“Um mar de ruínas”


Pedro Correia,

cover-r4x3w1000-589080e3dfcf2-Hollande%20et%20Hamo

 François Hollande e Benoit Hamon

 

 

«Nada grandioso será alguma vez conseguido sem grandes homens.»

Charles de Gaulle

 

Lembram-se de François Hollande, o indivíduo que segundo alguns arautos lusos proclamavam ruidosamente há cinco anos, iria  revitalizar a débil esquerda europeia?

Hollande, bem avisado, decidiu não se recandidatar ao Eliseu: à beira do fim do mandato inaugurado em 2012, a sua taxa de popularidade entre os franceses era de longe a mais baixa da V República, fundada em 1958 pelo general De Gaulle. O delfinato possível do chefe do Estado cessante foi assegurado pelo medíocre Benoit Hamon, sufragado pelas “primárias” – o último grito da moda Outono-Inverno da saison política parisiense – mas arrasado nas urnas quando deixou de se jogar a feijões e houve eleições a sério: recolheu apenas 6,3% dos votos, ficando na quinta posição entre os candidados à corrida presidencial.

A primeira volta das legislativas francesas acaba de traçar um retrato fidedigno do Partido Socialista Francês, avaliando-se assim o verdadeiro legado político de Hollande: entre 7% e 10%. “Um mar de ruínas”, na justa definição do Libération. Com o Presidente Emmanuel Macron a vencer, como se esperava, por intermédio do seu novo partido pós-ideológico, República em Marcha – criado só há 14 meses. Numa prova de que em democracia tudo pode transformar-se.

Há umas semanas, o ex-primeiro-ministro Manuel Valls causou imenso escândalo ao anunciar que o PSF estava morto. Tinha razão, como esta catástrofe eleitoral confirma. Resta aos socialistas franceses encerrar para balanço, imitando o que François Mitterrand fez em 1969, na ressaca do Maio de 68, ao mandar sepultar a defunta SFIO [Secção Francesa da Internacional Operária] num congresso do qual emergiu o Partido Socialista, agora falecido aos 48 anos. Paix à son âme.

0 comentários em ““Um mar de ruínas””

  1. E Tsipras. E o suposto murro na mesa de Chávez e Maduro, contra a hegemonia do pensamento americano. E o PSOE. Mas não acredito que fiquemos melhor. Muitos dos direitos conquistados pelos que menos têm foram afirmados pela pressão das forças de Esquerda ( Bismarck dificilmente teria dado o que deu aos alemães sem o ruido dos anos de 1848). Aliás basta ver como o mundo mudou desde a queda da URSS. Não defendendo o que por lá se passava não me parece que o mundo tenha ficado melhor. Quanto muito ficou mais despido. Mais vazio de soluções. Um navegar de conserva.

    1. Estamos melhor do que estávamos há meio século.

      O espectro da guerra, e da miséria extrema, e das epidemias diminuiu consideravelmente em vastas zonas do mundo. Basta pensar na Índia, na China ou no Brasil.

      O rendimento disponível aumentou. Todos os anos dezenas de milhões de pessoas ascendem da pobreza à classe média. A um ritmo sempre acelerado. O que aliás se reflecte nos mais diversos indicadores, começando pela esperança de vida à nascença.

      Merece também ser sublinhado que nunca como hoje os direitos, liberdade e garantias foram tão respeitados num número sempre crescente de países.
      Vivemos aliás num tempo em que todos os dias são descobertos ou inventados “novos direitos” – do automobilista, do peão, do contribuinte, do consumidor, das minorias sexuais, o direito ao silêncio, o direito ao esquecimento na internet”, vários direitos dos animais, etc, etc.
      É um excelente sinal. Isto significa que os outros já estão a ser aplicados, tornando-se indiscutíveis.

      1. Pedro, desculpe lá! Mas quem diabos sabe o que ocorre na parte da China ou da Índia que não passa nos telejornais? Há bem pouco tempo tivemos o Ebola, uma virose hemorrágica conhecida há mais de 50 anos. Adivinha porque só recentemente se investigou a sério está patologia? Eu digo. Porque esteve prestes a atingir o “Ocidente” como nunca o tinha feito. E depois essa dos rendimentos! Nunca a sua distribuição esteve tão desigual. E depois essa da mortalidade infantil! Pudor, meu caro. Veja o Iêmen, e outros países de África. Para mim os números não valem nada quando ainda se morre de inanição. E depois essa dos direitos. Veja como as pessoas rapidamente deles abdicam em nome do securitismo, sobretudo o mais basilar deles todos. A liberdade. Os direitos hoje são tantos que ja ninguém os distingue.

        1. Iémene, país africano?
          Assim, convenhamos, é difícil debater seja o que for.
          Venho falar da França e já andam aqui leitores a arrastar a discussão para “Iémene, país africano”…

          1. Uau, desarmou-me!! Fiquei sem argumentos. Mas veja, disse Iémen e outros países de África. Não disse Iémen é em África…e agora Caminha. Caminha e não caminha, ou mesmo caminha, para que não haja confusões

        1. Ai sim? E quando é que houve menos crianças em risco de pobreza em Portugal? Em 1717? Em 1817? Em 1917?
          Quando havia crianças analfabetas, a trabalhar na agricultura de sustento, de sol a sol, subnutridas?
          Tenha paciência, meu caro: esse discurso neo-realista da pobreza e da miséria e do horror e da morte ditada pelo “neoliberalismo” actual não resiste a dois minutos de confrontação com os factos.

          1. Meu caro, de certeza que na Somália se morre menos hoje que há 100 anos. Parabéns ao governo etíope. É precisamente por se seguir essa lógica ” do hoje estamos melhor” que se continua a legitimar todo o tipo de abusos e injustiças que deviam envergonhar os defensores dos tais Direitos que falava. Lembra-me, o Pedro, um latifundiário de Ficalho, que falava assim a um miserável romeno : “pago-te 3€/hora e um prato de sopa. Pensa bem, é melhor que nada” Que sagacidade. E como dormia e comia esse filantropista das azeitonas

          2. para se falar em mudanças para melhor ou pior…não falem de países… falem de mundo como aldeia global…..estamos tão mal quando alguém mesmo sendo no cú de judas está mal…….e a verdade é que temos solução….mas indiferença plo outro é de tal forma que se não houver uma revolução educacional….nem quem está bem assim ficará por muito tempo…e quem está mal….irá ficar de rastos se lhe sobrar o rasto!…tristeza!!!!!!!!!!!!

  2. Um partido pós ideológico é uma contradição.

    Afirmar que se conhece a solução e que ela não é ideológica, é uma posição ideológica.

    1. Isso é uma treta. Vivemos num mundo cada vez mais pós-ideológico, como aliás o Brexit e as eleições francesas bem demonstraram. Quanto maior “robustez ideológica” tiver um partido, mais afugenta os eleitores e mais penalizado é nas urnas. Veja o que acaba de suceder com Mélanchon e Marine Le Pen, por exemplo.
      Qual é a ideologia de um Putin? E de um Trump? E de um Erdogan?
      Que ideologias se confrontam na vida política brasileira? Alguém consegue descortinar alguma?
      Qual é a ideologia da classe dirigente chinesa, que gere um dos maiores impérios financeiros do planeta? Abraça o plutocraxismo (misto de plutocracia e marxismo)? Ou será antes comunocapitalista?

      1. Meu caro, a ideologia de hoje é igual à de ontem. Servem-se dela para ganhar eleições. E a ideologia existe, hoje. Sendo concorrente, complementar e antagonica da de ontem. Não tendo ainda nome não significa que não se pense, não se tenham projectos políticos e sociais. Putin é diferente de Merkel. Trump, de Trudeau….essa da pós verdade é treta. Apenas é um convite ao alheamento do eleitor de modo a fazê -lo desinteressar-se do que importa. Da politica e dos que em nome do governo, se governam

        1. Meu caro, francamente: acha que o Putin precisa de ter alguma “ideologia” para ganhar eleições?
          Precisa é de manter a maquinaria repressiva bem oleada, nada mais.

          Quanto ao Justin Trudeau: aí está precisamente um protótipo de político pós-ideológico. Você vislumbra alguma ideologia ali?

          1. Existe ideologia sempre que existam ideias. E existem ideias para lá daquelas que boiam no aquário dos partidos.

          2. Há uma diferença clara entre ideias e ideologia. Sobretudo encarando esta como um corpo fechado, rígido e dogmático que pretende abarcar toda a realidade e ter respostas preconcebidas às mais diversas questões.
            Os sistemas ideológicos totalizantes terminaram. E ainda bem.

          3. A incoerência ideologica permanente constitui pela constante inconstância uma forma ideológica. Quanto a Trudeau vejo-o como um um liberal, no sentido clássico e radical do que significa liberalismo político (não confundir com liberalismo económico ). E o Liberalismo faz da felicidade humana o seu projecto político total. A ele se devem submeter todos os outros – da realização do Homem devem depender todas as medidas. O Homem, no seu ecossistema, deve ser a medida de todas as coisas.

          4. Pintar o Trudeau como se fosse um Manuel Fernandes Tomás de 1820 parece-me um saudável exercício de especulação intelectual, mas não me parece tese capaz de correr a maratona, meu amigo.

