Nas Urgências


Marta Caires,

 

O sol de fim de tarde aquece a rua e, quando a atravesso, reparo em três mendigos a dormir debaixo de uma árvore do fogo. Ao lado dorme um cão preto e branco, na caixa Multibanco, uma mulher de meia idade levanta dinheiro. É domingo e, aos domingos, ninguém tem pressa. Só eu que há dez minutos galgo pela calçada, parece que a praça de táxis está mais longe do que nos outros dias. É só a minha pressa. A minha tia Alice tem 78 anos e sentiu uma dor no peito.

A dor que a esmagou é apenas a de um coração destroçado pela perda, moído pela idade, curvado na tristeza. Dizem que os velhos não têm medo da morte, mas não é verdade. Têm tanto medo como os novos, as crianças, os jovens, os adultos, todos os que encontro à porta das Urgências. Os bombeiros, os enfermeiros, os médicos, o povo a quem se rebaptizou de utentes. A ambulância descarrega um velhinho acamado e de um táxi sai um casal de estrangeiros. A mulher vem trémula, tem um joelho esfolado.

Grisalha, as mãos a tremer, a minha tia parece uma sombra de tudo o que me lembro. Antes de estar aqui, nesta porta onde as ambulâncias deixam um rasto de fumo nas paredes, foi nova e forte. Quando tinha cinco anos e desmaiei no chão da sala de jantar foi ela quem me levantou. Agora, dá-me o braço, trocámos de lugar. Sou eu quem fala, quem explica e trata dos papéis, quem diz onde se deve sentar e esperar. Se há coisa que sabemos é que vamos esperar e esperar, vamos ver os números a mudar nos relógios digitais.

 Uma, duas, três horas… Faz análises, vai ao raio-x e passa no electrocardiograma. Seguimos uma via-sacra, sorrimos aos companheiros de infortúnio. O casal de estrangeiros está sentado mesmo ao lado, uma senhora de amarelo queixa-se de uma dor no ouvido e a mulher do Estreito, com o cabelo apanhado num carrapito, ciranda pelo corredor. Mete conversa com quem lhe dá troco enquanto o marido, um velhinho entubado, não recebe alta. Há novos, há velhos, há trintões em macas e, por detrás das cortinas, um viveiro de médicos e enfermeiros.

Num lugar reservado, um homem com algemas aguarda a vez e, no corredor, um bêbedo sem dentes esbraceja, fala em inglês e diz a quem quiser ouvir que já não está 2009. Não, não, já entrou em 2010 e não quer esperar por atendimento em 2009. Atira a pulseira de identificação, bate com a cabeça na parede e, no intervalo, diz a uma enfermeira anafada para perder 20 quilos. O médico chama pela minha tia Alice, ouve-se um estrondo. O bêbedo acabou de cair na casa de banho. O coração da minha tia Alice? Está bom, a dor é de tristeza.

8 comentários em “Nas Urgências”

  1. Marta, cada palavra para comentar este excelente texto será a mais, tira-lhe a verdade e a magia…Excelente mesmo. :))))

  2. Aparece poucas vezes, mas cada vez que o faz, deixa-nos com vontade de a voltar a ler depressa. Dizr que se trata de um belíssimo texto é quase redundante, porque daí tudo o que vem tem marca de qualidade. Certificada…

  3. Este belo texto tem a sua imagem de marca (deverei dizer antes, “imagem de Marta”?) e é tão bom quanto o dos gatos de que gostei um pouquinho mais, porque também gosto muito e entendo os gatos. Parabéns e continue a deliciar-nos com estas suas pérolas.

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