Apontar o dedo mas em direcção ao futuro


joaomsandre,

Lamento: não sou um especialista em florestas, ordenamento do território, incêndios, limpeza de matas, logísticas nem nada do género. Sou um “tudólogo” não encartado que merece o epíteto de generalista que sabe nada sobre tudo. Sou um especialista que sabe tudo sobre nada. Não sei a quem apontar o dedo a não ser aos mesmos de sempre: ao ministério, às autarquias, aos proprietários, à Natureza, etc.

 

Andei no passado pelos lados do Pedrógão Grande mas não conheço a zona. Sou de Leiria mas Pedrógão Grande fica mais perto de Coimbra que de Leiria. Estudei em Coimbra mas para Natureza na zona fui à Pampilhosa da Serra mais frequentemente (e ainda assim pouco).

 

Em resumo: sei pouco sobre o assunto. Gostaria de ser como os que sabem muito. Como os jornalistas, comentadores, ministros e secretários de estado, autarcas e responsáveis civis. Ou aspirantes a tal.

 

Sei apenas isto: 1) que morreram pessoas que não necessitavam de morrer; 2) que se poderia fazer mais (pode-se sempre fazer mais) para evitar as condições existentes e que há especialistas (daqueles a sério) que há décadas explicam o quê (a vários governos de todas as cores políticas); 3) que a Natureza é por vezes indomável e que por muito que nos preparemos há sempre o risco de não ser suficiente.

 

Neste momento não me interessa saber quem foi culpado. Apontar o dedo não trará ninguém à vida. Gostaria apenas que as lições fossem aprendidas e que as medidas fossem tomadas, não apenas em Pedrógão Grande mas no resto do país. E se não forem tomadas, que alguém possa ser acusado de homicídio por negligência (ou outro crime no caso de destruição de propriedade) quando a situação se repetir.

 

O passado não se muda com um apontar de dedo. Já o futuro poderá ser mudado com os incentivos correctos. Só é preciso acabar com as politiquices. E os “especialistas” de trazer por casa. Ou de falar na televisão.

0 comentários em “Apontar o dedo mas em direcção ao futuro”

  1. É “politiquice” perguntar porque é que a protecção civil colapsou, com os “executivos” do governo á nora desde sábado, limitando-se a titubear numeros de mortos, a listarem homens, carros, aviões e se calhar drones no terreno e pouco mais?

    E do gabinete do PM, quase três dias depois!!!!, emana um despacho(!?!?!?!) onde se “pediu esclarecimento urgente sobre o funcionamento da rede de SIRESP no incêndio de Pedrógão Grande e sobre os motivos da ausência de encerramento da estrada nacional 236-I”
    – com c’um car*****(‘pardon my french’), como é que um PM anda a tratar estas questões á patada de despachos ‘leaked’ á ‘prensa em vez de estar rouco por ter já vociferado junto do “Instituto Português do Mar e da Atmosfera, I.P., a Autoridade Nacional de Proteção Civil e a Guarda Nacional Republicana” para reportarem sobre esta questão e assim ele ou o seu MAI estarem já a cumprir com os seus deveres de “reporting” e “accountability”?

    1. Não é tudo politiquice, mas muito do que tenho lido é de facto politiquice (e o post mais recente do Pedro Correia aponta alguma).

      O que sei é que daqui a pouco começará o aproveitamento político da coisa. As exigências de demissões não servem para nada, por exemplo. Isso fará alguma coisa para o futuro? Não. Apenas ajuda a que quem as peça fique bem no (tele)jornal.

      Não quer isto dizer que não sejam necessárias, mas sempre associadas a alguma coisa de tangível. Se não o forem, serão politiquices. De uma oposição (política ou não) que recebe o que quer (a demissão) e de um governo que acalma os ânimos e parece fazer alguma coisa (ao demitir ou aceitar a demissão). E depois voltam os fogos.

      1. Não sei o que vão dizer PSD e CDS quando chegar a hora do indispensável escrutínio e debate politico. Até agora, faço vénia à contenção e responsabilidade com que tem lidado e falado do assunto, não lançando as bojardas demagógicas q, por exemplo, receberam á farta quando eram eles governo – veja, por exemplo, o “spin” contorcionista das gentes do BE agora e e.g. em 2015.

        Espero que, de ambos os lados, e em primeiro lugar, nos reportem o que aconteceu, e porquê. Que não o façam com ficções das “trovoadas secas” que caucionem difusos “qui ci scappa il morto” – isto sim, uma “politiquice” ouvida demasiadas vezes por pessoas responsáveis no Sábado e Domingo.
        Espero que não tratem o que aconteceu – um colapso dos procedimentos de Emergência da Protecção Civil que deixou pessoas desamparadas e entregues á sua sorte que durou mais de 24 horas… – como conjuntural, quando é estrutural – A protecção civil pode até ter a mais bem esgalhada estratégia para lidar com os incêndios, mas se falha na utilização pratica dos meios para rapidamente (re)conhecer o território e protecção ás pessoas, serve para pouco – aqui tem politica, porque a MAI tem de prestar contas sobre o que disse ainda em Março “(…)investindo-se no planeamento de emergência, na minimização de riscos e nos sistemas de alerta e de aviso às populações” porque tudo isto simplesmente não existiu!! “…mas se calhar é politiquice…

  2. «Neste momento não me interessa saber quem foi culpado. Apontar o dedo não trará ninguém à vida. (…) E se não forem tomadas, que alguém possa ser acusado de homicídio por negligência (ou outro crime no caso de destruição de propriedade) quando a situação se repetir.»

    Desta vez, que morreram pessoas, no pasa nada. Mas para a próxima não falha.

    Uau. Que desresponsabilização à cara podre.

    1. OK, mais concreto.

      Se a ministra se demitir, que ganhamos nós? A satisfação da demissão? Talvez, mas nada mais. Que ganham os políticos? Os da oposição a vitória de uma demissão no governo. O governo a vitória de parecer estar a fazer alguma coisa. E depois continuam tudo a arder.

      A demissão estaria muito bem se um/a sucessor/a tomasse medidas. Mas não toma, nunca tomaram. Se a demissão levasse à perda de benefícios (por exemplo, de pensão) ainda veríamos algum efeito prático, mas assim, demissão por demissão, nada acontece.

      Por isso digo que quero ver acções antes de ver reacções. Não me interessa se alguém édemitido ou não. Não ime interessa quem fez asneira, interessa-me antes saber qual (ou quais) asneiras foram feitas e o que fazer para elas serem evitadas. Foi apenas incompetência? Não. Se fosse já o problema teria sido resolvido, quanto mais não seja por ter gente competente por puro acaso a tratar do assunto. E se não é por incompetência, então não serve de nada apontar culpados.

      O problema é estrutural. Enquanto não for resolvido nada melhorará. Não importa quantos culpados encontremos ou quantas demissões vejamos.

      1. Pedrógão foi im problema conjuntural. Portugal é um problema estrutural. Se me permite….

  3. Bom dia João André,

    Deixe-me que lhe diga que concordo na integra com o que aqui escreve. Foi o que mais ou menos tentei expressar (neste meu post http://embuscadafelicidade.blogs.sapo.pt/uma-vaga-de-calor-outra-de-fogo-200308) , ainda que de forma mais atabalhoada e assumidamente envolta na minha revolta por, mais uma vez, ver o meu país a arder. Mas desta vez com vidas inocentes.
    Se encontrarmos culpados, que podem ou não haver, que sejam devidamente punidos. Mas o essencial é como diz, olhar para a frente e encontrar forma de melhorar o que tem de ser melhorado e encontrar soluções.
    Em vez de nos perdermos nos dedos que rodam em todas as direções assumir para nós a responsabilidade de fazer e exigir mais de quem é pago com o nosso dinheiro para governar, gerir e decidir.
    Obrigada

    1. É verdade. Temos sempre o hábito de nos queixarmos de quem tem responsabilidades hoje mas nunca perguntamos uma semana mais tarde se existem novas medidas e se estas estão a ser obedecidas. Enfim

  4. Parece-me uma opinião inóqua que pretende higienizar o tema, mais do que o esmiuçar… A questão “as demissões não trazem os mortos de volta” ou parecido, digo que as demissões são uma forma natural de, em politica ou nas áreas técnicas se assumir que se falhou. Que se podia ter feito diferente e melhor, mas que não foi possível por incapacidade, por incompetência, por inadaptação ao lugar. Assumir o erro é uma forma responsável de se passar a mensagem que se quer fazer melhor!

    Naturalmente o Governo PS não vai assumir o erro, porque dentro da lógica partidária de esquerda, nunca há culpados à esquerda. Protegem-se os camaradas mais do que as pessoas, porque os camaradas de partido ajudam os líderes do partido, a ganhar votos na sua região. O resto? 64 mortos? Peanuts: foi o tempo seco, a falta de humidade, os ventos fortes, a trovoada seca, etc. Não se podia ter feito nada para evitar o corte de estrada da “morte” pois aquilo foi tudo muito repentino…

    E as pessoas acreditam nisto porque sempre se espera que o Governo não minta. Mas mente e muito, para proteger os seus. Para proteger os camaradas que sem qualquer experiência ou conhecimentos, são destacados para a secretaria de Estado da AI, como o caso do bragançano que ocupa o lugar e que de relevante o que fez foi votar Costa nas primárias do PS. De incêndios percebe tanto como eu de lagares de azeite… Mas é neste momento o responsável do sector e os amigos, na lógica socialista, laica e republicana, nunca podem acusados de incompetência… (se chamarem ciganos uns aos outros, isso é diferente)…

    Penso que o texto podia ter referido que este Governo que tem apoiantes que zurziram forte e feio no anterior Governo por não dar os meios suficientes aos bombeiros e serviços de protecção civil, é o mesmo que cortou 9% do apoio financeiro a esta área do combate aos incêndios, tomando como referência a média de 4 anos do Governo anterior. Podia também ter tentado perceber porque razão o Bloco há 2 anos descascou forte e feio no Governo do PSD+CDS, quando dos incêndios florestais em Agosto de 2015, e agora, com 63 mortos civis, se limita cândidamente a pedir que chova! Porquê a diferença de critério? Eu gostaria de saber…

    1. Porquê a diferença de critério? Eu gostaria de saber…

      Pergunte directamente ao grupo parlamentar do BE. Tem esse direito. Digo mais, tem esse dever. Até me pode dizer que eles não respondem e poderá ter razão, mas se não perguntar não sabe.

