O comentário da semana


Pedro Correia,

 

«A questão económica é fundamental na equação. Porque o ambiente é bem comum, mas se todos assumimos as perdas ambientais das catástrofes, no que às florestas (e campos agrícolas) toca, só os proprietários arcam com os custos de conservação e manutenção.

Restringindo à floresta uma matéria que é extensível à agricultura e aos recursos hídricos, a economia ambiental está 200 anos atrasada na Terra e 20 anos em Portugal. Urge discutir esta matéria. Porque a madeira é apenas UM bem produzido mas é O bem transaccionado, com a biomassa a começar a ser valorizada na fileira da celulose e como combustível noutras fileiras.

 

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A responsabilidade pela manutenção da biodiversidade e da estrutura do solo, pela produção de oxigénio e pela preservação da paisagem e do microclima passa pelas florestas. Os tais “bens comuns”. O indivíduo não tem que pagar o oxigénio que respira – mas talvez deva pagar a sua renovação quando adquire um objecto, um processo que o afecta (já nos tiram dinheiro para isso em alguns). Não ao Estado, mas ao produtor que garante essa renovação, essa manutenção – incluindo o próprio Estado. Mas o mercado de carbono ainda se resume a Estados ricos comprarem quotas a Estados pobres para que as suas indústrias continuem a poluir acima dos limites acordados.

Assim como a paisagem. Passeamos livremente por campos e florestas – umas tratadas, outras abandonadas a si mesmas ou ao que as queira devorar. Não pedimos licença tal como não pagamos o privilégio. Mas choramos o fogo, crucificamos quem não trata, não ordena, não protege, num jogo do empurra entre o Estado e os produtores.

E ainda se queixa a sociedade ingrata pelos (parcos) subsídios atribuídos ao sector – que não necessariamente ao produtor. Sem esses, e graças à ausência de política ambiental, teríamos provavelmente os mesmos fogos, mas teríamos muito provavelmente mais área ardida e certamente menos gente a conseguir extrair rendimento da floresta.

Não precisamos de subsídios para ter floresta. Não precisamos de investimento crescente no combate aos incêndios, investimento que nunca é suficiente e que não é claro por onde circula.
Precisamos “apenas” de valorizar a floresta enquadrando-a numa política ambiental desmaterializada.»

 

Da nossa leitora Sarin. A propósito deste texto da Sofia Gonçalves.

20 comentários em “O comentário da semana”

  1. Não fiquei surpreendido com ma escolha deste comentário para Comentário da Semana – se fosse eu a escolher, tê-lo-ia escolhido também.
    O que me surpreendeu foi saber que Sarin é apelido de mulher, pois tinha-o tomado por apelido de homem. Não foi, o que se costuma dizer, uma agradável surpresa, mas foi uma surpresa grande.

      1. Tenha tento na escrita, ou ainda o massacram com essa do “pensamentos à homem” – expressão que sempre associei a traseiras de ginásios, cigarros surripiados e conversas imaturas pejadas de palavras velhas como Bocage 🙂

        1. Sarina, a maioria das mulheres tem uma tendência extraordinária para escolher as bestas “mais homens” ….não sei se serão resíduos genéticos, dos tempos de carne crua e caverna, que as inclinam, subliminarmente, para o macho cão de guarda. Quanto maior a moca e o berro maior lhe parece o descanso

          1. Mas não, meu caro, a associação é feita não por memórias vividas mas por memórias observadas 🙂
            Não escolho pelo tamanho da moca mas da sensibilidade, e quanto ao berro, sou mais do verbo… nasci para contrariar 😀

      2. Bem observado, Vlad, o tal. Mas, a verdade, é que não sei o porquê desse meu convencimento. Será porque Varin não está longe de varão? Será porque raramente se encontram mulheres interessadas no tema? Não sei. O que sei é Sarim mulher me surpreendeu. Pela positiva, diga-se.

          1. Vlad, o provocador, não me meta em sarilhos, nem brinque com os meus lapsos: longe de mim querer ofender a Sarin. O respeitinho é muito bonito…

    1. Num texto geralmente só percebo um pouco da personalidade – até o género se torna difícil, porque se a Língua Portuguesa os distingue, muitos portugueses não distinguem a Língua com bons tratos.
      Não é o caso de Tiro, e embora eu, por questão de hábito adquirido noutros fóruns, tente manter um texto pessoal usando termos indiferenciados, de quando em vez lá sai uma frase onde as palavras são do género feminino – e pensei que Tiro as tivesse lido, até porque algumas lhe foram dirigidas 🙂

      Impossível não lhe perguntar: porquê a surpresa?

