Av. de Berna até às Forças Armadas, do Choupal até à Lapa”? Os jornalistas do DN e do Público? A defenderem a expulsão dos brasileiros porque votantes em Bolsonaro? Onde os estiveram os “movimentos sociais”? A reclamarem pretos nas novelas e a masturbarem-se com as dreads do locutor da SIC? Onde esteve o “Partido”, Zélia? Pois, ao que me parece, são todos esses que não ficam a protestar com o 1º de Maio nos respectivos sofás… Não são eles os defensores do corporativismo abrilista (este, o geringoncico) que assobiou para o lado diante disto, fiel à velha tradição “revolucionária” e “sindicalista” de destratar os imigrantes, gente que “baixa os salários” e aumenta a “mais-valia” do patronato.
Ok. só agora repararam, só agora alguém decidiu que era momento de levantar a “lebre”, só agora alguém decidiu jogar como trunfo a “carta asiática”. Mas não se venha dizer que é contra a “direita” de “sofá”, os sempiternos “fascistas” avessos ao 1º de Maio, epítome dos direitos dos trabalhadores. Pois este caso, até talvez mais do que qualquer outro, é a condensação da mundivisão da proclamada “esquerda” lusa.
Lamento a franqueza intra-blogal, mas esta irritou-me mesmo.
Não se irrite, que não vale a pena. Todos olharam para o lado, como tem ficado demonstrado. Ninguém está inocente. A chamada da direita ao texto teve a ver apenas com o desprezo dado ao 1 de Maio, quando afinal, há tanto ainda por resolver. Mas sim, esses que menciona têm tanta ou mais responsabilidade. A teoria tem de servir a prática e vice-versa.
Sobre a residência universitária para filhos de funcionários públicos, há algo que gostaria de esclarecer: não é o governo que oferece a residência. Trata-se de um prédio que é propriedade dos serviços sociais da administração pública e que, como acontece noutros serviços sociais quaisquer, vai ser colocado à disposição dos filhos dos associados mediante um pagamento convencionado e não necessariamente baixo. Posso dizer-lhe que os meus filhos, em residência universitária do Cofre de Previdência dos funcionários do Estado, para o qual desconto mensalmente, pagavam 370 euros cada um. Desisti e arrendei um apartamento. Pago o mesmo mas temos uma casa que eu também posso utilizar quando necessário. O Estado não nos oferece nada. A ADSE é um sistema de saúde para o qual também descontamos e com limites de utilização genericamente baixos. Desisti há mais de 2 anos.
Caríssimo JPT, ainda voltei atrás, reler o meu post. Eu nem falo em direita, falo no confortável sofá, que critica tudo o que mexe, e o que não mexe também. Bem sei, por oposição à esquerdalha, deduziu a crítica. Mas não estava lá.
José, não leves a mal e não consideres isto o abrir de qualquer discussão, que não me interessa, de todo, mas já que falaste “nele”, deixa que puxe um pouco a brasa à minha sardinha: xercicio-da-actividade-agricola-na-actua l-situacao-de-pandemia-associada-covid ro-das-infraestruturas-habitacao-sobre-c ondicoes-precarias-de-alojamento-dos erno-monitorizacao-ambiental-socioeconom ica-demografica-das-areas-sujeitas-proce ssos lho-forcado-outras-formas-de-exploracao-l aboral
https://www.pcp.pt/medidas-aplicar-ao-e
https://www.pcp.pt/pcp-questiona-minist
https://www.pcp.pt/recomenda-ao-gov
https://www.pcp.pt/combate-ao-traba
Algumas, de muitas, tomadas de posição sobre o tema. Claro que não é “ele” que governa e o facto é que nunca governou, mas que não o acusem de omissão.
Grande abraço
Obrigado pelas ligações Edmundo – infelizmente nem hoje nem ontem consegui aceder aos documentos (juro, palavra de honra, sinceramente, que não é má vontade minha). Mas fico ciente – tanto pelo que dizes como pelos títulos que surgem nos urls – que o PCP tem dedicado atenção ao caso. Assim em relação a esse partido retracto-me da invectiva no comentário acima, o que também é forma de me retratar, mostrando a estreiteza da documentação que leio – ainda que esta temática não me seja pessoalmente relevante poderia ter lido algo sobre o assunto (Mas isso também se prende com uma velha questão: a da presença ágil do PCP na “imprensa burguesa”, como antes se dizia, algo que não vingou).
