
Hoje passam 77 anos sobre o dia do fuzilamento em Barcelona de Lluís Companys, o presidente da Generalitat da Catalunha que pagou com a vida a ousadia de declarar o Estado Catalão dentro de uma República Federal Espanhola. Ao contrário do que habitualmente se refere, Companys nunca proclamou a independência, pretendendo apenas que a Catalunha fosse um Estado numa Espanha federal. Mas, mesmo isso chegou para que tivesse como resposta a prisão, o exílio, e por fim a morte por fuzilamento. Aquando da sua execução, efectuada após um julgamento sumário de umas horas, recusou a venda, quis permanecer descalço para que os seus pés nus pudessem sentir a terra catalã e gritou aos seus assassinos: “Assassinais um homem honrado. Pela Catalunha“. Causou por isso indignação geral a recente ameaça de um jovem deputado do PP, Pablo Casado, de que Puigdemont poderia vir a ter o mesmo destino de Companys
Companys pode ter sido assassinado, mas a ideia que defendeu permanece. Hoje uma das avenidas principais de Barcelona é o Paseo Lluís Companys e a independência da Catalunha está na ordem do dia. Mesmo que não venha a ocorrer, há a certeza de que nada ficará como dantes depois deste processo, uma vez que o PP e o PSOE já se puseram de acordo para uma ampla revisão constitucional que reforce a autonomia das regiões de Espanha. É mais que tempo de a Espanha abandonar de vez a divisa de Franco “Una, grande, libre“. Historicamente sempre existiram muitas Espanhas, sendo que até o nosso Arcebispo de Braga tem o título de Primaz das Espanhas. Reconhecer a diversidade dos povos de Espanha, e até a eventual consagração de uma Espanha Federal na Constituição, é seguramente a solução mais adequada para a resolução deste conflito, em lugar do extremar de posições que não conduz a lado nenhum.

Excelente post Luís. De facto esta questão à volta da Independência da Catalunha está a provocar mudanças, inclusive no Estado espanhol por natureza autoritário. A cedência dos dois maiores partidos nacionais no que diz respeito a uma necessária revisão constitucional que possa permitir uma maior autonomia das diversas regiões espanholas, aumentando o seu poder de autodeterminação nomeadamente no que diz respeito à realização legal de referendos, que possam inclusivamente levar à própria independência ou pelo menos a uma federalização do Estado espanhol.
Obviamente também surgem vozes radicais como a desse deputado direitista do PP, Pablo Casado, que de uma forma baixa e ordinária, fez uma verdadeira ameaça a Puigdemont, afirmando que este poderia ter o mesmo destino desse grande herói e patriota catalão Lluís Companys. Declarações inconcebíveis num país que se diz democrático e membro da UE.
A luta do povo catalão não será em vão, por maior que seja o cerco que os senhores do poder económico capitalista tentem fazer para o sufocar. A legitimidade e justeza das pretensões dos povos acabarão sempre por vir ao de cima.
Hunos y indibisibles
foi bem morto!! andava a promover o anti-clericalismo em Catalunha!! esses movimentos andavam a matar bispos e padres por tudo o que era Espanha…eram da matriz dos canideos que tomaram Portugal após o assassinio do “ultimo” Rei de Portugal…
De matanças e cornudos não há ninguém, nem algo, que supere a Santa Igreja.
sim…por isso é que os Jacobs de Allah andam todos a salivar para destruir o Reino Católico de Espanha…
Com certeza deve estar esquecido ou então nem tem conhecimento dos milhões de pessoas que a Santa Igreja através da sinistra Inquisição mandou para a fogueira, para além de muitas mais noutras circunstâncias. E tudo isso em nome da fé cristã, em nome de Deus!!! Isso sim é uma verdadeira blasfémia, crimes que a Igreja jamais poderá branquear. Milhões de mortos provocados pelo fanatismo e autoritarismo da igreja católica, que infelizmente como bem sabemos sempre esteve ao lado dos poderosos deste Mundo, pelo menos a sua hierarquia. Para quem supostamente deveria ter como missão uma ação espiritual e pastoral, sempre se mostrou e mostra muito ligada ao poder temporal. Cinismo, mentira e hipocrisia é o que mais abunda nessa instituição criada em nome da fé em Deus, mas que de Deus tem muito pouco.