      1. Tem razão, só agora reparei que escreveu pelo menos uma palavra no feminino.
        Seja por causa do tema, ou porque Sarin me pareceu “nome” do sexo masculino, estava convencido que estava a corresponder-me com um homem e daí a minha surpresa quando constatei que, afinal, Sarin é mulher. E foi só isso.
        Resta-me desejar-lhe que seja Sarin por muitos e longos anos.

  2. Apoio a projetos de investimento de florestação, de exploração florestal, de aproveitamento da biomassa ou subprodutos florestais e de limpeza das florestas, quer na criação quer de modernização de empresas do setor.

    http://www.licentivos.pt/pt/candidatura-incentivos-agricultura-e-floresta-qren-portugal2020-licentivos/

    1. Apoios que são fundamentais mas que nunca entraram em Portugal no âmbito de uma política ampla, concertada, pensada, assumida.
      “Dá-se” porque é notória a necessidade de investimento; mas, à laia das pescas ou da agricultura desde os primórdios de um Portugal Europeu, estratégia nacional: zero.

      Como dizia “alguém”, haja cabecinha, dinheiro não tem faltado.

    2. Longe de mim querer entrar à colacção de um Emborcador, quanto mais d’O, caro Vlad. Mas já estou a fazê-lo, pois ando em vias de escrever um artigo que vai tocar nesse ponto – dentro do contexto específico daquilo que, neste momento, são as opções à disposição dos pequenos proprietários florestais (que são literalmente, devido a séculos de partilhas hereditárias, mais que as mães!), nomeadamente aqueles atingidos este ano pelos fogos e que viram a sua produção de 20, 30, 40 e/ou 50 anos desaparecer em 12 horas. Lembro-me que passam 8 (oito) meses e 3 dias sobre a calamidade (sinto que tragédia não faz juz) do dia 17 de Junho e ainda 4 (quatro) meses e 6 dias sobre a calamidade ainda maior do dia 15 de Outubro (e que me toca pessoalmente, ainda que eu não seja titular de nada mais que um carro que escapou incólume).

      Cingindo-me, por ora, aos apoios “2020”:

      Existem muitas incongruências formais nos processos de candidatura a estes apoios que fazem deles, na práctica, inócuos para os pequenos empresários do sector que tenham que se valer dos mesmos.

      Apenas a título de exemplo(s):

      Sociedade de proprietários de terrenos agro-florestais dedicada à sua gestão e exploração, dotada de meios (máquinas, alfaias, etc) próprios operador(es) para as mesmas contratados sem termo, candidata um projecto a financiamento ao abrigo dos apoios referidos acima;

      Para cada operação constante do projecto, tem de apresentar 3 orçamentos de empresas terceiras tanto para materiais como para prestação dos serviços que ela própria está capacitada a executar.

      Estes orçamentos serão comparados pelo IFAP à Tabela de Valores Médios de Mercado (não asseguro que é este o título da tabela, mas parece-me ser suficientemente explicativo do seu conteúdo) para as mesmas operações.

      O produto dos dois pontos anteriores, define uma percentagem de financiamento _até_ 75% para cada operação.

      Avança com o projecto, o financiamento é dado contra-facturas de empresas sub-contratadas para a execução do mesmo e, portanto, não pode executar o projecto com os meios de que já dispõe nem vê incentivo a investir nos que não tenha…

      As minhas antecipadas desculpas por esta parede erguida por um descrente nas instituições junto ao seu, por bem intencionado, louvável comentário. Posso (valha o que vale), noentanto, garantir-lhe que eu também não fiz por mal!

  3. Obrigada pelo destaque, Pedro.
    Espero que estes comentários de alguma forma contribuam para uma discussão que se quer alargada, e que promovam uma mudança na abordagem das matérias por quem de direito.
    Não necessariamente de acordo com uma ou outra linha específica, mas uma mudança que pense todas as possibilidades e opte pelas mais viáveis.

    Mais uma vez, obrigada. Se não agradeci antes, chamemos-lhe desatenção porque o foi 🙂

    1. A associação que eu faço a Sarin não é muito positiva pois que é o nome de um gás venenoso mortal. Arripio-me quando ouço ou leio essa palavra.

      1. “O que há num nome?”

        Cada um arrepia caminho como quer entre as dores que sente. Que os seus arrepios sejam esses é o que me arrepia.

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