Certo, Zélia, posso-me ter irritado em demasia. Mas a construção de um texto sobre este tema não precisa de invectivar quem não se revê no design do 1º de Maio. Ou seja o silêncio relativamente abrangente sobre isto (apesar do que o Edmundo refere sobre documentação do PCP não estarei a torcer argumentos ao referir que nem o PCP elegeu esta situação como exemplo fundamental para discussão pública) ultrapassa esse registo de invectiva. Mais, esta situação chegou-me aos ouvidos em registo amador: não conheço o Alentejo, pouco por lá ando, infelizmente, quase imóvel que estou. Nem tenho interesse nas questões da imigração. Mas soube disto em conversas com amigos, já desde há anos: gente da classe média lisboeta que cruza o Alentejo em veraneios, ou deste fluxo de licenciados que se “reabilitaram” enquanto estalajadeiros rurais. E o que me contavam, em registo impressionista, é da vaga desde há anos de asiáticos (nepaleses, julgo) que são os novos ratinhos/maltezes. Que sobre eles não há Manuel da Fonseca ou similar que escreva. Que não têm lugares nas distantes aldeias, dada a escassez de habitações disponíveis, ainda que estas algo desertificadas. Nas romarias comerciais que se vêm durante os fim-de-semana, com os homens a irem a pé Às compras, estrada afora. E como falamos destas vidas, até presumindo-os sós, sexualmente abandonados, pois pouco provável será que encontrem parceiras nas tais longínquas, algo desertificadas e decerto que envelhecidas aldeias ou vilórias. Tudo isto impressiona. E, depois, a legislação socialista a viabilizar os compounds. E, de facto, haja ou não haja documentação comunista sobre isto, o silêncio social. Eu estou no sofá, irritou-me o 1º de Maio de 2020. Mas não me atire a mim, e a alguns outros que assim vão, a responsabilidade desse silêncio.
Quanto à ADSE, a latere: eu não tenho ADSE nem seguro de saúde, sou todo SNS. Mas nada tenho contra a ADSE e sei bem que se constitui com as prestações dos funcionários. Mas sejamos lá sociológicos, sff. O poder vigente, de facto nestes últimos 25 anos, ancora eleitoralmente no funcionalismo públicos (funcionários e suas ligações). Estes organizam-se institucionalmente para recorrer à medicina privada – é um direito contra o qual nada tenho -, assim também a reforçando, algo contra o qual também nada tenho. Mas o poder político que defendem é fervorosamente anti-medicina privada (como todo o historial do Covid-19, ainda não dito, tanto mostra). E isto tem uma enorme relevÂncia sociológica e política. Não para se discutir quando se encaram questões como o radical destratamento de imigrantes. Mas que é muito relevante quando se enfrentam derivas emanadas do corporativismo das guildas nacionais. Entre as quais a mais poderosa é, sem rebuço, a do funcionalismo.
Saudações a ambos. Até porque, noutro registo, Este Ano Está a Ser!!!!
Talvez me tenha expressado mal inicialmente. Ou talvez, com a ajuda dos comentários e das diferentes perspectivas, tenha conseguido repensar a forma de o dizer.
Há 2 questões, relacionadas:
1. A ironia do 1º de maio é que esta situação passa ao lado. Nem uma palavra, nem um cartaz. Os trabalhadores só valem se estiverem sindicalizados. Eu não sou sindicalizada, mas dou muito valor ao meu trabalho e entendo que esta data também me representa. E devia igualmente representar estes trabalhadores de quem tanto se tem falado fora das comemorações sindicais. Mas passam omissos.
2. Os comentadores de sofá, sempre críticos contra tudo (ando a matutar se lhes escrevo a propósito deste MeToo português) criticam o 1º de maio. Não interessa a posição ou cor partidária. Criticam porque sim. Porque só têm essa forma de participação (pouco) cívica. Não creio que o JPT se reveja nesta categoria, só porque passou o primeiro dia de maio no sofá. Eu também estive no meu e andei a jardinar… O que está em causa é a opinião de que assinalar o 1º de maio já não faz sentido. Faz, infelizmente, faz! Está bem direccionado? Não. Mas continua essencial e urge apontar para situações que são inadmissíveis. Eu também pergunto: onde estão as centrais sindicais que representam os trabalhadores?
Ou então, assumimos o que diz um comentador aqui: o problema destes trabalhadores é que não pagam quotas aos sindicatos. Ora… batatas!
Muitos me dizem que as manifestações não resolvem nada. Talvez. Mas, a partir do momento em que há vozes que se fazem ouvir, ninguém pode dizer que ignora os problemas. Quem dirige e gere vai ter que assumir que, por opção ou incapacidade, não os resolve.
Existem estes imigrantes porque o português não quer trabalhar. As empresas oferecem estas maravilhosas condições e os nacionais não lhes pegam.
