No fim-de-semana, comentei cá em casa que os comentadores do “Governo Sombra” estavam mais bem acompanhados na grelha televisiva no canal antigo – na SIC o programa vai para o ar na madrugada de Sexta para Sábado logo a seguir a um reality show manhoso (passe o pleonasmo), enquanto na TVI era antecedido pelo “Mais Futebol”, provavelmente o único programa civilizado sobre futebol da televisão portuguesa. Não que acompanhe programas de futebol, modalidade à qual ligo menos a cada ano (não me consigo lembrar de qual foi o último jogo que assisti na íntegra, agora que penso nisso), mas sempre que por algum motivo passava pela TVI 24 durante a emissão do programa e lá parava durante alguns minutos não podia deixar de notar no tom cordial e animado da conversa, e em algumas rubricas curiosas. E este tom era notório pelo contraste para com a esmagadora maioria dos programas de “comentário” de futebol dos canais por cabo. Comentário entre aspas, entenda-se, pois aqueles espaços resumem-se aos marmanjos iletrados que compõem os painéis a ladrar e a rosnar uns para os outros durante horas, mais ou menos como fazem os cães lá na aldeia às duas da manhã quando alguém passa e um se lembra de ladrar.
Vem isto a propósito da decisão anunciada pela SIC de terminar dois dos programas de “comentário” de futebol que têm nos seus painéis comentadores que representam clubes de futebol – ou, para ser rigoroso, comentadores que representam os “três grandes”, pois dos restantes ninguém quer mesmo saber (diz-se que em Portugal só se liga a futebol, quando se fala de desporto, o que é manifestamente falso – na verdade, só se liga ao futebol de três clubes. O resto é cenário). O motivo para este cancelamento, ao que parece, é a “toxicidade” dos programas – uma toxicidade que não é de agora, mas que se terá porventura tornado mais evidente após os quase três meses de sossego a que a pandemia obrigou. Não sei se entre Março e Junho alguém sentiu falta daquelas horas de gritaria inútil nos canais de notícias; da parte que me toca, no que à comunicação social diz respeito a paragem forçada da bola terá sido uma das raras consequências positivas do confinamento. Houve muita coisa de que tive saudades durante os últimos meses (de algumas ainda tenho), mas não tive de todo saudades de passar por canais de notícias e de ver três ou quatro australopithecus futebolis a rosnar por causa de rumores da bola em vez de, sei lá, noticiários, documentários e outros programas informativos. Programas que até podiam não me interessar, mas que pelo menos não apelam aos piores instintos de quem neles participa, e da audiência que os segue.
E, ao que parece, a TVI já seguiu o exemplo da sua concorrente de Carnaxide, anunciando também o fim de dois destes programas.
É claro que, por si só, a decisão da SIC e da TVI de terminar os programas em causa não erradica, talvez nem reduza de forma significativa, a toxicidade de tudo o que rodeia o futebol contemporâneo, cada vez mais um factor de divisão, de segregação e de tribalismo cego e menos uma competição desportiva capaz de agregar adeptos rivais – não inimigos, mas rivais, a diferença é subtil e determinante. Mas nem por isso deixa de ser um sinal. Esperar que isto seja o início da extinção do australopithecus futebolis na televisão portuguesa talvez seja excesso de optimismo – há as audiências, claro, e é sempre possível que outros canais aproveitem o vácuo para reforçar os seus painéis de gritaria. Mas talvez haja mais canais a seguir o gesto, dando menos tempo de antena à intriga e à guerrilha promovidas pelos departamentos de comunicação de três agremiações e mais espaço ao que interessa no tema: à modalidade, ao futebol em si. Para já ainda é pouco, mas se isto contribuir para um bocadinho menos de ruído inútil na televisão, já não será mau.

João, possivelmente já são consequências da prometida monitorização dos discursos de ódio.
Se a TVI acabou com o estulto programa de Sousa Martins, um sonso moderador, e do paineleiro, Pedro Guerra, é uma grande vitória do desporto em geral e do futebol em particular.
Não sei se aquilo era bem discurso de ódio. A mim parecia mais os “dois minutos de ódio” do Orwell, versão troglodita-tua.
O combinado SIC-TVI não é por causa da selvajaria — isso é a pasta mole que eles querem que as pessoas engulam.
