Em 1936, escrevendo sobre Liverpool, cidade portuária que achou decepcionante, Graham Greene descreveu-a assim: “Ninguém vai por prazer a Liverpool, com a sua pracinha acanhada e as tabuletas ao alcance da mão. Ali todos os botequins e cinemas fecham às dez horas da noite.”
Exactamente um quarto de século depois, Liverpool serviria de berço aos Beatles – a maior exportação britânica de todos os tempos. Por mais treinado que esteja o nosso olhar, podemos sempre equivocar-nos em relação às cidades, como em relação às pessoas. Mais do que uma questão de perspicácia, é uma questão de perspectiva. E de oportunidade.


Deste-me uma ideia que vou tentar trazer aqui amanhã.
Óptimo. Venha ela.
Também achei Liverpool decepcionante, Pedro, mais de meio século depois de GG. E mesmo depois dos Beatles. Claro que tens razão, é sempre uma questão de perspectiva. E também de convergência de interesses e de sensibilidades, com a cidade que se visita e no momento em que a visita acontece.
Ana: Greene era, em muitos aspectos, um visionário (antecipou a derrota militar dos americanos no Vietname em 20 anos, no seu fabuloso romance ‘O Americano Tranquilo’, por exemplo. Tal como antecipou o romance existencialista (escreveu ‘Brighton Rock’, talvez a sua obra-prima, cinco anos antes d’«O Estrangeiro», de Camus). Mas em Liverpool (ninguém é profeta na sua terra) foi incapaz de antecipar o extraordinário sucesso em que se tornaria a futura cidade-símbolo dos Beatles quando tudo ainda fechava às dez da noite. No fundo, com isto quero dizer que devemos evitar fazer juízos definitivos sobre as cidades, isto é, sobre as pessoas. Provavelmente, o tempo virá a demonstrar que o erro de perspectiva era nosso, apenas nosso.
Para não falar do Liverpool F.C.
Opps, Perdão. Longe de mim mandar este post para o Futebol.
Ups, melhor não. Ainda encontrava lá o Lelo.
Como tinha uma ideia negativa de Liverpool, não achei a cidade nada desengraçada. Acresce que esteva um dia de céu azul e calor e havia imensa gente na rua. Fiquei com vontade de voltar porque foi mesmo só de passagem que lá estive. Como dizes, Pedro, as cidades são sempre uma questão de perspectiva e de oportunidade, mas também de nós próprios, o que levamos de nós até elas e o que elas nos dão.
Exactamente, Leonor.
Estou muito de acordo com a Leonor quando diz “as cidades são sempre uma questão de perspectiva e de oportunidade, mas também de nós próprios, o que levamos de nós até elas e o que elas nos dão.” Eu só acrescentaria, e de tempo, o tempo esse grande escultor de que nos fala Yourcenar, é fundamental.
Sem dúvida, Ariel.