O problema do dogma.


Luís Menezes Leitão,

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O que o Luís Naves abaixo defende é a existência um dogma de fé sobre a actuação do Estado espanhol, mas que infelizmente a realidade está a desmentir. A Espanha é uma democracia, e por isso pode meter qualquer opositor político na prisão. Quem ache que isso não é aceitável, está a defender teorias absurdas e a pôr em causa a sacrossanta democracia espanhola. A realidade, porém, é bastante mais complexa do que a proclamação de dogmas. Não é por acaso que as Nações Unidas já estão a intervir perante a repressão na Catalunha.

 

Quanto ao resto, claro que havia separação de poderes na constituição de 1933. Os juízes eram independentes, e por isso havia o cuidado de ter um tribunal especial para os presos políticos, com juízes escolhidos para o efeito. Tanto a actuação da polícia política como a censura estavam previstas na lei, sendo a censura mesmo prevista na constituição. Ao longo da história fizeram-se muitas barbaridades com base na lei, sendo precisamente para as sancionar que se fez o julgamento de Nuremberga. Qualquer jurista sabe que acima da lei está o direito.

Quanto à comparação entre terroristas assassinos e homens que defenderam as suas convicções por meios pacíficos, nem a comento. Está ao nível da do juiz Pablo Larena, que comparou o processo catalão à tomada das cortes espanholas por Tejero Molina em 1981. Que esta comparação sequer apareça num processo judicial, diz bem sobre os contornos deste processo.

Se a Alemanha vai extraditar Puigdemont, ela lá saberá o que faz. Não seria a primeira vez que um presidente catalão era entregue a Espanha pelos alemães. Mas a Bélgica e a Suíça não alinharam nesta história. Pelos vistos não se deixaram convencer pelo tal dogma de fé.

16 comentários em “O problema do dogma.”

  1. “Qualquer jurista sabe que acima da lei está o direito.” De onde emana o Direito? Acima do Direito estão os interesses. Há algum Direito que resista ao poder militar?

  2. Um tipo lê “as Nações Unidas já estão a intervir” e imagina logo capacetes azuis a entrar por Tarragona adentro e camiões de lona branca com medicamentos e ajuda alimentar a desembarcar na Barceloneta. Aberta a notícia, afinal é só a aceitação de uma queixa – o Público agradecerá o ‘clickbait’, Luís.
    PS – A existência de um Estado de Direito em Espanha não é crença, mas matéria de facto; é só preciso permitir algum espaço aos factos para que estes se imponham.

    1. O post não fala sobre a existência de Estado de Direito em Espanha, mas sim sobre a existência de democracia em Espanha.
      De resto, tanto democracia como Estado de Direito são conceitos relativos: nenhum país é totalmente democrático, apenas há países mais democráticos que outros. Não é correto dizer que “Espanha é uma democracia”, ponto final parágrafo. Espanha é somente um país mais democrático que muitos outros.

  3. Claro que havia separação de poderes no Estado Novo. As eleições presidenciais de 1958 e as legislativas de 1968 são prova disso mesmo

  4. Ao insigne jurista LM Leitão fico a dever (estava convencido do contrário) saber que, afinal, de 1928 a 24 de Abril 1974, sempre houve separação de poderes.
    António Cabral

  5. Os tribunais espanhóis são ciosamente independentes e não têm pejo em acusar políticos e até a familía real – são um bom exemplo para nós. A Espanha é uma democracia pujante, que soube ultrapassar os traumas do franquismo e, depois, a chantagem da ETA.
    Os independentistas catalães têm toda a legitimidade para defender as suas ideias e não são acusados por tal – acusados são os que violaram a lei geral, da mesma forma como no nosso país seriam acusados (cremos nós) eventuais políticos que pugnassem pela independência da Madeira e dos Açores e que violassem as leis da República.
    O independentismo quis impôr-se a metade da população, contra a qual abriu um confronto social que dividiu a sociedade a meio. É um movimento nativista, reaccionário e sectário, que trata os não catalães (e nomeadamente os estremenhos e andaluzes) como seres inferiores. Quanto aos catalães anti-independência: fascistas ou franquistas. Os seus líderes não primam pela coragem e pelo espírito de sacrifício que seria de esperar de quem defende tão nobre causa – na cabeça deles.
    Não compreendo o apoio a tais irresponsáveis e aventureiros, que se apresentam agora como vítimas. E não deixarão de comparar os tribunais alemães à Gestapo que entregou Companys a Franco – o reflexo básico de quem não tem argumentos e chama nazi a qualquer alemão de que não se concorda.
    Como se dá crédito a tal gente é que não compreendo, a não ser por um sentimentalismo imune aos factos ou por antiespanholismo primário…
    António Lino

    1. Valha-me Deus, comparar a Madeira e os Açores com a Catalunha é de espantar. Que cultura e língua própria possuem estes? Que raiz histórica e cultural possuem as populações das ilhas que seja diferente da dos seus ancestrais que as povoaram?

  6. Ao falar em democracia espanhola, o Luís entra em contradição. Aplicada a sua tese, chegamos a uma conclusão muito elementar: não existe democracia espanhola. A Espanha é uma ditadura ou um regime autoritário, não cumpre os critérios de Copenhaga (não há separação de poderes e tem presos políticos), por isso deve ser excluída imediatamente da União Europeia. É preciso extrair todos os corolários, não podemos ficar a meio da ponte. A sua tese demonstra sem qualquer dúvida que estamos perante um regime tóxico e devemos agir em conformidade, propondo a expulsão da Espanha do clube das nações europeias civilizadas. Em relação aos presos políticos, acho que temos a obrigação moral de lhes conceder imediatamente asilo. Peço desculpa antecipada pelo tom irónico da minha demonstração por absurdo, mas deve haver um problema com a teoria. No que diz respeito a argumentos jurídicos, sou demasiado ignorante para me pronunciar. Mesmo assim, atrevo-me a discordar do juiz Larena, embora me pareçam razoáveis as suspeitas de desvio de fundos públicos para fins ilegais, que é uma tentação em que alguns governantes eleitos caem, certamente com a melhor das intenções e sempre sonhando com a maior das impunidades.

    1. Aplicada a sua tese, chegamos a uma conclusão muito elementar: não existe democracia espanhola.

      O Luís Naves deve entender que a democracia é uma coisa relativa. Não há nenhum país totalmente democrático (talvez a melhor aproximação seja a Suíça). Há uns países mais demoráticos, outros menos; uns países mais democráticos numas coisas e menos noutras.

      Não faz portanto sentido dizer que a Espanha é uma democracia, nem que não o é.

      O que faz sentido é dizer que, neste ponto, a Espanha está neste momento a comportar-se de forma muito pouco democrática.

  7. Esqueci-me de referir que as leis anti-terroristas não se aplicam apenas a terroristas assassinos, mas a simpatizantes, recrutadores, líderes religiosos, etc. Ou seja, um membro convicto do estado Islâmico que faça um discurso no meio da rua ou numa mesquita a defender essa organização pode ser processado e condenado. De acordo com a sua definição, será um preso político.

    1. as leis anti-terroristas não se aplicam apenas a terroristas assassinos, mas a simpatizantes, recrutadores, líderes religiosos, etc.

      É verdade. E isso é muito pouco democrático, em minha opinião. Numa sociedade democrática deve haver liberdade de expressão, sendo o único limite a ela a defesa ativa e concreta da violência.

  8. A questão é mesmo essa: o que se discute é um dogma. Castela pretende manter uma ditadura sobre a Catalunha, e quem considerar Espanha uma democracia está considerar a Catalunha como parte dela e a admitir um ambiente democrático neste território. E isto é mentira.
    Acontece que Castela quer fazer implementar a sua acção ditatorial sobre a Catalunha; e qualquer membro da União Europeia que aceitar a extradição de Puigdemont revela que os seus princípios democráticos se restringem a um clã.

  9. Talvez a comparação entre o processo basco e o catalão merecesse uma análise.
    Sem bombas e com demagogia e palhaçadas bastantes já dá direito à independência?

    1. Será objecto de análise logo após os bascos decretam a dissolução do movimento armado. Como isso, que é exigido por Espanha e França, sem direito a negociação sobre os prisioneiros da ETA, ainda não ocorreu, o problema basco vai manter-se em banho-maria. Mas virá!

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