Uma obra de referência


Sérgio de Almeida Correia,

33570478.jpg

Já há algum tempo que gostaria de ter trazido este livro até vós. Publicado o ano passado, o seu autor é um historiador holandês que tem escrito muito, e bem, sobre a China. Em Macau chegou a vir um dia para dar a conhecer a sua obra, na Universidade de S. José, onde tive oportunidade de ouvi-lo de viva voz, mas à custa desse convite foi corrido o professor e politólogo francês que aí leccionava e que o havia convidado. De qualquer modo, pese embora esses circunstancialismos e oportunismos de conveniência tão pouco cristãos, vindos sempre de onde menos se esperaria em pleno século XXI e sobre os quais não rezará a história, o trabalho de Frank Dikötter é internacionalmente reconhecido.

Anteriormente escreveu Mao’s Great Famine, que em 2011 venceu o Samuel Johnson Prize for Non-fiction, e The Tragedy of Liberation: A History of the Chinese Revolution 1945-1957. Desta vez, com The Cultural Revolution – The People’s History 1962-1976, do qual desconheço se já existe tradução portuguesa, o autor debruça-se sobre um dos mais conturbados e ainda desconhecidos períodos da história recente da China.

Devo dizer que a excelência do seu trabalho reside, para lá das suas reconhecidas qualidades como investigador, no acesso que teve em primeira mão a documentos classificados do Partido Comunista Chinês, a relatórios policiais e a textos de discursos originais dos dirigentes chineses, antes das correcções. Considerado um livro magistral pelo New Statesman, mereceu páginas no The Guardian, de Julia Lovell e de Rana Mitter, mas também no New York Times, no South China Morning Post e em muitos outros jornais e revistas.

A capa que acima reproduzo é da primeira edição de 2017, da Bloomsbury, que é aquela que possuo, e recomendo vivamente este livro a todos os que se interessam por estas questões e não gostam de ficar pela rama do que lhes é impingido, em especial agora que nos aproximamos rapidamente do 19.º Congresso do Partido Comunista Chinês que, muitos nisso acreditam, irá introduzir mudanças significativas no rumo da liderança, consolidando ainda mais a posição de alguém que, como já foi escrito, tem hoje mais poder do que aquele que Mao alguma vez conseguiu.

3 comentários em “Uma obra de referência”

  1. Fico banzado como Mão chegou, e contínua, a ser idolatrado por não poucos idealistas e ativistas de Esquerda. O Grande Salto em Frente e outras loucuras de uma mente perturbada e perturbadora foi responsável pela morte de aproximadamente 30 milhões ou mais de chineses. Paradoxalmente tem-se menos pudor a falar de Mao do que de Hitler, sendo ambos de um calibre de malignidade semelhante.
    Como sugestão literária recomendo também a Grande Fome na Índia durante o tempo do Império Britânico responsável pela morte de dezenas de milhões de mortos. Estranhamente sobre este tema não existem grandes destaques literários

  2. Pois, do autor, traduzido cá no Hugo, só mesmo “a grande fome de mao”, que de qualquer forma, vou procurar, porque li há pouco tempo uma referência à estratégia burra que deu origem a esse bendito “sucesso” do grande ditador e fiquei corioso por explorar melhor o acontecimento milagroso.

  3. O livro foi publicado pela Bloomsbury em 2016. A capa reproduzida refere-se à edição paperback, que saiu em 2017.
    Seria interessante ter referido o título completo da primeira obra: Mao’s Great Famine: The History of China’s Most Devastating Catastrophe, 1958-62. Melhor se captaria de que se trata de uma trilogia, agora completa.
    Para já, só temos a tradução do da Fome, em português do Brasil, saída este ano. Já o vi à venda em Portugal (a capa é um exagero gráfico).
    Quanto ao recorrente remoque à USJ, cabe-me apenas dizer que Stilwell sempre me merecerá o máximo respeito.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *