Velhos? Só os novos!


Teresa Ribeiro,

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– Fazes quantos anos?

A aniversariante respondeu, com voz sumida, quase envergonhada: “27”. Família e amigos, percebendo o desconforto, começaram com as piadas  de circunstância: “Já só faltam 3!”. E riam, enquanto espetavam os dedos.

A cena aconteceu há dias, mas nada tem de invulgar. Oficialmente deixa-se de ser jovem aos 25 e a cultura instalada sobrevaloriza tanto a juventude, que ninguém quer deixar essa zona de conforto. Mas experimente alguém, que já passou os 45, mostrar-se incomodado com o envelhecimento. Caem-lhe logo em cima, com clichés como  “o que interessa é manter o espírito jovem”, ou “a vida começa aos 40”.

Acho normal que não se goste de perder as formas, nem o contorno das linhas do rosto e ainda mais natural reagir com desconforto ao aparecimento de dores de costas, insónias ocasionais, enfim, os achaques que nos lembram que nunca se escapa impune à passagem dos anos. Mas lamentar a perda da figura em que nos reconhecemos durante a vida inteira e a falta de vigor que o envelhecimento implica, agora é tabu.

Comentar algo do género é habilitarmo-nos a sessões espontâneas de aconselhamento psicológico, a diagnósticos sumários de depressão e a toda uma série de equívocos que o melhor mesmo é não arriscar, ou então alinhar no discurso que não por acaso agora faz escola e que é o do elogio do envelhecimento feito por “raparigas” de meia idade.

O que elas dizem? Invariavelmente que se sentem jovens, pois não se reconhecem na idade que têm. Ou seja, mudam de assunto: para contornarem a parte incómoda da questão, a da indesmentível degradação física e respectivo desconforto,  falam da discrepância entre o ritmo de envelhecimento do corpo, que é mais rápido, e o do espírito. E fazem-no como se essa não fosse a regra que se aplica a toda a gente. 

Manobras de diversão à parte,  a verdade é que a mesma sociedade que leva jovens a sentirem-se absurdamente velhos, impõe aos que já começam a sê-lo a lei da rolha. Como se o envelhecimento fosse uma falta demasiado grave, para ser discutida sem filtros, à frente dos outros.

 

11 comentários em “Velhos? Só os novos!”

  1. Sim, sim, clichés há muitos. Até me faz lembrar um post recente de Helena Sacadura Cabral. Eufemismos … mas a realidade é que não gosto de envelhecer e perder qualidades mesmo dizendo que me sinto jovem e etc. Mas, quer eu queira quer não, vou acabando aos poucos.

    1. A Helena Sacadura Cabral é uma daquelas raras pessoas sobre as quais podemos dizer que não têm idade. Quem a conhece, e eu tenho esse privilégio, reconhece-lhe uma energia e uma força interior absolutamente excepcionais. No seu caso tudo o que diz acerca de não se sentir com a idade que tem, é pura verdade. Frontal como é, jamais alinharia no discurso politicamente correcto que eu aqui estou a comentar. Neste post falo de verniz, não de autenticidade.

      1. “raras pessoas sobre as quais podemos dizer que não têm idade” Dizer, podemos. Pode-se dizer o quisermos, o problema é que podemos dizer coisas que não correspondem á realidade. Pensando bem não é problema, dizer o que nos vem á cabeça até é divertido.
        Mas de facto não existe ninguém que não tenha idade.
        “o que diz acerca de não se sentir com a idade que tem, é pura verdade” nesta (de não se sentir) já posso acreditar. Ela não sente mas os outros sentem. Não tenho o privilégio de a conhecer pessoalmente, só da televisão. É quanto basta para eu ter a certeza de que tem idade e até sinto, mais ou menos, quantos anos tem.

  2. Oficialmente deixa-se de ser jovem aos 25

    Como assim? Oficialmente deixa-se de ser jovem aos 40.

    Pelo menos na política é assim. As juventudes partidárias aceitam gente até aos 40.

    Ainda ontem estava a ouvir descrever Inés Arrimadas, a política catalã, como “jovem”. Mas ela não é nada jovem, já tem 36 anos (creio), já está bem longe da beleza da juventude.

    De resto, dizer que a juventude acaba aos 25 é um disparate. As mulheres atingem o pico da beleza aos 26. Se formos pela força física, tanto homens como mulheres estão no topo aos 19, ou seja, muitíssimo antes dos 25.

    1. Se entretanto não foi revisto, o limite para se ter um cartão jovem (ainda existe? penso que sim…), era os 25 anos. Para o fisco, a partir dos 25 anos e mesmo que ainda esteja dependente financeiramente dos pais, uma pessoa deixa de ser considerada como dependente. Até arranjar emprego fica no limbo fiscal. Não existe. Oficialmente a juventude acaba, portanto aos 25.

  3. Ora aí está. É isso mesmo. Mas por que carga de água alguém que se sente envelhecer não pode afirmá-lo. É facto que não entendo. Essa história da juventude do espírito irrita-me soberanamente, uma pessoa sem se lembrar do que comeu ao almoço, esquecida do nome das pessoas, dos livros, e sei lá de que mais e a dizer, ah, eu tenho um espírito jovem. Qual quê, o espírito também tem idade. Além disso, também me parece questão intrincada haver gente – que não é assim tão pouca – a dizer-me que não se sente com a idade que tem senão quando vê as fotos. Será que não têm espelho em casa?! É que eu, por mais que queira não consigo sentir-me jovem (e nem preciso do espelho). Digo mais, sinto-me sempre com a idade que tenho. Houve mesmo um ano em que me senti durante 365 dias com um ano a mais. Portanto, gozei dois anos da mesma idade. Dá vontade de dizer, ó pá, deixem-me ser velha, tal não está a moenga.

      1. E alguém sabe?! Cada um é velho pela primeira vez:). Diz uma colega com alguma graça, “é que há workshops de tudo, mas ninguém me explicou tintim por tintim o que acontece quando envelhecemos, eu não estava preparada para isto, pá”.

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