Pelo poder catalão… em Madrid


Pedro Correia,

Guapa Ines Arrimadas Albert Rivera[1].jpg

 Inès Arrimadas e Albert Rivera são já os mais populares em Espanha

 

Os habitantes da Catalunha que não militam no separatismo têm vindo a ser designados, na melhor das hipóteses, como “o resto dos catalães” por certas bempensâncias cá do burgo e respectivas adjacências na comunicação social – todas a espumar de ódio contra o Estado espanhol, nosso principal parceiro comercial, além de amigo e aliado na União Europeia.

Acontece que estes habitantes são, de facto, a maioria da população da Catalunha: nunca até hoje os secessionistas – mesmo somadas todas as suas tendências políticas, da extrema-esquerda à direita mais conservadora – alcançaram a maioria do voto popular expresso nas urnas.

 

Os hispanófobos da Lusitânia fazem coro com os separatistas na reivindicação do “direito a decidir”. Também defendo este princípio, mas numa base muito mais alargada. Todos os espanhóis têm o direito a decidir se querem ou não mudar a Constituição, fruto do pacto democrático celebrado há 40 anos pelos partidos representados no Congresso dos Deputados – incluindo os partidos nacionalistas da Catalunha.

Este direito a decidir não pode ser subtraído à cidadania espanhola, no seu conjunto, para satisfazer menos de metade do eleitorado das províncias de Barcelona, Tarragona, Gerona e Lérida. A Catalunha é plural: ninguém pode falar jamais em nome dos catalães como se fossem um bloco compacto e homogéneo, ninguém passou procuração a político algum para rasgar a lei fundamental do país e o estatuto autonómico que dela deriva.

 

Entretanto, por ironia, o político que lidera hoje todas as sondagens em Espanha e tem mais possibilidades de ascender à presidência do Governo estatal, em Madrid, é precisamente um catalão: o liberal Albert Rivera, que se destacou no combate ao separatismo e à corrupção praticada pela Convergência, o partido nacionalista que durante quatro décadas foi hegemónico na Catalunha antes de trocar a bandeira da autonomia pela trombeta independentista, numa fuga para a frente destinada a maquilhar os escândalos sucessivos em que mergulhou.

Depois de um andaluz (González), um madrileno (Aznar), um leonês (Zapatero) e um galego (Rajoy), nada como um catalão à frente do Governo espanhol para travar a deriva secessionista. Não por acaso, os Cidadãos, de Rivera e Inès Arrimadas, são já a força política mais votada na própria Catalunha, apesar de ser também a de formação mais recente.

Prova inequívoca de que a unicidade catalã pró-independência só existe na delirante imaginação dos que sonham com uma Espanha feita em pedaços. Lá e cá.

46 comentários em “Pelo poder catalão… em Madrid”

  1. Convém não confundir a corrupção endémica dos sistemas partidários, que configuram um regime político falido, com o anseio de autodeterminação que, havendo condições, corporiza um princípio inalienável da dignidade humana.
    João de Brito

      1. Oh, Pedro, esse argumento não!
        A sociedade não é estanque… e as revisões de Estatutos em 2006 expuseram as fragilidades da Constituição. Expuseram? Não! Votaram!!! Foi no Constitucional que chumbaram, não nos referendos nem nos parlamentos regional e central…

        Mas, num exercício mais prático:
        É lícito dizer que os resultados eleitorais no Portugal de hoje são iguais aos de 1975/1976????? Em Espanha, idem.

        1. Raios, mas os resultados eleitorais de 75/76 que não foram revogados claro que são válidos. A constituição é a mesma. Foi modificada com base no mecanismo previsto. Em Espanha esse mecanismo não existe, portanto…

        2. Os dois principais partidos votados em 1976 foram o PS e o PSD. Tal como em todas as eleições realizadas desde então em Portugal. Apenas alternando no primeiro e no segundo posto.

