O "i" de ontem trazia uma pequena notícia que terá passado despercebida a muita gente. São meia dúzia de linhas que dizem muito sobre nós, portugueses, enquanto sociedade politicamente organizada, enquanto comunidade com estatuto de cidadania, enquanto cidadãos de uma polis que se preocupa com o bem comum e que vê nele a medida e o fim de todas as atitudes e comportamentos. Referia a notícia (págª 12) que "O presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP), José António Barros, acusou ontem os partidos políticos, da esquerda à direita, de plagiarem as propostas da instituição em matéria de apoio às pequenas e médias empresas (PME)". Li, reli, e fiquei com dúvidas sobre o sentido da queixa, ou melhor, da acusação feita pelo presidente da AEP. Os partidos, que têm por obrigação dar voz e enquadrar os anseios da comunidade, ou dos segmentos que representam, desta vez, por unanimidade, coisa rara entre nós a não ser quando se trata de condecorar um vulto saído da obscuridade, acharam por bem acolher as propostas da AEP. De Paulo Portas a Francisco Louçã, de Manuela Ferreira Leite a Jerónimo de Sousa, sem esquecer José Sócrates, não há líder que não fale nas PME. E, pelo que diz o senhor Barros, não só falam nelas como, ainda por cima, por um insondável desígnio da providência, acolheram as propostas dele e da AEP nos programas eleitorais. E que mais acrescenta o patrão da AEP? Que o acolhimento das suas propostas, aquilo que os partidos fizeram, tanto os de direita como os de esquerda, é plágio. O senhor Barros deve saber o que é plágio. O senhor Barros é um espelho da sociedade civil e empresarial deste país. Eu compreendo o senhor Barros. O senhor Barros ficou zangado porque os partidos não colocaram nos seus programas, a seguir às propostas que apresentam ao eleitorado, um parênteses com a menção "por sugestão do senhor Barros da AEP". E percebe-se que ficou ainda mais irado porque depois desse "plágio" ele e a AEP ficaram sem alvos. Contra quem poderão eles vociferar? Por vontade do senhor Barros este país seria uma imensa "subsidiolândia" destinada a sustentá-lo e aos seus associados. Mas o senhor Barros tem razão. Os partidos, em vez de acolherem as propostas do senhor Barros, deviam "libertar-se" dos senhores Barros. Ou então mandá-los para a Madeira. Corriam o risco de ficar decapitados, é certo, mas prestariam um grande serviço à Nação.
O senhor Barros
Sérgio de Almeida Correia,

Nunca pensei chegar a isto, mas agora estou até com pena dos partidos. Acolheram as propostas senhor-barristas, mas deviam tê-las ignorado: o dito cujo não merece. Não há medidas boas se elas forem plagiadas. O próprio senhor Barros é um plágio: ele é uma cópia fiel do pobre e mal agradecido e também não o mencionou.