  3. Políticos ateus é então a novidade segundo o Pedro Correia…

    http://www.cds.parlamento.pt/gp/index.php?option=com_content&view=article&id=14659:se-insistirmos-em-por-a-ideologia-a-frente-da-realidade-acabaremos-a-produzir-ilusoes-paulo-portas&catid=68:plenario&Itemid=90

    Melenchon e Le pen e respectivos movimentos aumentaram sempre as suas votações (penso eu) para as presidenciais e eu não creio que a soma dos votos dos dois possa ser ignorada ao contrário do que muitos ideólogos ateus dizem e escrevem, inclusive recomendando-os (esses votantes) para internamento em manicómios ou algo parecido…

    O PSF está morto porque quis seguir a 3ª via de Blair ao contrário de Corbyn e de António Costa, o PSF foi sabotado por dentro, tal como desde há anos a França é sabotada por dentro, algo que os ingleses não permitam que se faça na sua Nação, até os escoceses não alinham em brincadeiras como se viu agora onde o SNP perdeu muitos deputados mesmo “sendo” contra o Brexit.

    1. Le Pen e Mélenchon foram inapelavelmente derrotados nas presidenciais. O primeiro ficou em quarto lugar, nem à segunda volta passou. Le Pen levou uma cabazada de Macron, que obteve dois terços dos votos expressos.
      Qualquer deles – Le Pen e Mélenchon – levaram uma cabazada ainda maior nas legislativas de ontem. Aconselho que se informe. Basta seguir algumas das hiperligações que acompanham o meu texto.

      Hollande e Hamon nada têm a ver com a “terceira via”. Hamon, aliás, venceu as “primárias” de 2016 assumindo-se da “ala esquerda” do PSF (curioso como estes partidos, quanto mais minúsculos se tornam, mais facções vão tendo).

      E como é que você põe Costa e Corbyn no mesmo saco se Costa tem revelado, mais do que qualquer outro primeiro-ministro, uma verdadeira “obsessão com o défice” e o controlo da despesa pública, reduzindo a zero o investimento público?
      Para Corbyn, Costa será um perigoso “neoliberal”…
      O que só confirma que vivemos tempos pós-ideológicos.

      1. “Qualquer deles – Le Pen e Mélenchon – levaram uma cabazada ainda maior nas legislativas de ontem.”
        Não individualmente.

        1. Sendo líderes de duas forças políticas a nível nacional, julgo que se sentirão solidariamente responsáveis pelos desastrosos resultados globais obtidos por essas forças.
          Mas já não digo nada. Sauve-qui-peut…

          1. A sua nova luz (Macron, antes era o Valls) irá ter possivelmente 2/3 do parlamento com 30% dos votos e com a mais alta abstenção de sempre.
            Já agora se critica o sistema eleitoral inglês também deveria criticar o francês com igual veemência pois a FN com quase 15% de votos irá eventualmente eleger apenas 3 deputados creio.
            Macron não perde pela demora e irá perder nas ruas o que dizem que ganhou nas urnas.

          2. Lá vem a cartilha do costume, mais gasta do que a espada do D. Afonso Henriques: fulano X ganha nas urnas mas perde nas ruas.
            Soa tanto a disco riscado que já ninguém vai nessa cantiga. E a propósito do “perder nas ruas”: Maio de 68 venceu na rua. Na eleição seguinte a maré conservadora foi a mais elevada de sempre.

          3. Faltou-me acrescentar: sim, critico o sistema eleitoral francês, que despreza as minorias políticas. Considero que todas deviam estar representadas no parlamento. E cada vez aprecio mais os nossos “pais da Constituição” de 1976, que adoptaram o sistema de Hondt. Nunca é de mais prestar-lhes esta homenagem.

          4. O Maio de 68 segundo “sei” foi feito por uma pesudo elite filha da decadente média-alta burguesia francesa, que como exemplo em Portugal temos Durão Barroso e demais “companheiros” de “luta”.

            Eu quando refiro a forte possibilidade de Macron vir a ser “derrotado” na rua refiro-me a isto :

            https://www.theguardian.com/world/2006/apr/11/france.angeliquechrisafis

            http://www.independent.co.uk/news/world/europe/french-demonstration-sarkozy-vs-the-street-1520412.html

            https://www.theguardian.com/world/2010/oct/20/nicolas-sarkozy-france-protests-blockades

            http://www.euronews.com/2015/04/09/anti-austerity-anti-macron-law-thousands-protest-on-streets-of-france

  4. Vejo que é um entusiasta do “partido” de Macron.
    Sendo, como diz, um partido pós-ideologia, não lhe auguro grande futuro.
    Tem muitas semelhanças com o defunto PRD.

    1. Já os partidos carregados de ideologia, a começar pelos comunistas, andam por aí pujantes. É vê-los a ganhar eleição após eleição por essa Europa fora. E na Venezuela.

      1. Porra! Que grande argumentação aqui vai. E nenhuma de jeito. De que nos serve, a nós, que até temos tanto – ou nem tanto – que dizer do nosso pequenino ps, estar para aqui a aturar uns murcões que querem “botar faladura” sobre os pê essezinhos dos outros? Caro Pedrito, ponha os olhos no nosso Sancho Pança, monhé ou o que lhe quiser chamar, bem como no querido líder cá do burgo. Viu como o primeiro foi ao Brasil para dizer que o Marcelito ali estava para comemorar o encontro com o filho e os netos que viviam no Brasil? Ora diga lá se isto não é comevedor. E viu como o querido líder, quando questionado sobre a nega do tal de Meter em encontrar-se com ele, logo o f##eu, rematando para canto e dizendo que Portugal é que é, porque tem um presidente como ele, Marcelito, e que o Brasil está na merda porque tem um presidente como ele, Meter? Isto sim, é respeitar direitos, lá, lá, lá… Aí, no Brasil assim e agora reconquistado (somos os donos daquilo, é nosso outra vez), o querido líder aniquilou todo e qualquer um que ponha em causa a dimensão de Portugal e afirmou aos quatro ventos, ou mais ventos, que “pró ano” vai invadir os “steites” do Trump, vai lá fazer a festa (não sei se lá tem outro filho e ouros netos) e dizer àqueles murcões que nós, os tugas, somos os donos daquilo tudo. Viva El-Rei D. João II.

  5. “Sendo líderes de duas forças políticas a nível nacional, julgo que se sentirão solidariamente responsáveis pelos desastrosos resultados globais obtidos por essas forças.
    Mas já não digo nada. Sauve-qui-peut…”

    Não refuto o que o Pedro Correia afirma, apenas acho necessário introduzir algumas nuances.

    Comecemos por Mélenchon: está à frente em Marselha. Há cinco anos quis enfrentar directamente a Le Pen em Paris e levou para tabaco. Agora, o socialista já está fora de jogo (faltando ver se a suspeita de fraude dá em alguma coisa…)
    O resultado percentual do França Insubmissa, comparado com o da Frente de Esquerda em 2012, está em franco progresso; sendo que o resultado de 2012 já era também melhor do que o de 2007.
    E o rebuçado é ter superado o PS (mesmo que no discurso oficial o inimigo a abater seja a Frente Nacional e toda a direita). A “morte” do PS é também fruto da estratégia adoptada por Mélenchon.

    Quanto à Frente Nacional, o resultado percentual é praticamente o mesmo do de 2012 (embora certamente diverso, para bem pior, no número de deputados). No seu cantinho parisiense, Marine é rainha: aparece em primeiro e a grande distância da candidata de Macron, quando em 2012 tinha acabado por perder para o oponente socialista; o seu resultado supera o obtido em 2012 e mesmo o da primeira volta das presidenciais.

    Faltando ainda a segunda volta, FN e FI (e seus líderes) aparecem derrotados essencialmente face às expectativas geradas pelas presidenciais e face ao sistema de proporcionalidade eleitoral. E aqui se percebe como Macron (e sua equipa) soube jogar brilhantemente com as regras estabelecidas e o momentum. Estamos perante um excepcional caso de estudo, com lugar reservado nos manuais de estratégia política dos lustros vindouros.

    1. «Estamos perante um excepcional caso de estudo, com lugar reservado nos manuais de estratégia política dos lustros vindouros.»

      Penso o mesmo e acho quase chocante verificar como o duplo sucesso eleitoral de Macron está a ser subavaliado pelas nossas luminárias.
      Pacheco Pereira, por exemplo, encolhe os ombros e declara com a snobeira habitual que não lhe interessa o que está a passar-se em França. Faz isto, por sistema, sempre que a realidade não se encaixa na sua (dele) construção mental.
      Interessa-lhe mais o “movimento de ideias” no trabalhismo britânico, que acaba de registar a terceira derrota eleitoral consecutiva em eleições legislativas, que não vence desde 2005. Tal como andou embeiçado por um Tsipras em 2015 e por um Sanders em 2016. Os amores de juventude regressam por vezes, muito idealizados, na chamada idade da ‘sagesse’ – que só o é para alguns.

      Fosse Macron um vulto da esquerda radical, em vez de um bocejante e tépido centrista, que quer aperfeiçoar as instituições europeias e não desmantelá-las, andasse ele de dedo em riste a prometer revoluções e amanhãs que cantam em vez de apenas prometer reformas, e tínhamos a tribo dos comentadores domésticos a delirar em êxtase perante o sucesso da República em Marcha. Resta-lhes, enfim, entoar hossanas à “vitória” do senhor Corbyn. Indiferentes ao pormenor de se tratar de uma “vitória” virtual e não real.
      Os factos são teimosos, como dizia o outro. Mas são o que são.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *