Bola e mais bola e mais bola


Pedro Correia,

Quatro canais de televisão especializados em “notícias”. Os quatro, sem excepção, passam o serão deste domingo com conversa de café em estúdio a propósito de futebol. Mesmo com o futebol em férias, mesmo com o campeonato parado, mesmo sem a bola a rolar nos relvados.

A RTP, canal público, poderia fazer a diferença. Mas não: segue o mesmo alinhamento dos restantes. Como se não houvesse notícias a sério, no País e no mundo. Como se só lhes interessasse captar o público masculino, cliente-padrão deste bate-boca futebolístico, em horário nobre.

Com políticos a palrar de bola.

E politólogos a cacarejar de bola.

E tudólogos a tagarelar de bola.

Depois há quem se admire por estes canais cada vez mais monotemáticos estarem a perder audiência de mês para mês no cabo. Não sei porque se espantam.

12 comentários em “Bola e mais bola e mais bola”

  1. Boa noite Pedro Correia. Assino por baixo. Mas existem exemplos na rádio não muito diferentes. Na passada 6a feira, vinha de regresso de terras na Beira Alta, liguei a tsf para tentar ouvir notícias ás 2000h; ás 2020h desliguei, sorteio da liga, entrevistas, comentários, flash, etc. Do País e do mundo, durante pelo menos 20 minutos…..ZERO. António Cabral

    1. Agradeço-lhe essa achega, meu caro. Eu acompanho pouco a rádio, portanto tenho dificuldade em escrever sobre esse tema. Mas mais me ajuda ainda: vivemos num país totalmente futebolizado. Mesmo quando abundam notícias a sério e escasseiam notícias sobre futebol.
      É uma informação digna do terceiro mundo. Ou melhor: inferior à de muitos países do terceiro mundo.

  2. O poderoso analgésico volta a ser diligentemente servido. Atenuará, pode-se confiar no princípio activo, muito decisiva e oportunamente as dores de um incêndio e de um roubo de armas. E são males de dimensão inédita. Atenuará as dores disso e do resto. Mero cuidado paliativo, é certo, mas o doente, sabe-se de ciência certa, basta-se com isso. E é de crer, desenganemo-nos, que já nem tem esperança.

    É assim questão de posologia. Talvez seja bom ministrar dose elevada – o paciente pode manifestar sinais de habituação; questão de dependência, enfim – mas o histórico permite um prognóstico optimista. Nos sintomas, apenas.

    Que é, aqui chegados, o que interessa. E quanto basta.

    Costa

  3. Certíssimo Pedro.
    Acho que comentei há algum tempo que assim que começasse a pré época de futebol, assuntos mais sérios seriam suavemente diluídos no entusiasmo inicial e na sede sequente, até se limitarem a apontamentos de rodapé.
    Hoje cheguei de trabalhar às 18:00h. Liguei a TV. Desliguei a TV e terminei o Jo Nesbø. Não me arrependo da escolha .
    Boa noite e boa semana.

  4. O pior é que o serão de Domingo não é excepção. A importância, quanto a mim muito exagerada, dada ao futebol é irritante, não só porque o tempo dedicado ao tema não é utilizado para questões mais importantes ou mais aliciantes, como ainda porque, mesmo para quem goste de futebol, o que, confesso, não é o meu caso, estes intermináveis debates sobre “foras de jogo”, erros de árbitros, transferências e até bruxos são deveras aborrecidos, dão sono e fazem-nos louvar a existência do botão para desligar a TV. Digo desligar e não mudar de canal, porque, no que respeita a notícias, geralmente não há alternativa. Não será evidente que o que tem verdadeira importância na nossa vida e no nosso bem-estar, no futuro de Portugal e dos nossos filhos e netos, é a situação do País, da economia e da política? O futebol, como entretenimento (para quem gosta) devia ser remetido para plano secundário, tendo até em consideração que existem muitos canais especializados em desporto.

    1. Toca num ponto fundamental, mesmo não sendo apreciador de futebol. É que estes intermináveis programas de bate-papo usam apenas o futebol como pretexto e incidem em tudo menos no que interessa realmente no futebol, que são os jogadores, as tácticas, os golos.
      Transformaram-se em conversa de comadres e coscuvilhice em torno de ‘e-mails’, bruxos, apitos e sei lá mais o quê. Tudo regado com ódio clubístico, primário e visceral.
      Nada a ver com desporto. Mesmo nada.

  5. Finalmente, parece que há mais alguns a começar a acordar, no mínimo:
    Já Não parece NORMAL:
    “Quatro canais de televisão especializados em “notícias”
    só darem Futebol
    “Mesmo com o campeonato parado, mesmo sem a bola a rolar nos relvados”
    e
    “exemplos na rádio não muito diferentes”

    Para além destas, têm muitas outras peças, só falta começar a montar o “puzzle”.
    Se juntarem aquela da Lei que acabou de sair na Alemanha onde os sites que não seguem o “Programa”, passaram a não estar disponíveis.
    A dos países estarem,TODOS, cada vez mais dependentes dos “fabricantes do dinheiro” “do ar”, digamos que, também, nada disto é Normal, naturalmente que só nos preocupa a nossa Dívida, a aumentar diariamente e que, em percentagem do PIB vai nos 138,03% mas, pensem a nível Global e se não começarem a ter um vislumbre do “Puzzle” completo, precisam, mesmo, de tomar muitos “cafezinhos”.

    “… in a world of perpetual war, omnipresent government surveillance, and public manipulation. The superstate and its residents are dictated to by a political regime…”
    George Orwell

  6. Cientistas da bola atacam de alforges carregados com pólvora seca em todos os cantos e às mesmas horas. Não haverá ninguém para regular este cartel de intoxicação coletiva?? Finceramente! Com f porque a aplicação apropriada dos f…. .. fica oculta em obediência à pauta das boas maneiras

    1. Alguns – os tudólogos – aparecem a comentar tudo. Do estado do tempo à macroeconomia, da política à bola.
      Passam o tempo estacionados em estúdios de televisão. E vivem disso: da palração interminável, nem eles sabem bem sobre o quê. Também não importa, pois ninguém lhes liga pevide.

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