      De resto eu não higienizo nada e os defeitos que aponta são comuns a todos os lados do espectro político. Aquilo que também tem sido comum a todos é a falta de medidas após este tipo de situações. Pode ser que o choque de agora obrigue quem está no governo a tomar medidas e fiscalizá-las e quem está na oposição a responsabilizar o governo (e neste caso digo-o para todos os partidos, dado que no futuro o governo acabará por mudar de cor).

  5. Cada vez fico mais maluco;quando olho para a tv deliro com tanta estupidez Porque? ouço diser que se deve combater o eucalipto.eu não tenho eucaliptos so vejo na tv pinheiros a arder vejo falar em criar gabinetes de milhões para programar os incendios vejo pessoas a querer tomar conta do que pertence ao medio-pequeno dizem para bem da floresta etc etc.mas tambem dizem que não se pode acabar com os fogos florestais: todos sabem porque Mas os burros estão com fome e vão continuar com fome porque ao plantar carvalhos e castanheiros em zonas de patoreio, as ovelhas e cabras comem tudo como sabem aqueles que não sabem o que e um gabinete nimguem sabera e para onde vão os milhões, de-em ums miseros euros para ajudar a limpar os matos e a educar a floresta se não souberem eu enssino de graça.e os fogos desaparecem com berbas irrisorias mas não me tapem a boca,

  6. Neste momento o importante é fazer o balanço e mudar o que se puder mudar, ajudar todos os que estão a passar pela dor e sofrimento das perdas , respeitar e não fazer uso da tragédia com fins que não sejam construtivos………… infelizmente não acredito , que assim vai ser , espero no entanto que o circo que se está montado seja o maximo possivel ignorado e se comece a trabalhar de imediato na reconstrução e ajuda das populações e finalmente seja apenas permitido o plantio , das arvores consuante a especificidade da área de cada zona deste pequeno mas grande PORTUGAL. UM GRANDE BEM HAJA A TODAS AS FORÇAS ENVOLVIDAS , INDEPENDENTEMENTE ”CIVIS” OU PROFISSIONAIS…………..

    1. Não faço sentido se é uma questão de quais árvores são plantadas. Devo ser o único português que não leu os 20 relatórios existentes com as recomendações de medidas para a floresta. Sei é que é necessário ter medidas suficientes e obrigar a que sejam seguidas.

  7. Em Portugal o que não falta são os vencedores de Euromilhões à 2ª feira.
    E explicadores do que aconteceu e supostamente devia ter sido feito também abundam.

    1. Em Portugal o que não falta são os vencedores de Euromilhões à 2ª feira

      Adoro esta frase, posso roubá-la para uso pessoal? No passado sempre usei “no fim da batalha todos são generais”, mas a sua é muito mais contemporânea. E absolutamente verdadeira.

  8. olá

    (taMbem sou isso : tudo sobre nada, nada sobre tudo )

    Claro que existe soluçao : continuamos a ver casas e aldeias no meio do mato, portanto sem nenhuma margem limpa de proteçao. Este é o ponto essencial : as vidas das pessoas e a sua casa.

    Nas televisoes viram exemplos de moradores que tivessem abatido as diversas arvores que rodeiam as casas ?!!! Pois, o problema da propriedade privada.,.. que tambem queima e mata a propriedade do vizinho . Viram o estado faze-lo agora, agora que podia decretar o estado de emergencia, ?
    Em londres ardeu um predio caixa de fosforos devido aos revestimentos exteriores. Aqui sobretudo devido ao tunel constituido pelas arvores encostadas aos rails na estrada, outra caixa de forforos. Nao sei se existe lei que permita a vegetaçao e a cultura até a éstrada, mas espero que haja consequencia, como quanto ao predio em londres.

    No mais, mais do mesmo, continuará a haver fogos, sempre, a unica certeza é que para o ano e seguinte a area que agora ardeu nao arderá

    nas

    1. Isso do túnel faz-me lembrar as medidas que foram tomadas na reconstrução da baixa de Lisboa após o terramoto de 1755, quando as casas tiveram obrigatoriamente de ser construídas de forma a criar uma barreira para o fogo não alastrar de casa para casa. O mesmo deveria ser feito aqui. E, fundamental, deveria haver fiscalização disso.

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