Clara Marqués
Caiu o Governo.
É fidedigno, ouvi agora mesmo na leal TSF (esqueci-me de programar o despertador para o fim de semana e obedeci estremunhada à chamada fatal).
Não pode ser – penso. – Duas desgraças juntas?
Deita-se uma cidadã assim tão tarde, razoavelmente reconciliada com a vida – depois da clássica e anestésica evasão de sexta-feira à noite – e , como se não bastasse não dormir mais de três horas, ainda acorda com um incómodo destes? Um alarme tamanho, capaz de ressuscitar um morto?
Eu sempre disse: Fevereiro não é de confiança. É um mês batoteiro, tão traiçoeiro que nem dura trinta dias e vai ficar-se assim, cobardemente, a uns passos do fim.
Como o próprio defunto: – o (des)Governo.
Ainda com a compreensão lenta e pastosa, ouço Louçã a verberar contra a cegueira do mundo. Jerónimo a lamentar a cancerosa síndrome dos instintos privados. O velho-jovem Pereira a defender os caídos. E o Santos Silva a fazer o elogio fúnebre.
Por momentos parece tudo tão igual…
Mas não!
Ouço, deliciada, que Sócrates foge para os States, intimidado por um povo em fúria (vai vender fatos em Beverly Hills). A Canavilhas toca agora num circo, de seu nome Marilú. Mendonça cobra títulos, numa box de auto-estrada. E o Teixeira mendiga à porta das igrejas, rezando incessantemente o padre-nosso.
Adiantou-se, a Páscoa.
Que sexta feira santa…
Que digo eu? Ainda estou em ontem.
Que sábado santo! Sábado de Aleluia!
Vou dormir mais duas horas.
Esta coisa merece.