Há aqui duas coisas que convém analisar:
1. O timing, que está em sintonia preocupante e é o resultado directo de outras coisas: as transferências da SIC para a TVI de dois operacionais do regime (Cristina Ferreira e Anselmo Borges) com o objectivo político de controlar a televisão e substituir comentadores livres por comentadores/jornalistas na sua dependência profissional dos chefes: o controlo absoluto dos canais pelo regime
O regime tem um clube cujo cartão de sócio num determinado nível serve também para arranjar bons empregos e bons negócios, libertando o cartão do PS para jobs de chefia de esquerda baseados na linguagem das “cidadanias” (muitas vezes forçadas) e dos “direitos” (quase todos inventados) e no limite desligando as proverbiais trapaças do partido de jogadas mais específicas como a colonização da Gulbenkian para atribuir prémios pela porta do cavalo para impressionar os europeus (no caso do prémio Sampaio à Greta, foi um presente para os escandinavos, que estavam a torcer o nariz à bazuca. Esta gente trabalha. São aldrabões, mas vê-se que fazem reuniões.
2. a prédica moralista de Ricardo Costa numa entrevista sobre este assunto (que pode ser ouvido num podcast do Observador) — e que se traduz no momento em que o jornalismo perdeu toda a vergonha e assume finalmente a sua aspiração mais medonha bem ao estilo CNN-Esquerdas-TSF-SIC e agora TVI: em vez de retratar a realidade e de criar o espaço para que ela se manifeste como é, pretende dizer como tem de ser a realidade.
De resto eu detesto estes programas, bem entendido, mas gajos da bola aos berros e a chamar nomes uns aos outros faz sentido. O que não faz sentido é quererem fazer daqueles labregos cientistas sociais — para charlatões desse calibre basta o Boaventura Sousa Santos.
No fundo o que vai resultar daqui é mais opacidade e menos garantias de que não é tudo do/sobre/para o Benfica — e já não é sobre futebol, é o domínio de um código de poder. Até o Moita de Deus já está controlado, lol, arranjaram-lhe um tacho no museu do bacalhau. Não escapa ninguém.
Bravo!
Nem mais.
Agora que se acabou com a toxicidade de quem assumidamente defende a sua camisola, ficamos apenas com as opiniões imparciais e idóneas de gente como Joaquim Rita, Jorge Baptista, David Borges, Rui Santos…
Até na Venezuela já se deve corar de vergonha quando se fala de Portugal.
Caro João Campos.
São excelentes medidas adoptadas pela SIC e TVI, mas desde há muito, mas mesmo muito que dessa toxicidade estou imune. Não vejo nem leio jornais desportivos , e se, eventualmente entre amigos algum apaniguado traz o assunto bola para a conversa, vou-me embora e deixo-os a iluminarem-se sozinhos,
Resto de uma excelente noite
É sensato.
“Comentário entre aspas, entenda-se, pois aqueles espaços resumem-se aos marmanjos iletrados que compõem os painéis a ladrar e a rosnar uns para os outros durante horas, mais ou menos como fazem os cães lá na aldeia às duas da manhã quando alguém passa e um se lembra de ladrar.”
Enquanto se lê este muito oportuno postal, não se pode deixar de pensar no que parece ser um barulhento canil na Assembleia da Republica.
Há uma pequena diferença. Independentemente da qualidade (ou falta dela) dos nossos políticos e do nosso debate político (ou falta dele), esse debate sempre é um bocadinho mais relevante que as guerrinhas de três agremiações desportivas.
É verdade, contudo permita-me continuação da analogia com a AR, onde os chamados grandes também querem atirar com os pequenos para a valeta.
Certo, mas isso é outra história. Não menos vergonhosa, mas outra história (a nossa vida política é tudo menos edificante, e o que se tem passado ultimamente é vergonhoso).
Deviam acabar com o Eixo do Mal, era um favor que faziam para diminuir a poluição sonora e a estupidez televisiva.
Exibam filmes ou documentários sobre vários assuntos incluindo jornalismo de investigação (não vejo ninguém na TV dos manos Costa a fazer isso…).
Mandem embora esses indigentes da politica que masturbam o ego uns dos outros…..a ver qual é que mais sobressai na miserabilidade do programa !
