
Gostava especialmente de Belmiro de Azevedo. Era um grande empresário, que transformou uma empresa familiar num grande grupo económico, que aguentou contra ventos e marés, fazendo da vida empresarial praticamente um duelo. Curiosamente perdeu as duas maiores batalhas em que se envolveu: a oposição à OPA do BCP sobre o BPA, que perdeu, e a OPA da Sonaecom sobre a PT, que também perdeu. Mas, mesmo quando perdia, estava sempre pronto para a batalha seguinte, já que, como ele dizia, não há derrotas eternas, nem vitórias definitivas.
Mas o que gostava mais em Belmiro era o seu estilo truculento e a capacidade de impor os seus pontos de vista. Num país onde se considera que o respeitinho é muito bonito e em que a maior parte das pessoas só diz meias palavras, com receio das consequências, Belmiro dizia e fazia o que pensava, sem constrangimentos de qualquer ordem, sendo absolutamente demolidor quando era necessário. Recordo-me uma vez que o Parlamento o queria ouvir num inquérito, e ele disse que só estaria disponível às oito da manhã, pois tinha que apanhar o avião para o Porto. Pois não é que os deputados, que habitualmente só chegavam às 9h30m, foram abrir propositadamente o Parlamento às oito da manhã, com receio de serem chamados de preguiçosos por aquele homem que fazia do trabalho a sua divisa.
Ficou na história o conflito de Belmiro com Marcelo Rebelo de Sousa, quando ele era presidente do PSD, e criticou o facto de a Sonae estar a fazer investimentos no Brasil com apoio do Estado. Belmiro respondeu-lhe à letra, exigindo que tirassem Marcelo da presidência do PSD, e que ele fosse erradicado da sociedade portuguesa. Lembro-me de que o artigo que escreveu na altura terminava assim: “Aqui tem, professor Marcelo Rebelo de Sousa. Por mim, escusamos de ficar por aqui: não me calo nem que Cristo desça à terra. E desengane-se: dito por mim, isto quer dizer realmente isso mesmo“. Cristo desceu efectivamente à terra e nem assim Belmiro se calou, só o tendo feito em definitivo ontem. E os poderes do Estado mostraram mais uma vez a sua verdadeira natureza. O Presidente fez uma declaração formal de condolências e, no Parlamento, que em tempos tinha aberto de propósito para o ouvir, houve deputados a abster-se ou mesmo a votar contra um simples voto de pesar. Só que Belmiro de Azevedo era muito superior a esse tipo de posições oficiais e só podemos imaginar o que diria sobre as mesmas. Ontem partiu um grande homem.

9.30 é para a senhora da limpeza. Os deputados chegam lá para o meio-dia.
Por acaso fui uma vez ouvido pelo Parlamento às 9h30m e a sesão começou mais ou menos a essa hora. Reparei, no entanto, que no início a assistência era reduzida e que alguns deputados só foram chegando mais tarde…
Com mais meia dúzia de tipos do calibre dele, nos negócios, na política e na administração pública, esse país poderia aspirar a outros voos.
Vamos sentir a falta dele, entre outras coisas para comentar as incidências do julgamento da “Operação Marquês”.
Que descanse em paz.
Belmiro de Azevedo é um dos poucos empresários portugueses verdadeiramente digno desse nome.
Entre nós, o que é comum é esse nome ser usado por e atribuído a parasitas do Estado e dos Fundos Europeus, em conluio com os políticos.
A esses, Belmiro brindou o seu sincero e profundo desprezo.
Grande empresário, grande cidadão, grande homem!
Obrigado pelo exemplo!
E, se houver Céu, tenho a certeza que ficará muito melhor contigo lá.
Até sempre!
João de Brito
Nunca pagou impostos em Portugal. É tão merecedor do céu como o fidalgo do Auto da Barca do Inferno.
Duvido muito que nunca tenha pagado impostos em Portugal.
Mas tenho a certeza de que pagou muitos salários em Portugal.
João de Brito
A liberdade total de circulação de capitais, tal como de pessoas e mercadorias, foi aprovada pelos governos. Quem não concorda e está na AR que proponha a alteração desta situação. Nunca ouvi que pusessem na agenda nenhum tema desta natureza. Se a lei foi violada, apresentem queixa.
Se não for a actividade privada a pagar, não há impostos directos nem indirectos nem contribuições para a SSocial. Nem taxas nem taxinhas. E não há, portanto, dependentes do Estado. É uma ficção libertária tão válida como a de sugerir que a razão primeira da existência do ser humano é pagar impostos.
A liberdade total de circulação de capitais, tal como de pessoas e mercadorias, foi aprovada pelos governos. Quem não concorda e está na AR que proponha a alteração desta situação. Nunca ouvi que pusessem na agenda nenhum tema desta natureza. Se a lei foi violada, apresentem queixa.
Se não for a actividade privada a pagar, não há impostos directos nem indirectos nem contribuições para a SSocial. Nem taxas nem taxinhas. E não há, portanto, dependentes do Estado. É uma ficção libertária tão válida como a de sugerir que a razão primeira da existência do ser humano é pagar impostos.
um simples voto de pesar
Não foi um voto de pesar simples. Foi um voto de pesar que se dedicou a tecer considerações, a meu ver totalmente descabidas e deslocadas, sobre a grandeza da Sonae. Se tivesse sido um simples voto de pesar pela morte do homem, talvez o PCP tivesse votado a favor.
Resumo do texto:
Marcar posição e dizer o que se pensa, mesmo insultando eleitos pelo povo, é uma virtude para empresários como Belmiro.
Marcar posição e dizer o que se pensa é um defeito para quem é eleito pelo povo, sobretudo se for para falar de Belmiro.
É toda uma forma de entender a política e a democracia.
O que conheci dele é muito pouco. Reconheço que foi um homem inteligente, trabalhador. Um lutador. Que tinha forte espírito empresarial.
Criou, segundo dizem, grande fortuna, empregou uma larga fatia da população portuguesa. Mas também julgo que quem detém tal poder, pode dar-se ao luxo de dizer em voz alta o que pensa. Pouca gente é Belmiro.
É verdade que Belmiro subvalorizava a democracia portuguesa mas tendo
estudado numa democracia(com Harvard e outras)não acredito que a desprezasse.Mas que dizer de um país com três bancarrotas governado por políticos responsáveis por elas, vivíssimos da costa na altura das blasfémias?
Percebe-se que tivesse sugerido encher S Bento de gestores,destinar-lhes objectivos e responsabilizá-los pelo cumprimento deles.Neste contexto percebe-se.Tal como exigir-lhes também respeito pelos horários.Qualquer trabalhador a isso está obrigado.