É tempo de exames e enquanto dura esta ansiedade evita-se a próxima. Aos 17 anos, é legítimo ter dúvidas e não saber o que se quer fazer para o resto da vida. Aliás, o conceito do resto da vida é hoje tão móvel como tudo o resto.
Adolescente chegou a casa e comunicou que o exame nacional de português – para alunos do 12º ano – foi bastante mais fácil do que pensara. “Saiu Alberto Caeiro e Vergílio Ferreira”, disse, não estando particularmente entusiasmado, nem tão-pouco aliviado. Confessou que deixou por fazer duas perguntas. Não, nada de interpretação, apenas o terror da gramática cuja terminologia, confesso, também me assombra. A evolução da língua, pois e tal, mas a nova terminologia é um verdadeiro chuto na tola e, por muito que se possa dizer que a lógica ajuda a chegar lá, não tenho como. Sou de outra geração e não sei o que é um complemento oblíquo. O meu filho talvez saiba. Ou não.
Hoje é dia do exame nacional de História cuja matéria é vasta e, por isso, os livros estiveram espalhados na mesa da sala e houve adolescentes que entraram e sairam, fizeram perguntas, desesperaram.
A época de exames é sempre assim, dirão. O stress acumula-se, há uma cambada de nervos para controlar e, a seguir, a ânsia da espera pelos resultados. Lá para meados de Julho chegam as notas e depois a decisão de ir ou não à segunda época.
Tudo isto foi falado e discutido ao longo do ano escolar e o adolescente cá da casa sabe bem o que o espera. O que me incomoda verdadeiramente é ver o nível de cansaço a que chegou e como a perspectiva de ir para a universidade não parece sequer ser aliciante. Diz que está ocupado com os exames, que não pensa nisso. Eu não sei se acredito nesta versão. Posso apenas dizer que os outros adolescentes, aqueles que por aqui andam e não são meus filhos (logo falam comigo mais facilmente, é uma das leis da vida quando se vive a maternidade e a adolescência), mostram-se apreensivos e, na sua maioria, não sabem que curso escolher. Um diz-me: “Vou para onde a média for mais baixa”. Outro adiante: “O meu pai diz que Direito é que é e eu, como não sei, vou para Direito”. E outro, mais felizardo: “Eu posso ir para onde quiser, tenho uma média alta, mas ainda não decidi”.
Não saber o que se quer fazer com o resto da vida aos 17 anos parece-me perfeitamente natural, da mesma forma que advogo que frequentar um curso superior não significa obrigatoriamente seguir a via profissional que deriva do curso.
Do que entendo dos miúdos com quem vou falando, a questão mais pertinente é conseguir ter um emprego. Fazer a universidade é apenas mais uma inevitabilidade, mas o que importa é saber como irão ter emprego, que ordenado conseguirão ter, como farão a vida de adulto.
Esta é a geração que nasceu dentro da crise, a geração que nasceu com a notícia regular de atentados terroristas. Toda a pressão está em cima deles e não podem respirar um pouco e viver as férias de verão como em outros tempos.

Tinha na escola um amigo que respondeu no espaço ,de uma ficha, destinado a escrever a profissão do pai : Rico (penso que nesse altura o pai desse meu amigo era talhante).
Tinha outro amigo que numa noite de verão eu e ele entrámos à socapa no camião TIR do pai. Lembro-me que pela estrada abandonada à nossa frente eramos guiados por certas divagações filosóficas : perguntei-lhe então a ele , agarrado ao volante :
Que profissão queres ter quando fores grande? E ele olhando por cima das estrelas respondeu – não quero ser profissional. Quero ser amador!!
Passado mais de 20 anos penso que esse meu amigo cumpriu o seu sonho. Vai no terceiro casamento
“Será que existem verões como os da minha adolescência?” Não, nada se repete. O mundo é feito de mudança.
Os idosos (não é o seu caso) fazem muito essa pergunta ou análogas. A minha avó repetia-a muito. É das poucas coisas (essa pergunta) que não mudou desde a minha infância. Mas um dia também muda.
Como a compreendo… dos nossos dois filhos, um trabalha em Londres há três anos e tal, no Imperial College,gestor de projectos, numa área diferente da formação que tem ( ciência política), mas já era o trabalho cá e ele bem porfiou para sair daqui. A mais nova, da mesma área, com licenciatura e mestrado concluídos com média de 18, prepara a saída, depois de uns quantos biscates inconsequentes. É verdadeiramente o drama de quem não vê a possibilidade de uma situação em que pudesse ter um ou mais empregos, estáveis ou que, pelo menos, permitissem rotatividade e procura de novas oportunidades ( no pun intended…)
Na minha geração a perspectiva, em caso de “chumbo” no ensino superior ou ingresso no mercado de trabalho antes do dito, era a guerra do Ultramar. Era, igualmente, dramático, pensei muito, nesse tempo, no que faria quando chegasse a minha vez, ainda hoje vou com frequência “revisitar” amigos com o nome no monumento ali ao Dafundo… ( se bem que o mercado de trabalho, nessa época, tinha mais flexibilidade, menos gente, mais oferta ). A malta nova hoje em dia, com tanta informação e aparente facilidade, tem um muro bem alto pela frente…