Júdice e o Noia devem ir cuidar dos netos, são autênticos papagaios da baixa política.
A.Vieira
Seria bom que esse fosse o próximo passo: acabar com comentário político “interessado”.
E no entanto, em toxicidade nenhum deles conseguiu chegar aos pés da CMTV, e da forma como esta foi “trabalhando” o boato da facadinha no casamento por parte de Jorge Jesus.
Entretanto, surge já novo epifenómeno: os comentadores profissionais de incêndios. Lindo.
Infelizmente o que não falta na televisão é pirómanos…
Não vejo essas coisas há anos, mas se existiam, é porque alguém via.
Acaba-se a tv, manter-se-ão as redes sociais… e a CM tv, pois claro.
Em Portugal ninguém gosta de desporto, nem sequer de futebol, gostam (e este termo é usado com ligeireza) do seu clube e nada mais. Portanto estes pseudo-debates fazem todo o sentido considerando o público-alvo.
Três notas:
Em termos de futebol, vê-se pouco, fala-se muito. Qualquer programa que sintonize para ver os resumos (excepção à Sportv+ ao Domingo) tem 5 minutos de bola, seguido de 55 minutos de “análise”.
Vamos deixar de ter a toxicidade dos comentadores, mas vamos manter “jornalistas” supostamente isentos a fazer de correia de transmissão de dirigentes e empresários. Não sei o que será pior. Pelo menos do bêbado da aldeia aos berros sabemos o que esperar.
Deixaremos de ter berraria sobre assuntos laterais, mas alguns desses assuntos são relevantes. Sabendo que o jornalismo de investigação por cá é um cadáver, situações como a recente do Aves podem bem deixar de aparecer no espaço mediático. Portugal tem uma tradição de, ao invés de varrer o lixo, deixá-lo a um cantinho de modo a quem ninguém o veja. Acaba sempre por cheirar, mas optamos por ignorar.
“Em termos de futebol, vê-se pouco, fala-se muito. Qualquer programa que sintonize para ver os resumos (excepção à Sportv+ ao Domingo) tem 5 minutos de bola, seguido de 55 minutos de “análise”.”
Tem toda a razão. Aliás, por vezes percebo que houve um jogo, vou tentar ver o resumo dos golos, ando para trás e para a frente na box… e nada. Nenhum resumo de dois minutos com os lances essenciais. Muita conversa, muita. Enfim.
“Vamos deixar de ter a toxicidade dos comentadores, mas vamos manter “jornalistas” supostamente isentos a fazer de correia de transmissão de dirigentes e empresários. Não sei o que será pior. Pelo menos do bêbado da aldeia aos berros sabemos o que esperar.
Deixaremos de ter berraria sobre assuntos laterais, mas alguns desses assuntos são relevantes. Sabendo que o jornalismo de investigação por cá é um cadáver, situações como a recente do Aves podem bem deixar de aparecer no espaço mediático. Portugal tem uma tradição de, ao invés de varrer o lixo, deixá-lo a um cantinho de modo a quem ninguém o veja. Acaba sempre por cheirar, mas optamos por ignorar.”
Mas esses assuntos eram mesmo discutidos?
A figura do austrolopitecus futebolis irá ser substituida pelo austroloptecus melifluus, nas pessoas dos comentadores “independentes”.
A toxicidade manter-se-á mais com uma capa de urbanidade e civilidade.
Estas decisões da SIC e da TVI pecam por muito tardias.
“Aquilo” fez-nos muito mal a todos, durante demasiado tempo.
Mas, mais vale tarde do que nunca.
Apetece-me dizer que, finalmente, parece que alguns dos neurónios inteligentes e sensatos irão poder exercer as funções para as quais existem e foram criados…
Pior que aquilo era difícil, convenhamos…
A extinção apenas se confirmará caso seja transversal a todos os canais, o que manifestamente duvido que venha a acontecer, principalmente no que toca à CMTV. Ainda assim, é um primeiro passo para valorizar o respeito que todas estações deveriam ter para com os espectadores. O futebol (ainda) pode ser o ópio do povo, mas há toda uma panóplia de programação de lixo que apenas serve para encher as grelhas e estupidificar audiências, desde a publicidade agressiva (e talvez até criminosa) para venda de todo o tipo de porcarias aos velhos durante as manhãs e grande parte das tardes, até reality shows re-re-requentados e novelas sem qualquer conteúdo para encher os serões, tudo vale para ganhar share. E o resultado é a porcaria de tv que temos, onde apenas se aproveita algum noticiário e os documentários que passam nas madrugadas de alguns canais de noticias. Haja box para voltar atrás na emissão, senão resta o lixo para ver em horario normal.