Não vou evidentemente alinhar pelo comentário delirante do anónimo que elogia a morte de Companys, mas o seu não lhe fica muito atrás, ao nível, aliás, da “luta do povo catalão” (ou seja, dos mais activistas) contra o “capitalismo” (que anda a patrocinar esta aventura). Com que então a Inquisição matou “milhões de pessoas”? Sabia, porventura, que nos anos trinta houve mais clérigos mortos do que as vítimas de trezentos anos de Inquisição? A Igreja tem as costas largas, não é preciso vir com lendas negras inventando “milhões” de vítimas que não existiram, enquanto outras ficam esquecidas – por ignorância ou propositadamente.
Não sei o bastante do assunto para ter opinião.
Mas duvido que honradez seja o padrão da classe política catalã e que federalização ou autonomia seja a bandeira que serve quem se proclamou independentista.
Abandonar isso de “una, grande, libre” para assumir “un sol poble” (que é o mesmo, mas agora em catalão… e assim já se pode dizer) geneticamente puro,como defendem Pujol, Junqueras, etc. É ler o que eles escrevem.
O supremacismo travestido de vitimismo vai percorrendo o caminho desejado.
CF
Deixe-se de subterfúgios, Luís. A consequência óbvia daquilo que tem vindo a defender aqui no Delito é a independência unilateral da Catalunha, e aplicados os mesmos argumentos a outras regiões, a fragmentação desregulada de Espanha.
Nada será como dantes: será durante décadas, seguramente pior. Para os catalães, para os espanhóis, para o conjunto dos europeus.
O resultado do que andou aqui a defender não será uma Espanha federal, porque, muito por culpa do governo central mas sobretudo por culpa dos nacionalistas catalães, a quem o Luís não se cansa de dar a mão, para centenas de milhar de catalães isso já não chega. E, sobretudo, com a vertigem dos acontecimentos, nunca criticada pelo Luís, isso nunca, mas nunca, poderia agora chegar a TEMPO.
Ao contrário do que parece imaginar, Espanha não tem margem de cedência, porque a constituição espanhola não permite ao governo de Espanha ceder nesta questão. A Catalunha pode decidir ignorar uma constituição que não reconhece como legítima, mas Espanha não pode fazer o mesmo, porque uma clara maioria dos espanhóis a considera legítima e qualquer mudança demorará largos anos a surtir efeito.
Se a Catalunha não der agora vários humilhantes passos atrás, e tudo indica que não os dará, porque negou a si própria qualquer margem política para o fazer, vai efectivamente declarar a independência unilateral.
Ao que se seguirá uma luta fratricida em que a outra metade da Catalunha vai tentar apoiar-se no estado central para reconquistar o controlo, ao mesmo tempo que esta metade vai tentar construir o seu estado à margem de toda a legalidade vigente, dos tratados internacionais, etc.
Depois de agitadas milhões de pessoas de ambos os lados do que agora é claramente uma barricada, depois de extremadas as posições para lá de qualquer possibilidade de compromisso, o conflito é inevitável. Veremos se quando ao conflito se somar a uma profunda crise económica e institucional este continuará, como até agora, largamente civilizado e pacífico.
Com manifestações e greves constantes, ameaças de morte, tribunais desacreditados, e estruturas armadas fiéis a ambos os lados, presume o Luís que o conflito vai ser largamente civilizado e pacífico como até agora? Com base em quê, se qualquer jogo de futebol dá lugar a inútil violência gratuita?
E perante a gravidade da situação, com a solenidade bacoca de um memorial, mistura o Luís uma inane discussão da toponímia de Barcelona, com uma agora mais que inviável proposta duma Espanha federal, tudo munido da ligeireza atroz de quem parece achar que basta um pouco de boa vontade para resolver a questão.
Paseo Lluís Companys
Passeig, em catalão.