Música recente (135)


escafandro,

Tori Amos, álbum Native Invader.

O problema com Amos é que o seus melhores álbuns – não por acaso todos saídos na década de 1990 – abordavam, entre a fragilidade e a raiva, traumas pessoais nascidos de violência física e sexual a que ela estivera submetida. Tori extrapolava para o geral, para as limitações e para a violência a que as mulheres estavam sujeitas (o piano funcionando por vezes como cúmplice das palavras, outras vezes como contraponto), mas a base, a nota que conferia uma sinceridade dolorosa aos temas, era a experiência pessoal. Felizmente, desde então a vida de Tori terá sido mais pacífica e confortável. Isso, porém, gera problemas à sua música. Para um fã incondicional como eu, ela não tem álbuns maus. Mas até um fã incondicional como eu é forçado a admitir que também não produz obras-primas desde From the Choirgirl Hotel, do longínquo ano de 1998, ou, no limite, Strange Little Girls, de 2001. Night of Hunters, o álbum conceptual laçando pela Deutsche Grammophon em 2010, foi – não obstante uma faceta ligeiramente presunçosa – uma experiência interessante. Os últimos dois álbuns saídos após Night of Hunters são igualmente bastante bons – mas não surpreendentes. Em Native Invader, Tori esforça-se por substituir o seu sofrimento pessoal por aquilo que entende ser o sofrimento do planeta, não se coibindo de entrar em exercícios de antropomorfização à la Björk e assestando baterias na criatura mais perniciosa de todas: o ser humano (o native invader do título). Independentemente do grau de tolerância que ainda se tenha por álbuns com mensagem ecológica, a ideia quase resulta. Apresenta, contudo, um pecado grave e pouco habitual em Tori: várias letras caem num simplismo atroz, com analogias e – considerando até a fonte de inspiração dos tais álbuns da década de 1990 – de mau gosto. Atente-se nesta passagem de Benjamin: Sucking hydrocarbon from the ground / those pimps in Washington / are selling the rape of America. Oh, Tori…

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