Se vamos por aí… já reparou na quantidade de publicidade a jogo online que passa na televisão à noite? É bizarro.
Questiono-me se este gesto profiláctico não deveria ter sido tomado em primeiro lugar pela RTP, canal público – e, portanto, com especiais responsabilidades, nomeadamente na não-discriminação de emblemas clubísticos nos seus painéis de comentário futebolístico.
Questiono-me também se a RTP tenciona seguir o bom exemplo agora assumido pelos canais privados.
A RTP ainda tem esse formato?
É uma excelente questão, Pedro. Também estou curioso para ver o que fará a RTP.
Diga um, diga um…
Poderiam substituir estes programas para dar mais desporto na televisão, menos futebol.
Eu, que não sigo desporto, apoiaria algo do género sem reservas.
Já tenho saudades da Aninhas e do seu apoio ao Pinto!
Smoreira
É mais uma esperada censura do Regime agora que vê o Chega a ter votos.
Vai ser preciso ter a narrativa e cultura toda controlada.
Não admira que não apareçam mais Amálias.
O fim dos debates quinzenais na assembleia foi com o mesmo objectivo.
Cortar todo o discurso que não seja a narrativa do jornalismo de “referência” Marxista.
lucklucky
“Um funcionário da Assembleia da República foi diagnosticado com covid-19 na semana passada, disse hoje à Lusa fonte parlamentar.”
O gajo acho que é lampião.
Ora aí está o missing link: bloquear o Chega em todas as arenas. Não costumo votar mas desta vez acho que vou lá votar neles só para chatear
(Se o voto ainda for secreto nas próximas eleições… Tenho cá um palpite que um dia destes a lei eleitoral leva uma supervisionadela à maneira das esquerdas)
Vocês não acham que mais de 90% dos programas dos canais generalistas é lixo? Tipo aquela coisa daqueles crânios que catalogam quais as economias que são lixo? Às vezes, de danado que fico quando o meu clube perde, até… eu sei lá. Até me apetece lançar um abaixo assinado propondo o Pedro Guerra, não para presidente do benfica, mas para monte de lixo.
É a Lei de Sturgeon aplicada à televisão.
https://en.wikipedia.org/wiki/Sturg eon%27s_law
vendem-se mais microondas, que televisores. Recentemente ate li o desespero de uma jovem porque o microondas tinha avariado.
Acho que o post diz que nao há audiencias e por isso os referidos programas acabam . Nao imagino o que mudou, que é feito das audiencias. Estarao as pessoas confinadas e por isso deitam-se mais cedo ? Porque estao confinadas e portanto sem o stress laboral, já nao necessitam daqueles programas como “acalmante” ?
Ficamos a conhecer a indiferença do Joao Campos, mas continuamos sem saber o que mudou.
O post não diz se há ou não há audiências porque não tenho forma de o saber. Ainda assim, a questão parece-me irrelevante.
As discussões de futebol que se lixem. Já todos sabem que o Ronaldo ganha tudo, e etc… e com aquele portento de mulher que ele tem, quem é que não está apto a meter golos?! E o dinheiro que papa? -Não se espera outra coisa e nada é novidade.
Agora o Governo Sombra , só dar de madrugada…?!- não lembra ao D.Pedro. Um gajo bebe o licor de nêspera todo para ver se não dá por aquele óleo de fígado de bacalhau que é o rame, rame das encalhadas para casarem com o desgraçado do lavrador, que até é sempre um herói em Portugal e não merecia que se rissem dele assim, com essa falta de respeito todo…
Os programas que se conseguem ver na Sic e que se aprende qualquer coisa com eles , a Sic faz por apagá-los! Mas quem raio está na Sic a fazer escolhas de programas que estejam de acordo com o comum dos portugueses?! -NÃO SE PONHAM A PAU…