          1. Abstenção?
            Dispersão de votos?
            Por estes indicadores percebemos as mudanças, as diferenças entre a sociedade de então e a actual.

          2. (Não sei porquê, mas os últimos têm saído anónimos, o que lamento)

            Não, Pedro, a dos eleitores devidamente recenseados que não comparecem às urnas. E a dispersão do voto pelos vários partidos, as tendências rurais e urbanas, as motivações e as alternativas – estes dados caracterizam sociedades distintas no tempo, por muito que os vencedores sejam os do costume.

  2. Todos os espanhóis têm o direito a decidir se querem ou não mudar a Constituição

    Isto é sem dúvida verdadeiro e correto.

    Porém, é igualmente verdadeiro e correto que não é bom manter uma situação de conflito e descontentamento de uma parte alargada da população. Ou seja, a maioria deve, no seu próprio interesse, entender o descontentamento de uma minoria e procurar acalmar esse descontentamento.

    Ora, o que eu vejo é que os políticos espanhóis e os juízes espanhóis estão a ser pouco razoáveis, adiando os problemas e atiçando o descontentamento dos catalães em vez de procurar acalmar os seus agravos.

  3. Gerona e Lérida

    Penso que hoje já é comum e considerado adequado, mesmo em língua castelhana, utilizar “Catalunya” em vez de “Cataluña” e “Girona” e “Lleida” em vez de “Gerona” e “Lérida”.

      1. Pois. Pela mesma lógica passaríamos a escrever Deutschland em vez de Alemanha.
        A Suíça teria de ser escrita pelo menos nos três idiomas oficiais desse país.
        E quem saberia escrever Rússia em caracteres cirílicos?

  4. Também não deixa de ser irónico que, embora os principais líderes da União Soviética tenham durante muitos anos sido um georgiano (Estaline) e um ucraniano (Khrustchev), a Geórgia e a Ucrânia terem sido das repúblicas que mais prestimosamente se puseram fora da URSS.
    O que só mostra que essa coisa da origem dos dirigentes pouco tem a ver com o sentimento (sobretudo no futuro) dos povos.

  5. “Os hispanófobos da Lusitânia fazem coro com os separatistas na reivindicação do “direito a decidir”. Também defendo este princípio, mas numa base muito mais alargada. Todos os espanhóis têm o direito a decidir se querem ou não mudar a Constituição, fruto do pacto democrático celebrado há 40 anos pelos partidos representados no Congresso dos Deputados – incluindo os partidos nacionalistas da Catalunha.”

    Os hispanófobos e os outros. Achar razoável que se decida nas urnas um diferendo não dá direito a ser considerado em nenhum grupo que não o dos democratas. Estar a colar rótulos aos que não pensam como nós é que não é muito democrata.
    Colocar todo o país a votar é uma ideia linda: Imagine um referendo pela independência de Timor que fosse válido para todos os indonésios; ou pôr os marroquinos todos a votar pela nacionalidade de Ceuta; ou os espanhóis pela nacionalidade de Gibraltar.
    É ternurento ver como quem não quer eleições acaba sempre os seus considerandos dizendo: “de qualquer modo se fossem a votos perdiam”.
    A seguir é só dizer que o povo não está preparado para a democracia.

    1. Timor foi ocupado militarmente (1975) e oprimido pela Indonésia (massacre da Sta Cruz ).

      “Estar a colar rótulos aos que não pensam como nós é que não é muito democrata.”

      A democracia é o regime da lei e da verdade científica. As democracias não existem se não houver uma preocupação com a verdade científica (as ditaduras são regimes ao serviço do preconceito e não da verdade ).

      Assim Erdogan e Orban não são democratas e não vejo nenhuma contradição ,sendo eu democrata,ao afirmá-lo.

      Quanto a Ceuta,Gibraltar, Falklands, Puerto Rico…..o caso muda de figura – resquícios de colonialismos

      1. Timor nunca deixou de ser território português à luz do direito internacional até à plena independência, alcançada em Maio de 2002.
        A apropriação violenta do território pela tropa indonésia, em 1975, não conferiu qualquer legitimidade a Jacarta. Muito pelo contrário.

        1. E ainda assim foram “só” 28 anos… em que a comunidade internacional assobiou para o lado. E a nossa diplomacia se afadigou menos com Timor que com Macau.

          1. Sem os bons ofícios da nossa diplomacia, que soube mobilizar países amigos e aliados, nunca teria havido um bom desfecho para a situação de Timor.

          2. Porque as conversas são como as cerejas e as políticas internacionais variam conforme as coordenadas.
            E eu só aproveitei a boleia, Pedro 🙂

      1. Perdeu-se mesmo. Ninguém comparou a Indonésia com a Espanha. Comparou-se a legitimidade de um processo. Mas já sabia disso, é um velho truque quando faltam argumentos.
        Claro que recusar que haja decisão pelo voto é tão antidemocrático em Espanha como na Indonésia. Acho que Espanha não tem direito divino.

        Mistura muito as coisas, a recusa de referendo é antidemocrática, prender opositores não violentos é antidemocrático, tanto em Espanha como em qualquer ditadura tenebrosa.

        1. “Comparou-se a legitimidade de um processo”

          A legitimidade depende da transparência – na Catalunha, assim como em qualquer regime não democrático, os actos eleitorais são de fachada.

          “Claro que recusar que haja decisão pelo voto é tão antidemocrático em Espanha como na Indonésia.”

          O voto apenas tem validade caso os processos eleitorais decorram livremente e de acordo com a Lei – a Espanha é uma democracia e um Estado de Direito. A Indonésia de Suharto, de Sukarno, não! A Lei não se faz, de pé, na rua.

          Seria ridículo fazer um referendo sobre a legitimidade da anexação de Timor, quando esta foi, por todos os Organismo Internacionais, credíveis, considerada ilegal.

          “Immediately after the invasion, the United Nations General Assembly and Security Council passed resolutions condemning Indonesia’s actions in East Timor and calling for its immediate withdrawal from the territory”

          “Oxford University held an academic consensus calling the occupation of East Timor a genocide and Yale University teaches it as part of its Genocide Studies program”

    1. Pois, a popularidade do Cidadãos deve sem dúvida algo ao facto de ele ter estes dois dirigentes jovens e bonitos. Pelo menos, a propaganda do partido joga com esse facto – repare-se nos seus lindos sorrisos publicitários.

  6. “Todos os espanhóis têm o direito a decidir se querem ou não mudar a Constituição”

    O problema, Pedro, é que Zapatero até ia embalado para colocar a questão – que se impunha dadas as inconstitucionalidades detectadas nos Estatutos de Autonomia revistos em 2006, não apenas na Catalunha mas em muitas outras regiões. Zapatero ia embalado, mas Rajoy nunca aceitou discutir a possibilidade.

    Já agora, é falso que os integracionistas catalães sejam a maioria; são mesmo “os restantes”, pois os independentistas conseguiram a maioria. Outra vez.

    https://www.google.pt/amp/s/observador.pt/2017/12/22/catalunha-os-resultados-finais-por-partido-e-por-cenario/amp/

    https://www.google.pt/amp/www.dn.pt/mundo/em-direto/interior/amp/ja-fecharam-as-urnas-catalaes-em-suspenso-para-saber-resultados-9003235.html

      1. Uma chatice, que a representação seja decidida por deputados eleitos e não por totatilidade de votos. Mas são as regras do jogo, e que no caso Catalão são as mesmíssimas do governo central.
        Outra chatice, as distribuições dos mandatos não serem actualizadas desde 1980 (para não favorecer os separatismos, na altura concentrados nas grandes cidades… agora nota-se a inversa, azar do caraças)

        Eu, no lugar da Arrimadas, também clamaria injustiça contra a lei. Afinal, exactamente o mesmo que os outros andam a fazer.

