Acre, cobiçada por todos, pertencente a muitos


João Pedro Pimenta,

Não sendo imune ao chamamento das grandes metrópoles, tenho uma particular atracção pelas cidades médias ou pequenas, que tantas vezes fogem ao roteiro dos guias turísticos e às campanhas das agências e das companhias aéreas. E sobretudo as que têm uma amálgama de influências culturais diversas e uma historia respeitável.

Acre cumpre totalmente esses requisitos. Está ali na ponta da baía de Haifa, com essa cidade portuária do outro lado, dominada pelo monte Carmelo, e o Líbano a poucos quilómetros a norte. Vem de tempos imemoriais, e desde a Antiguidade que é um dos principais portos do Levante. Por ela passaram fenícios, persas, egípcios, judeus, gregos, macedónios, romanos, bizantinos, árabes, cruzados europeus, turcos, ingleses e de novo judeus. Sofreu inúmeros cercos e conquistas. O mais famoso terá sido o de 1291, quando era o último bastião do Reino Latino de Jerusalém, e caiu nas mãos dos mamelucos egípcios. Os vestígios cruzados nunca desapareceram totalmente, mas a arquitectura e a configuração da cidade alteraram-se bastante com os seus novos ocupantes, e sobretudo com os turcos, que se lhes seguiram. Napoleão também tentou apoderar-se daquele ponto estratégico, no seguimento da campanha no Egipto, mas o seu cerco não surtiu efeito e os otomanos resistiram. Acre passaria ainda para as mãos dos ingleses, no decorrer da Grande Guerra, que a mantiveram durante o Mandato Britânico da Palestina, e estava incluída no território palestiniano projectado com a divisão do território planeada pela ONU, mas o primeiro conflito entre os países árabes e o novo estado de Israel determinaria que ficasse no território deste.

A cidade novo de Acre, moderna e sem graça, é habitada por judeus. Ultrapassada a primeira cintura de muralhas, já do tempo dos turcos, entra-se numa cidade quase exclusivamente árabe e turca. Mas os vestígios do passado pré-muçulmano estão lá. A antiga cidadela dos Hospitalários impõe-se e recebe os visitantes no seu comprido refeitório, nas suas torres e na praça de armas desta ordem que depois de andar séculos entre ilhas do Mediterrâneo com a “casa às costas, converteu-se na actual Ordem de Malta. O edifício serviu já no século XX de prisão de rebeldes judeus que combatiam o Mandato Britânico da Palestina.

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A partir daí começa a cidade árabe, com a esplendorosa mesquita turca El Jazzar, e segue-se o miolo urbano formado por ruelas serpenteantes que se desdobram em mais ruelas, num labirinto interminável e algo espantoso numa cidade de dimensão reduzida. Ao contrário do resto do país, as placas estão quase todas em árabe, não em hebreu, nem são bilingues. Sucedem-se pequenos souks ou lojas de rua. Mas mais uma vez a herança cruzada (já) não está totalmente escondida. Nos anos noventa, um banal problema de terrenos levou à descoberta de um túnel subterrâneo, com centenas de metros de extensão, pertencente aos antigos templários, que se acolhiam do lado ocidental da cidade, quase junto ao mar. O túnel começa precisamente junto às muralhas já a tocar na água e desemboca num dos muitos becos do centro. Nalgumas extensões não ultrapassa o metro e meio de altura e naturalmente a humidade invade-o. Nas paredes de blocos graníticos, e entre os arcos de ligação, podem-se ver algumas explicações gráficas da obra, enquanto uma gravação nos tenta explicar os contornos daquela construção. Hélas, está em hebraico e os esforços são inúteis. Mas imagina-se o afã dos cavaleiros do Templo em tempo de cerco.