Isto é o corolário daquelas políticas que vemos tão veementemente defendidas: ausência de salário mínimo decente regulamentado, ausência de sindicatos e proteção social, considerar que uma empresa serve somente para dar lucro aos acionistas, logo deve explorar trabalhadores e clientes ao extremo e é a estes que compete defenderem-se, política de emigração que leva a que um trabalhador com visto de trabalho pode ser repatriado se levantar cabelo (e se não tiver visto é completamente discricionário).
Pelo lado bom temos que assim os mirtilos são muito mais baratos.
São?
Existem estes imigrantes porque o português não quer trabalhar.
Lá vem o embuste do costume, pelo flibusteiro do costume.
Ainda por cima com recurso a “o português” — essa criatura psicológica que nasce do seu próprio adjectivo. É com estes embustes —e com esta gente a mandar— que isto chegou ao que chegámos e isso não é de ser “português”: é de ser uma coisa muito pior.
É ridículo. No Alentejo esta situação existe há anos, com o silêncio conivente das autoridades e das edilidades. É por isso que o Chega se espalha, além tejo, como fogo pelo capim
Não duvide. Aliás: https://expresso.pt/presidenciais2021/2 021-01-25-O-que-levou-28.404-alentejanos-a-v otar-em-Ventura–Abandono-protesto-e-per cecoes-de-realidade
isto passa-se um pouco por todo o país, o ano inteiro, desde as vindimas à apanha da maça, sem esquecer a cereja, a batata… e passar-se-à também noutros ramos. a oeste bem conheço a realidade, toda a gente conhece, mas quem tem poder, tem outras prioridades e interesses e os jornalistas têm uma visão selectiva de situações que não podem ou não convém denunciar
Sim, eu mencionei os casos que conheço, que presenciei e presencio Basta optar pela estrada nacional para fazer o percurso Lisboa-Évora, aí estão, aos olhos de quem os quiser ver.
Muito bem, Zélia!
Destaque mais que merecido na página Sapo.
o essencial está dito. “Do nosso silencio insuportável “. Mas o fechar os olhos, o nao querer saber, o fingir que nao se passa nada, é o nosso silencio suportável. Mas se as autoridades sabem e sempre souberam, neste momento continuam a entrar em portugal excursoes de mais desses trabalhadores, ainda por cima o governo, este e os anteriores, financiam quer a produçao quer a exportaçao., ou seja, financiam aqueles capatazes.
È mau, mesmo se fossemos terceiro mundo , seria , deveria ser inadmissivel.
Sim, sempre se soube. Agora começam a surgir as provas dos avisos persistentes e continuados, persistentemente ignorados. É inadmissível, como diz.
quase nao faz diferença, mas só a seguir a comentar, procurei o autor do post, e foi entao que dei conta que estava no Delito. Acho até que o cabeçalho está mudado.
Assino por baixo, Zélia.
Abraço, Teresa.
Ainda ontem voltei a passar por eles, na estrada, a pé, vultos escuros na tarde que se vai, a caminho do minimercado de Pegões: 7-Dezasseis-imigrantes-vivem-na-mesma-ca sa-sem-condicoes-e-cada-um-paga-135-euro s-f8060afe
https://sicnoticias.pt/pais/2021-05-0
Tudo isto se resume num só vocábulo: CAPITALISMO!
trata-se de escravatura, desrespeito pelos direitos humanos basicos, governos que promoveram e subsidiaram e subsidiam a coisa.
Mas nao vejo pelo que vou vendo nem nesta questao sentimento generalizado de repulsa, acçao, mobilizaçao para por termo a isto na nossa propria casa, nas nossas barbas.
Se nem nesta questao universal, nos unimos, nenhuma outra questao o conseguirá.
A denuncia feita pelo primeiro ministro, as declaraçoes desastrosas do Ministro Cabrita (dizento que é preciso natalidade), as declaraçoes horriveis da ministra agricultura ( dizendo que é preciso fixar populaçao ) , sinalizam que o governo vai pintar alguma coisa, gastar o noso dinheiro, para continuar tudo na mesma.
Proponho o encerramento das propriedades onde sao cometidos criimes, a prisao dos capatazes e mais mafia, e investigaçao. E que o Estado exija de volta quantos milhoes meteu nesses proprietarios a titulo de tudo e mais alguma coisa.
Ninguém consegue viver com o salario minimo a trabalhar a centenas de quilometros de casa (tendo de pagar restaurante e hotel ) . Se aqueles proprietários nao podem pagar salarios que permitam aos trabalhadores viverem, serem livres, entao nao terao trabalhadores escravos. Entendiddos ?
(2ª tentativa)
Tudo num só vocábulo: CAPITALISMO !