Dia da estupidez


Sérgio de Almeida Correia,

Em Portugal é “dia de reflexão”. Em Macau vota-se desde as 8h da manhã. E amanhã, salvo algum cataclismo, continuar-se-á a votar. Isto quer dizer que fora de Portugal os eleitores não precisam de reflectir. Ao fim destes anos todos, os partidos continuam a tratar os cidadãos-eleitores como menores sujeitos a tutela ou mentecaptos. Em qualquer caso, como uns desgraçados que necessitam da protecção do Estado no dia que antecede os actos eleitorais para poderem votar em consciência. Os partidos prestariam um serviço a todos se acabassem com ele. Se há coisa mais anacrónica, sinal maior de um perene e intransponível atavismo, é esta coisa do dia de reflexão. Melhor seria chamá-lo dia da estupidez.

Temos de reflectir sobre o dia de reflexão


Rui Rocha,

O dia de reflexão não é uma originalidade portuguesa. Mas existem muitos países, entre eles democracias que temos como as mais avançadas, onde nunca se ouviu falar de tal coisa. Em geral, o dia de reflexão parece estar associado a momentos da vida dos países com especial animosidade entre as forças políticas e sociais. Ou a estados embrionários de desenvolvimento da democracia. Em qualquer caso, numa época em que as redes sociais assumem um papel determinante na comunicação, o dia de reflexão está completamente ultrapassado pelos acontecimentos. Como controlar os blogues, os fóruns, os sms, as notícias publicadas em meios de comunicação social estrangeiros? Mesmo no cenário de contenção por quem utiliza e alimenta as redes sociais, a assincronia da internet torna inútil qualquer tentativa de controlo. Em rigor, antes já era assim. Na época dos outdoors, que parece agora ultrapassada, o que deviam os eleitores fazer no sábado véspera de eleições? Fechar os olhos para não verem o apelo ao voto colocado na berma da estrada? Da mesma forma que, na verdade, a pré-campanha não o é, pois que a campanha começa muito antes do seu início formal, também se prolonga para lá da última sexta-feira antes das eleições.

É assim, goste-se ou não. Para quê, então, e em nome de que paternalismo, o dia de reflexão?