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Pelo bairro, pelas muralhas batidas pelas ondas, no pequeno ancoradouro, outros nomes trazem-nos as memórias de antigos detentores do burgo: praça dos genoveses, praça dos venezianos, bairro dos templários, porto pisano, etc. Os baluartes defensivos são já quase todos do tempo dos turcos, mas pode-se imaginar, até em pequenos troços do seu tempo, os cruzados a defender tenazmente o último bastião do condenado Reino Latino. Será mais fácil pensar que aqueles mesmos muros resistiram às tentativas inúteis de Bonaparte de tomar a cidade. Os canhões que ainda lá estão decerto testemunharam este episódio. Agora são testemunhas de um belíssimo pôr-do-sol, com a silhueta de Haifa do outro lado da baía.

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Se os templos são quase todos muçulmanos, avista-se também uma ou outra igreja, como a maronita encostada à muralha. E além da arquitectura militar e religiosa, há outros edifícios notáveis, como o Khan al-Umdan, o único caravançarai em território israelita que se pode arrogar desse título, uma construção imensa com um amplo terreiro rodeado de arcos, e rematada por uma torre do relógio, que domina a vizinha Praça dos Venezianos. Diz-nos a sempre prestável Wikipedia que neste edifício é que Bahá ‘u`lláh, refugiado da Pérsia, começou a divulgar as suas ideias religiosas numa escola para o efeito, começando aí a pregação da fé Bahai, cujos principais templos podem ser encontrados à volta de Acre e sobretudo em Haifa. Nas redondezas há ainda os banhos turcos e a Khan al Sawarda, uma praça mercantil rectangular com uma curiosa fonte no meio, de arquitectura indiscutivelmente otomana. Tudo isto a dois passos do porto, outrora comercial e de guerra, hoje mais ligado à pesca e ao turismo, a única parte que não está rodeada de muralhas. Acre, a antiga cidade dos cruzados que pertence a Israel mas que permanece árabe/turca; a comprová-lo, a voz do muezzin ouve-se nos altifalantes das mesquitas ao fim da tarde e ecoa sobre todas aquelas memórias.

Nota: talvez o muezzin fosse novo, já que ocorreu há pouco tempo uma curiosa história: o responsável pelo chamamento dos fieis da mesquita El-Jazzar era reconhecido como tendo uma voz “que nem em Meca se encontrava uma tão bela”. Mas dedicava-se também à musculação e ao bodybuilding, e tinha até representado Israel em competições internacionais da modalidade. Ora o responsável ministerial pelos assuntos religiosos considerou que tal prática não era compatível com a de muezzin, até pela exposição pública com pouca roupa, e determinou a sua demissão do posto. A decisão despoletou vários protestos entre os muçulmanos de Acre, que consideraram que as duas coisas não eram incompatíveis, e que pediam ao menos uma segunda oportunidade, mas tudo leva a crer que será em vão. Resta ao inconformado ex-muezzin dedicar-se agora em exclusivo ao seu próprio ginásio.

0 comentários em “Acre, cobiçada por todos, pertencente a muitos”

  1. Adorei o texto, mas a frase final, “Resta ao inconformado ex-muezzin dedicar-se agora em exclusivo ao seu próprio ginásio”, arrasou-me. Depois desta história de mouros, cristãos e judeus, percebi, finalmente, porque é que temos de acarinhar uma cambada de grunhos como o Vítor Catão, o César Boaventura, o Pinto da Costa e o Luís Filipe Vieira. É que, daqui a mil anos, vamos ter de reescrever essa história. Então se dirá que foi por causa desses diferendos que o país descambou para nível zero, na sequência do que o se teve de libertar o Rui Pinto para evitar que o mundo desabasse.

    1. O problema, caro anónimo, é que isto é uma resolução oficial com efeitos imperativos. O responsável ministerial tem poder para o demitir de funções, e nem com um recurso voltou atrás. Por isso o ex-muezzin teve mesmo de acatar a decisão.

  2. Por acaso já visitei Acre numa viagem à terra Santa mas sem dúvida estes pormenores são muitíssimo importantes.
    Por outro lado vem realçar o cosmopolitismo do estado de Israel que permite etnias diversas. …e até inimigas. ..dentro das suas fronteiras algo único no médio Oriente. Isto porque essas etnias têm acesso a TODOS os direitos dos judeus como cidadania saúde ser eleito e ser eleitor…….MAIS NENHUM PAÍS DO MÉDIO ORIENTE CONCEDE ESSES DIREITOS. …por exemplo os Emirados Koweit Bahrein Sauditas Qatar NÃO concedem cidadania a nenhum ser humano que não pertença às tribos milenares desses territórios. …migrantes com dezenas de ANOS de trabalho e permanência nesses países serão sempre. ….imigrantes. …..mesmo muçulmanos. …

    1. Receio que esses direitos a quem não é judeu se alterem e por isso mesmo alterem essa excepcionalidade regional israelita. Mas olhe, também ignorava que esses países do golfo não concedessem cidadania a estrangeiros, ainda para mais quando grande parte da sua população é composta por gente que veio de fora.

    2. Mesmo ao pé de Israel ficam o Líbano e a Síria, países que também têm muitas etnias e religiões dentro das suas fronteiras e que concedem iguais direitos a todos elas. Israel não é, portanto, de forma nenhuma excecional nesse aspeto, no Médio Oriente.

      (Mas, é claro, se a política de países como a França, os Estados Unidos, e o Reino Unido tivesse tido sucesso, longe vá o agoiro, já o Estado secular da Síria teria sido substituído por uma teocracia islâmica sunita, similar às dos restantes países referidos no comentário do sátiro.)

      1. Direitos iguais é favor. No Líbano têm fazer um complicado equilíbrio dos órgãos de soberania para agradar a toda a gente, o que tendo em conta o arsenal e as milícias do Hezbollah, à margem das forças armadas oficiais, não tem sido fácil. Na Síria são sobretudo os alauitas que mandam, com apoio de alguns cristãos e sunitas, que por sua vez são a maioria e se sentem descriminados (em boa parte isso é que deu origem à revolta e à guerra).

        1. Os cidadãos têm direitos iguais perante a lei, tal como eu escrevi. O sistema político é uma coisa diferente.+
          Já agora, em Israel a coisa é ainda bem pior do que no Líbano ou na Síria, com os partidos árabes a serem sistematicamente excluídos do processo político.

          1. Sim, claro, o Assad ao lado do Bibi é uma ternura. E em Israel não faltam milícias armadas como no Líbano.
            Caso não saiba, em todas as eleições os árabes concorrem e por sinal nas últimas até ficaram em terceiro lugar. É a isto que chama “sistematicamente excluídos”? Excluídos da própria vida são os sírios que se opõem a Assad. Esta concorre para “Lavourada da semana”.

    3. Pode-se acrescentar que agora uma moda que pegou nesses países árabes ditatoriais que o sátiro referiu, consiste em retirar a cidadania aos seus cidadãos que contestam as ditaduras sob as quais vivem. Os dissidentes tornam-se assim apátridas e desprovidos de quaisquer direitos mesmo no seu próprio país. Isso tem acontecido com frequência, por exemplo, no Bahrain.
      Enfim, tudo países maravilhosos, que o Ocidente muito aprecia.

    4. “O sátiro”, escumalha das caixas de comentários, apoiante de escumalha como Bolsonaro ou Trump. Mente deliberadamente.

      1. Então se mente aproveite para o contradizer, sem insultos, se for possível. Até porque já deu para ver que o seu repertório de insultos não é muito alargado – é “escumalha” a torto e a direito.

  3. Não entendo a fotografia de Acre “com a silhueta de Haifa do outro lado da baía”. De facto, estando o Mediterrâneo à esquerda, a fotografia deveria estar orientada para norte. Porém, Haifa fica a sul de Acre. Há qualquer coisa de errada.

    1. Não há nada de errado, caro Lavoura. Simplemente a luz não permitir distinguir Haifa assim tão bem na foto, por isso coloquei esta que está virada para oeste. Basta olhar para o mapa e ver a situação geográfica de Acre.

  4. A falta de óculos e a ignorância de noções de fotografia e verificação de mapas,resulta na louvarada do comentário !

    A.Vieira

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