
«Haverá alguma lei que obrigue os portugueses a serem graves, pomposos, eminentemente respeitáveis, com aquela respeitabilidade própria dos adolescentes que desejam passar por homens feitos? Já não haverá gente nova nesta terra que teve tanta gente nova? Estaremos todos, efectivamente, convencidos de que temos uma mensagem a comunicar ao mundo?»
Luís de Sttau Monteiro, Um Homem Não Chora (1960), pp. 76/77
Ed. Ática, Lisboa, 1970 (4.ª edição)

Gosto da prosa deste escritor e há muitos anos li este livro. E hoje não recordo nada, é como se o conteúdo tenha evaporado. Lembro bem a melena de Sttau Monteiro:). Era uma personagem interessante que conheci graças a um concurso no tempo em que os concursos quase valiam mais pelo júri que pelos concorrentes.
Gosto muito deste livro (e do seu mano um ano mais novo, ‘Angústia Para o Jantar’). Duas obras que mudaram a escrita na literatura portuguesa, limpando-lhe gorduras e excrescências balofas – defeito em que volta e meia os nossos escritores recaem com excessiva frequência. Ao mesmo tempo, um certo retrato da Lisboa intelectual e burguesa, das classes dominantes, nos anos crepusculares do salazarismo.
Hoje os tempos são outros. Homens feitos a fazerem-se passar por adolescentes. A jovialidade é a marca dos tempos. Mas estaremos melhor?
É verdade. As coisas inverteram-se.
Faltam, imperdoavelmente, as cartas da guidinha.
Do filho do embaixador fassssista em Londres.
Essas cartas marcaram um estilo. E uma época. E foram uma forma inteligentíssima de contornar a censura.
Deviam ser reeditadas. Mas o contexto teria de ser muito bem explicado em notas editoriais. Há cada vez menos gente preparada para isso.