        1. A questão fulcral não está nos resultados, mas na legitimidade do processo. Veja bem:

          65% dos portugueses defendem a prisão perpétua e 26% concordam com a pena capital.

          http://visao.sapo.pt/opiniao/opiniao_pedrocamacho/pena-de-morte-a-justica=f516558

          A Constituição Portuguesa proíbe a prisão perpétua.

          Portanto se o povo, na sua maioria, defende a prisão perpetua mude-se, já, a Constituição? Um Estado de Direito a la carte…

          1. Está a confundir as coisas, Vlad.

            Se várias regiões espanholas aprovam, por referendo e por votação em parlamento regional, Estatutos de Autonomia com artigos inconstitucionais; se estes Estatutos são aprovados pelo governo central; se são chumbados no Tribunal Constitucional; a leitura política é “está tudo bem, a Constituição aprovada há 30 anos está adaptada à sociedade actual”?
            Isso não é leitura, é iliteracia. Profunda.

            Sobre a CRP: nunca foi referendada. Os nossos eleitos nunca o propuseram. Ou se ausculta a população ou se aceita que os deputados decidam pelos seus representados.
            Experimente fazer um referendo sobre a matéria. Depois falaremos sobre matéria escrutinada. Projecções e inquéritos de opinião não são instrumento legislativo.
            Apesar de o Vlad estar a tentar validá-los à sorrelfa por pura retórica.

          2. Separação de Poderes. O Parlamento Espanhol não pode aprovar Propostas que vão contra a Constituição Espanhola. Mudem a Constituição e façam o referendo, como os “ingleses”.

            “Sobre a CRP: nunca foi referendada”

            Também, a Americana e a Britânica. E ainda bem! Os Valores/Leis fundamentais de um regime nunca devem ser referendáveis.

            Contudo o texto base já foi alterado, 7x, pelo Parlamento, Democraticamente eleito.

            Viva Espanha!!

      2. Ai sim? O Pedro Correia contou os separatistas um por um? É que em todos os referendos ganhou sempre o “sim” à independência. Houve mais pessoas a votar no referendo de 1 de Outubro do que nas eleições para o parlamento europeu.

        1. Referendo validado pelas legítimas instituições do Estado espanhol e pela comunidade internacional foi o de Dezembro de 1978.
          Em que os eleitores catalães, numa participação recorde, aprovaram por 91% a Constituição que ainda vigora.
          Com a mais elevada percentagem registada em todas as parcelas de Espanha.

  7. “Hispanofobia” deve ser tipo a “heterofobia” ou o “racismo reverso”: são tão reais como o Pai Natal.

    1. Hispanófobos são os portugueses cheios de complexos de inferioridade, com fobia a Espanha. Os hispanófobos anónimos são os que se encontram num estado mais avançado desta patologia.

  8. De (má) memória :

    “Españolito que vienes al mundo, te guarde Díos.
    Una de las dos Españas te helara el corazón”.

    Infelizmente , a coisa complicou-se : hoje são , por defeito e com boa vontade, sete – e , nestas sete, algumas olham com cobiça para a (s) vizinha(s).

    A vera alma da política espanhola foi lapidar, pacífica e caridosamente definida por aquele grande e tolerante filantropo que se chamou Largo Caballero : ” Al adversario no lo quiero vencido ni convencido, sino exterminado”.

    Isto não é de hoje nem de ontem : é a .Espanha de sempre.
    Uma questão de tempo e de relação de forças – e o “ruedo ibérico” voltará a presenciar grandes “faenas”…

  9. Creio que o sonho ” libera ” do Pedro Correia vai acabar mal tanto em Espanha, como em França e em Portugal nem vai nascer sequer.
    Quanto há questão da Catalunha, Portugal já assumiu ( e muito bem) a sua posição.
    Os devaneios de meia dúzia de iluminados não reflectem a vontade popular, uma sólida maioria silenciosa que não pactua com referendos fantoches.

    WW

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *