Convidada: CARLA MAIA DE ALMEIDA


Pedro Correia,

 

Religações

  

Tenho um cinto de couro que comprei há anos, e tenciono usá-lo até que se gaste e morra de morte natural. Tenho um único cinto; tal como só tenho um par de óculos de sol, um relógio (que não uso), uma gabardine, um guarda-chuva, uma carteira, uma mochila, umas havaianas, um cartão de telemóvel e um carregador de bateria. Não vejo necessidade de acumular acessórios de difícil arrumação e utilidade duvidosa. A ideia de «ir às compras» aborrece-me. Se quiserem torturar-me, convidem-me a passear num centro comercial, em demanda de roupas ou sapatos, e peçam-me opinião sobre a matéria. Em menos de cinco minutos, simularei um ataque de hipoglicemia e sairei da terceira loja com ar desvairado.

 

No último inverno, a presilha soltou-se. Deixei a coisa andar, até que o cinto se começou a parecer com a orelha caída de um basset hound, e achei por bem impor limites à minha preguiça. Procurei um sapateiro e perguntei-lhe se o paciente tinha conserto. O homem, já velhote, disse que sim, que não era grave. Pegou em agulha e linha e pôs-se a coser a presilha, cheio de paciência e vagar.

 

Fazia frio. Começámos a falar sobre comida, para aquecer a alma. Ele contou-me do bife que dava para quatro pessoas, e que a mãe dele desfiava num arroz malandrinho, apaladado com salsa picada e cenoura às rodelas. Eu contei-lhe do rancho que se fazia em casa da minha avó materna, um rancho como nunca mais provei, com bofes e tudo. Então, ele levantou os olhos e perguntou:

— A menina é do norte?

— Sou. Como é que sabe? Não tenho sotaque.

— É que só lá é que se diz «bofes»…

— … e se tratam as senhoras por «menina».

 

Continuámos a conversa, agora estreitada por laços geográficos. Ao nosso lado, as pessoas entravam e saíam, na voracidade das manhãs urbanas, inquirindo os preços das palmilhas, duplicados de chaves, tacões e meias-solas. Aconcheguei-me no conforto de uma certa invisibilidade temporária.

 

Quando acabou o trabalho, entregou-me o cinto: «Está pronto.» Não aceitou dinheiro. Insisti, sem sucesso. Despedimo-nos com um sorriso, desejei-lhe um bom dia e agradeci-lhe outra vez.

 

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Saí para a rua e atirei-me ao frio como gato a bofe, corajosamente. Tenho a certeza de que o resto do dia me correu bem. Sentia-me animada, grata, ligada ao mundo por um encontro generoso. Registei tudo no meu caderninho preto, cujo título é: «Primeiro a bota, depois a meia» (um dia, também vos conto esta história).

 

O cinto ainda vai durar mais uns anos, aposto. A memória deste encontro durará muito mais. Não é uma opinião, é um sentimento.

 

 

Carla Maia de Almeida

(blogue O JARDIM ASSOMBRADO)

9 comentários em “Convidada: CARLA MAIA DE ALMEIDA”

  1. História engraçada com a qual me identifico muito. Tenho alguns pares de sapatos, mas calço invariavelmente 2 pares, uns no verão outros no inverno. Roupa, tenho um roupeiro cheio, que nostalgicamente me recorda os meus menos 15 quilos, e da qual nâo me desfaço pacificamente. Acrescento anualmente algumas peças, por necessidade ou presente.
    Uma tarde cheguei do trabalho e encontrei toda a minha roupa dobrada com cuidado em cima da cama. Perguntei ao marido reformado o que se passava e ele respondeu sorridente que era para eu escolher e mandar para a terra (dele) , porque estava a encher e a ganhar pó e eu passo a vida de calças e camisa…
    Adorei ler. Principalmente a parte das compras. O que não posso comprar online programo para uma hora tops num centro comercial. A minha mãe (82 anos ) nunca me pede para a levar às compras, diz que depois fica uma semana de cama.

  2. Uma bela história.
    Sabe bem à alma quando temos lições de pessoas que nos transmitem simplicidade e humildade.
    É tão verdade isto: ” … e se tratam as senhoras por «menina»”.

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