Dito isto, no dia 6 de Janeiro há algo que muda na minha forma de estar e estou pronta para fazer a simpatia dos Reis. Reunimos amigos à volta da mesa – a melhor forma de estar com os amigos, diria – e munidos de uma nota de cinco euros e de bagos de romã vamos dizendo e embrulhando três bagos: Melchior, Gaspar e Baltazar eis uma semente para ter e para dar.
A dita nota, no meu caso, está velha e seca, é sempre a mesma. Fica enrolada e bem apertada dentro da minha carteira durante o ano e tenho a certeza que nunca terei os 117 milhões de Cristiano Ronaldo, mas terei para ter e para dar. Todos os anos, o ritual repete-se. Depois de dobrar a nota três vezes com três bagos de romã, dou-me conta que ter e dar é apenas uma extensão do afecto gigantesco de quem partilha a mesa comigo.
Os amigos permitem-nos ter e dar. Estão cá para nós. São uma família lógica, distinta da família biológica, são a família que escolhemos.
O meu núcleo familiar é cada vez mais curto. As famílias não se praticam com os primores de outrora. No meu caso, o Natal mudou consideravelmente depois da morte do meu avô paterno que, na verdade, era um perpétuo Pai Natal, sempre de sorriso no rosto, capaz de dançar de andarilho e de não se chatear com nada. Faz falta o meu avô. Muita falta.
Contudo, olhando à minha volta, ouvindo as histórias mil vezes repetidas (amigos antigos também têm essa coisa da repetição), as gargalhadas, as exclamações de alegria e de espanto; observando a forma ternurenta como os meus amigos se abraçam, se tocam enquanto conversam, assegurando-se da importância de cada um, sei que estou bem entregue.
O meu avô apreciaria esta dádiva de amizade que me aconteceu na vida e, é claro, riria da minha lista de boas intenções. Para ele, um dia de cada vez era mais do que uma opção, era um mote. E eu, avô, estou a aprender, um dia ainda chego lá.

Só este ano comi passas, tradição sem piada. Por ser a primeira vez, não me lembrei de formular desejos (nem sabia que as passas serviam tal objectivo). Não ligo meia ao Dia de Reis, que apenas marca o tempo de pôr a casa em modo normal. E nunca por nunca eu ousaria tanto desejo (talvez à dúzia saiam mais baratos). Um por passa?! É demais. Sou como o seu avô, um dia de cada vez, que 24 horas podem parecer muito tempo.
Também duvido que haja alguma lógica nas minhas amizades, porque na verdade não as escolhi, aconteceram-me. Caíram-me benditamente no regaço. Gosto delas e fazem-me falta. Imagino que se juntasse todos os amigos não seria “aquela festa”, alguns nem se conhecem e são demasiado diferentes. Mimo-os à vez e eles a mim. Mas tenho assim uns grupinhos com quem é um prazer estar. A família ainda festeja conjuntamente e até me parece que cada vez somos mais, o que também não tem lógica nenhuma, mas, lá está, acontece.
Desta vez aprendi um ritual. Viva a diversidade. E que os reis encerrem condignamente o seu natal:).
Um bom ano, Beatriz!