Diário semifictício de insignificâncias (37)


escafandro,

Vou à estação dos CTT da Galiza (parece que vai encerrar) buscar uma encomenda. Espero cerca de três minutos (um período tão razoável que só pode constituir o motivo de encerramento) e depois sou atendido por um senhor cordato, mas lento. Muito, muito lento. Examina o talão deixado na minha caixa do correio de um lado e do outro, verifica cuidadosamente a data e a hora em que é suposto a encomenda já estar disponível, pergunta-me, em voz baixa e ritmo pausado, se sou o próprio (sou), pede-me o cartão de cidadão (que já coloquei sobre o balcão), não compara as assinaturas mas demora uma eternidade a transcrever o número, levanta-se (devagar), arruma (devagar) umas quantas cartas dentro de um tabuleiro, e segue (devagar) com ele para o interior da estação, onde fica durante quase tanto tempo como o que eu esperei até ser atendido. Regressa finalmente (devagar), com a minha encomenda nas mãos.

Houve um instante, ainda antes de ele se levantar da cadeira, em que estive prestes a irritar-me (sabe-se lá se não o acusaria de constituir o motivo de fecho da estação). Felizmente, apercebi-me a tempo do nome afixado na etiqueta que trazia ao peito. «José Plácido». Como ficar irritado com alguém que se limita a fazer jus ao nome?

 

(Agora que escrevinho isto, apercebo-me de que também se pode ver a coisa por outro ângulo: às vezes a irritação dissipa-se por motivos muito estranhos.)

6 comentários em “Diário semifictício de insignificâncias (37)”

  1. Esse senhor é realmente o funcionário mais lento dessa estação; é exasperante. Mas não generalizemos. As senhoras e o jovem são bastante eficientes e simpáticos. Vou ter pena quando fechar.

  2. Não deixo de me admirar com as pessoas que mandam vir encomendas pelo correio, sabendo que terão que se deslocar à estação de correios (que só está aberta no horário em que normalmente se trabalha) e ficar lá uma eternidade de tempo (a minha experiência é que o tempo de espera não costuma ser curto) para levantar a encomenda.
    É muito mais prático comprar as coisas em lojas.

    1. Já eu fico sempre admirada com as pessoas que acham que os seus modo de fazer, modo de ver, modo de viver são “mais qualquer coisa” que os dos outros.
      Por exemplo, há quem adore visitar lojas, virar e revirar escaparates, espreitar prateleiras e cantos; mas há quem prefira a objectividade de um catálogo ou da net, sem perda de tempo, sem deslocação, sem ruído na escolha; e há quem prefira os mercados a céu aberto ou as lojas apinhadas de empregados solícitos que tentam vender aquilo de que nem sequer se desconfiava gostar, quanto mais precisar. E haverá muitos outros que compram de maneiras que não referi e quiçá desconheço. E todos serão felizes e infelizes nas suas compras – mas poucos serão suficientemente iluminados para ajuizar do valor dos outros (e com ele se admirarem) pelo modo mais ou menos prático de comprar.

      Nota final: O correio, incluindo as encomendas, pode ser entregue ao domicílio.

      1. O correio, incluindo as encomendas, pode ser entregue ao domicílio.

        Pois pode. Mas é preciso que as pessoas estejam em casa para receber. Coisa que as pessoas que trabalham, como eu, raramente têm ocasião para fazer.

        a objectividade de um catálogo ou da net

        Mas as compras não são objetivas, são subjetivas. Uma pessoa só sabe se uma coisa lhe serve depois de a ver, examinar, provar (no caso de roupa ou sapatos). No catálogo não se vê nada disso. Quando o produto chega, apercebemo-nos de que não é aquilo que julgávamos.

        Eu jamais compraria um livro sem antes ter ocasião de o folhear, ler uns trechos. (E mesmo assim compro montes de livros que não deveria.) E então roupa ou sapatos, está completamente fora de causa. São coisas totalmente subjetivas, que a objetividade de um catálogo jamais me permitiria escolher de forma correta.

        1. Pois talvez seja esse o problema: para mim as compras são muito objectivas.
          E há umas coisinhas muito úteis, como a lei das vendas à distância e os direitos de anulação da compra nos 14 dias posteriores à recepção do bem ou o facto de “entrega no domicílio” ser na realidade “entrega na morada que me der jeito” e que geralmente é mesmo o meu local de trabalho.
          Mas isso sou eu, que não gosto de grandes superfícies e encomendo no comércio tradicional que, pasme-se, também já vende via net… alfarrabistas então nem lhe digo!

          E mesmo abominando “andar às compras” ainda assim não fico admirada por haver quem prefira dedicar tempo a perambulações por hipermercados e centros comerciais.

  3. Já li noutro blogue uma pessoa a comentar que, desde que se começou a falar na nacionalização dos CTT, alguns funcionários dos correios parecem estar em greve de zelo, parecendo interessados em aumentar os problemas da empresa em que trabalham.

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