Benefícios do Ensino Superior em Portugal


joaomsandre,

Num dia de “reflexão”, decidi reflectir sobre outra coisa que não as eleições: o valor dos estudos em Portugal. Não sendo um especialista com acesso a dezenas de bases de dados nem com tempo para passar meses de volta de folhas de cálculo, fiz uns quantos rápidos baseados em dois dados: os rendimentos brutos anuais de acordo com o grau máximo de educação atingido (valores de 2014 do INE) e os valores de IRS a pagar de acordo com cada escalão.

 

Munido destes valores decidi descobrir qual o valor monetário de um grau académico. Há ressalvas a considerar:

– Apenas considerei como valor base o de pessoas com o secundário (a actual escolaridade mínima obrigatória). Os valores abaixo são ignorados.

– Considerei as seguintes durações: secundário sem reprovações até aos 18 anos de idade; o bacharelato como sendo de 3 anos (sem anos extra); a licenciatura de 5 anos (1 ano extra); o mestrado de 5 + 2 anos (2 anos extra); e o doutoramento de 5 + 2 + 4 anos (3 anos extra).

– A reforma chega aos 67 anos de idade (necessária para estimar os rendimentos e contribuição totais).

– Considerei que os alunos de mestrado e doutoramento recebem um salário anual do grau abaixo (de mestrado com salário de licenciado, de doutorado com salário de mestrado). Há um erro mas é a aproximação que decidi fazer.

– Para o salário anual de mestrado (não explícito nos dados do INE) estimei a média entre licenciatura e doutoramento.

– O valor que retirei dos dados do INE é médio para o resto da carreira contribuitiva. Isto é duvidoso especialmente porque é muito provável que alguém com mestrado obtido hoje acabe a aumentar significamente os seus rendimentos à medida que, ao longo das décadas, o valor da sua educação aumente. Mas é a aproximação que me foi possível.

 

Ressalvas feitas, vamos aos valores.

 

Valor do grau académico

No gráfico 1, está o valor dos rendimentos brutos totais que uma pessoa pode auferir ao longo da sua carreira contribuitiva. Também adicionei a diferença que se obtém em relação a uma educação a terminar no secundário.

 

rendimentos brutos totais portugal.jpg

Figura 1: rendimentos brutos totais ao longo da carreira profissional.

 

O valor de um grau académico em Portugal salta de imediato à vista. Um simples bacharelato aumenta em 65% os rendimentos. Curiosamente, ter uma licenciatura não ajuda muito, com os anos extra necessários à mesma a reduzirem os rendimentos totais (a diferença anual entre bacharelato e licenciatura é de apenas 250 €/ano). A partir do mestrado obtém-se paridade em relação ao bacharelato e com o doutoramento atinge-se o valor mais alto, embora não por valores muito elevados (cerca de 1.000 €/ano).

 

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Figura 2: rendimentos líquidos totais ao longo da carreira profissional.

 

E se optarmos por olhar para os rendimentos líquidos? Nesse caso a situação piora para os licenciados e mestres. A vantagem sobre o bacharelato chega apenas com o doutoramento e, em termos líquidos, é de apenas 450 €/ano. Em perspectiva, pagará os cafés diários.

 

Com base nestes valores parece claro que o melhor grau académico para a carreira profissional será o bacharelato. Em 3 anos está terminado, o que significa que a independência financeira está mais próxima, e ao longo da carreira não é muito pior que ter um doutoramento. Claro que aqui não está contabilizado o maior valor de reforma que o doutorado terá, mas num ponto de vista estritamente de carreira profissional, o bacharelato parece ter a melhor relação custo/benefício (quando o custo é o esforço pessoal e de tempo e o benefício os rendimentos).

 

Valor contribuitivo para o Estado

Fala-se sempre do benefício do grau académico, mas não olhamos muito para aquilo que ele oferece ao Estado do ponto de vista contribuitivo. Ora, se alguém tem rendimentos superiores, irá também pagar mais impostos (até devido à subida nos escalões). No que resulta isso?

 

contribuicao fiscal corrigida portugal.jpg

Figura 3: impostos pagos por cada indivíduo de acordo com a educação atingida (reflectindo rendimentos durante mestrado e doutoramento).

 

O que vemos aqui é que, um indivíduo que tenha um grau académico acabará a pagar ao longo da sua carreira contribuitiva essencialmente mais do dobro que alguém que tenha apenas estudos secundários. Ter um bacharelato faz entrar no cofre do estado tanto em valores extra como alguém com o secudário ao longo da sua vida. ou seja, um bacharel paga ao estado mais de 3.500 €/ano por ter estudado. Um licenciado um pouco menos. Um mestre e um doutor pagam ao estado pelo privilégio cerca de 4.00 e 4.500 €/ano extra, respectivamente (em relação ao bacharel).

 

Só que esta não seria a contribuição total. Idealmente adicionaríamos também o valor do IVA pago ao fazer compras. Aqui decidi fazer novas aproximações:

– A taxa de IVA escolhida foi a intermédia (13%), para reflectir que muitos dos gastos são com bens a IVA reduzido. O valor pode estar errado (não encontrei informação sobre taxas médias de IVA na minha busca rápida) e certamente será diferente de acordo com os rendimentos disponíveis (indivíduos com menores rendimentos gastarão uma maior percentagem dos mesmos em bens d eprimeira necessidade a uma taxa mais baixa). Seja como for, é a aproximação escolhida.

– O valor do IVA foi aplicado sobre a totalidade dos rendimentos líquidos. Isto estará novamente errado (haverá quem faça investimentos ou poupanças), mas é a aproximação que escolhi.

 

contribuicao fiscal corrigida portugal + IVA.jpg

Figura 4: Impostos toais pagos com IVA adicionado.

 

Os valores aqui não alteram o cenário relativo da figura 3, apenas aumentam em termos absolutos. Dessa forma podemos calcular o valor acrescentado que os graus académicos trazem ao estado: aproximadamente 4.500 €/ano para bacharelato e licenciatura, 5.000 €/ano para o mestrado e 5.500 €/ano para o doutoramento. Podemos colocar isto em perspectiva ao olha para o custo de um aluno do ensino superior em Portugal (figura 5, retirado da página 275 da tese de doutoramento de Maria Luísa Machado Cerdeira, “O Financiamento do Ensino Superior Português: A partilha de custos“).

 

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Figura 5: Custo anual para o estado de cada aluno no ensino superior. Valores apenas até 2008.

 

Mesmo aceitando que o valor para o Estado era de apenas 3.610 €/ano/aluno em 2008 e que estes tenderiam a aumentar durante a recessão, podemos ver que a contribuição fiscal acrescida graças á posse do grau académico compensa largamente esse custo aos cofres do país. Imaginando um valor máximo de 4.438 €/ano/aluno (valores de 2001) e adicionando mil euros, uma licenciatura (aceitando 5 anos de estudos mais um ano extra) seria paga em sete anos e meio, com o resto da vida contribuitiva a ser lucro. No caso de bacharelatos, mestrados e doutoramentos, o curso universitário seria pago ainda mais depressa. Mesmo que se adicione um ano extra para compensar quem estuda e não contribui da mesma forma (porque não pode trabalhar, saiu do país ou abandonou os estudos antes de os concluir), parece óbvio que o estado beneficia financeiramente de oferecer a educação superior.

 

Obviamente que este retorno do investimento não leva em conta o valor acrescido que, esperamos, os indivíduos com graus superiores trarão à sociedade, seja do ponto de vista de eficiências, seja através de novos negócios que gerem riqueza. Estes benefícios deveriam ser então traduzidos em maiores receitas fiscais do lado do IRC (através do aumento de lucros) ou também do IRS (através de maior emprego). Não é linear, obviamente, mas seria esse o princípio.

 

Conclusões

E que concluir destas 3-4 horas de procura e escrita (e uns 10 minutos de leitura)? Bom, primeiro que nada que os estudantes pouco beneficiam de estudar para lá do bacharelato. As empresas portuguesas parecem não valorizar os dois anos extra de estudos através de salários mais elevados. As razões disso não conheço, apenas constato os valores. Por outro lado parece que ter mestrado e/ou doutoramento será benéfico, mesmo que por pouco. onde os graus mais elevados provavelmente se traduzirão em benefícios será no tecto salarial máximo que se pode atingir ao longo da carreira, o qual provavelmente aumentará com o nível de ensino atingido. Apesar disso, isso só será realidade em alguns casos.

 

Por outro lado, o Estado parece ter benefícios financeiros claros em oferecer os estudos. Dado que as propinas constituirão 20-25% dos custos por aluno, é possível argumentar que se o Estado tornasse o ensino completamente grátis não perderia muito. Dado que haverá certamente estudantes que decidem não seguir para o ensino superior devido ao custo das propinas (a que acrescem os de alojamento, alimentação, materiais de estudo, viagens, etc) e que alguns desistirão dos mesmos porque deixam de ter meios para os pagar, poderia muito bem suceder que um ensino 100% gratuito aumentasse a base de recrutamento de estudantes, o que só beneficiaria a qualidade.

 

Conclusão final? O país não valoriza os estudantes do superior como deveria mas beneficia imenso deles. Apesar das ineficiências, haverá certamente poucas áreas do estado onde haja tantas vantagens entre o serviço prestado e o benefício retirado. Ou, noutras palavras, o Ensino compensa. E muito.

10 comentários em “Benefícios do Ensino Superior em Portugal”

  1. “O país não valoriza os estudantes do superior como deveria mas beneficia imenso deles”

    Podia ter poupado o trabalho da pesquisa porque, até há quem pague e fique com uma Dívida para pagar toda a vida, para tirar um curso superior porque, este problema, não é só no nosso país. Globalmente, muitos já perceberam que o tempo da vantagem de ter um curso superior, já começa a ser coisa do passado.
    Nas suas contas até se esqueceu que, as Empresas, com tanto para escolher, com 50 anos passa a ser preterido em relação a um mais novo mas, não vou divagar.
    Provavelmente já nem se lembra da pergunta que lhe fiz há muito tempo.
    E se descobrisse que Tudo o que julga saber, não passasse de mentiras?

    No entretanto, sobre este assunto, deixo-lhe a informação, pelos que o podem convencer melhor do que eu 😉

    https://www.youtube.com/watch?v=fAp1ZGLx6R4
    Millionaires Explaining To You Why A College Degree Is Useless

    1. Olhe, começo pelo fim: eu julgo saber que você existe e que este comentário que escreveu é real. Que faço agora?

      Do resto, claro que nem vale a pena estudar. Foi precisamente isso que escrevi, não é verdade? Ou será que não? Seria mentira? Olhe que já me confundiu.

  2. Obrigado. Vou tirar o puto da faculdade e fazer-lhe a vontade de ser youtuber. Já agora, existem Públicas disso?

  3. Não ligue às criticas. O trabalho que fez aproxima-se da realidade. Mais, em certos casos, é de bradar aos céus! A dado passo, Portugal tornou-se um dos países mais corruptos da Europa, porque a sua Administração Pública está corrompida até ao tutano, a nível das estruturas dirigentes. O igualitarismo medíocre que a partir daí se impôs ao país, colocou profissionais com 12 a 13 anos de estudos superiores (onde gastaram uma pipa de massa!) a usufruírem vencimentos ao nível de um Bacharel. Repare-se que em certos cargos da Função pública, não são escolhidos os mais qualificados. Tudo porque este país se situa ao nível de um país de 5º mundo – pelo menos.
    Não ligue aos críticos do seu trabalho. Nada do que se passa em Portugal é imaginável num país nórdico europeu. Nem mesmo em Espanha.
    Saudações

    1. Isto não foi um “trabalho”. Foi uma carolice de 3 ou 4 horas.

      Não falo em Administração Pública. Pela minha experiência reduzida em Portugal o problema não é a Administração Pública (que pode ou não ser corrupta). O problema é toda uma classe de gestores e donos de empresas que desprezam a educação dos outros e tentam deles abusar. Ainda asism compensa estudar, memso que menos do que deveria ser realidade.

  4. A propósito deste seu post que refiro no meu blogue (http://imagenscomtexto.blogspot.pt/2017/10/financiar-os-estudos-superiores-sera.html) escrevi:

    «
    Uma confirmação empírica desta conclusão é o interesse manifestado pelas instituições financeiras americanas em financiar os estudos universitários dos alunos. Desta forma privatizam os rendimentos que o Estado retiraria dos salários dos licenciados cujo rendimento colectável é diminuído pela devolução (juros+amortização do empréstimo) que o licenciado tem que retirar ao seu salário bruto. E diminuem a mobilidade social.
    »

    1. É uma conclusão interessante em que não pensei quando escrevi o texto, mas de facto deveria ser óbvia. Se não fosse financeiramente interessante, os privados não estariam interessados no ensino. E as instituições financeiras não dariam empréstimos se não tivesse boas garantias de retorno do investimento, mesmo quando contabilizando aqueles que não podem pagar.

  5. Interessante este seu estudo relâmpago. Mas para sua informação, um doutorado em Portugal que vive de bolsas/subsídios não paga IRS e provavelmente não terá reforma pois irá trabalhar até ficar sem fusíveis. Educação universitária de qualidade existe e será sempre importante se considerarmos o mercado de trabalho mundial. Nas instituições de ensino de renome há equivalência entre as propinas e o ensino e a formação que se recebe é reconhecida mundialmente. Portugal é um caso curioso. Há universidades reconhecidas e há as outras onde nem os curricula dos docentes são acessíveis nem se consegue compreender como foi possível a sua contratação. Há lugares onde se recebe um ensino medíocre que não justifica o valor da propina, e outros lugares onde este valor deveria ser muito mais elevado. Há em Portugal alguns licenciados com rendimentos mensais superiores a doutorados e sem qualquer relação com o mérito ou trabalho realizado. Há doutorados a trabalhar com o salário mínimo e licenciados a preencher lugares onde se supostamente se exige doutoramento. E há funcionários nos organismos que gerem a educação que emitem opiniões contrárias ao que seria de esperar, ex: “o doutoramento é um grau de satisfação pessoal que não serve de nada em Portugal, o importante é conhecer as pessoas certas nos lugares certos”. Penso que esta máxima que ouvi há uns anos descreve o cenário Português.
    Na minha opinião o ensino superior é muito importante para melhorar o nível de vida das populações, todos devem ter a oportunidade de frequentar ao longo da vida a formação de nível superior. A gestão posterior desse potencial cabe a cada um e ao Estado. Um Estado que gere mal ou desperdiça os recursos, porque os formados no ensino superior emigram ou sobrevivem em sub-emprego, perde muito mais do que o valor que gastou na sua formação, perde o seu futuro e independência. Em Portugal, desde a adesão à Europa, o ensino superior e a investigação científica são financiados maioritáriamente por investimento europeu. Somos dependentes da Europa e continuaremos a ser se a mentalidade dos gestores deste país não mudar. Actualmente o ensino superior compensa os que emigram. Este tema dava umas quantas teses ;o).

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