Convidada: ALICE ALFAZEMA


Pedro Correia,

 

Balancé

 

Faz este ano precisamente dezassete anos que a minha mãe morreu, era Maio, o Dia da Mãe calhou num domingo dia sete e ela foi na terça dia nove. Foi levada pelo sono da tarde, nem uma expressão de dor, apenas ficou o frio extremo que eu jamais pensei existir.

Os meus avós eram pescadores, o meu pai também, pessoas habituadas ao risco e conhecedoras da morte. A minha mãe tinha uma doença incapacitante que a podia devorar a qualquer momento, no entanto ela era uma animadora de espíritos, isso fascinava-me. Como podemos viver em consciência lado a lado com a Vida e a Morte? Afinal não é isso o que fazemos todos os dias sem o notarmos? Sabemos apenas que existimos.

A consciência da sua finitude e uma fé imensa davam-lhe uma energia e um amor incondicional àquilo a que vulgarmente se chama de Amor pela Vida. A sua vontade férrea naquilo que queria conhecer, as coisas que não ficaram por dizer. Os abraços que demos e as vezes que chorámos como forma de alívio. Não deixámos nada para amanhã, foi tudo feito num hoje único. Vivemos coisas simples, apreciámos coisas simples, coisas banais, como o barulho da chuva, a cor de uma joaninha, a surpresa de ver a erva a crescer. Rimos muito, rimos quando havia motivo para rir e rimos também quando nos apetecia chorar, quando nos apetecia desistir.

A morte faz balancé na vida. Para cima, para baixo, para cima, para baixo, mais rápido, mais devagar, parado, a começar, a acabar. O que fizemos juntas nesse balancé ficou em mim, às vezes vem de mansinho, em sonhos, em cheiros, em paladares. Não são coisas palpáveis, são coisas minhas.

 

 

Alice Alfazema

(blogue ALICE ALFAZEMA)

0 comentários em “Convidada: ALICE ALFAZEMA”

  1. “Como podemos viver em consciência lado a lado com a Vida e a Morte?”

    Pois só assim:

    Tendo “consciência da sua finitude(…) davam-lhe uma energia e um amor incondicional àquilo a que vulgarmente se chama de Amor pela Vida”

    Belo texto, Alice

  2. Sei que vou repetir, mas foi o que tive vontade de dizer, logo que acabei a leitura deste texto, que, tendo forma de prosa, é um verdadeiro poema à vida:
    – Que bonito!
    João de Brito

  3. Alice Alfazema. Uma Senhora de classe.
    Pelo bom-gosto, saber estar, delicadeza e cuidada beleza descritiva, Um blog de grande qualidade e referência obrigatória.
    Particularmente honra-me a sua leitura.

  4. Tão bonito, Alice! Estou aqui a chorar. Este seu texto tocou-me de maneira incrível. Será a beleza? Será por aquilo que não vivi? Será por tanto amor? Será por tudo isso e mais alguma coisa…
    A essência da vida num texto. Do mais bonito que já li.
    Parabéns e obrigada!

    1. Talvez seja pela diferença daquilo que viveu e do que precisava ter vivido. Por vezes os pais não têm a capacidade de mudar a forma de como foram amados, e transportam isso para o amor que dão aos filhos, ou o que julgam dar, dão o que receberam. Eu creio que o perdão pode transformar laços, sei que não apaga nem faz esquecer as acções a que fomos sujeitos, mas faz-nos mais felizes.

      Um abraço grande Cristina.

      1. É isso mesmo, Alice. Penso que faltou esse olhar para as coisas simples da vida. Mas cada um sabe da sua vida, há circunstâncias, há convicções, há diferentes sensibilidades… Não me estou a queixar e sei que ninguém teve o propósito de me prejudicar, fosse no que fosse. Pelo contrário, foi tudo a pensar no melhor. Mas há certas coisas que tenho (e tive) de aprender por mim. Não tem sido fácil e, afinal, pode ser tão simples… Acho que é isso que me emociona no seu texto.

  5. Muito comovente, E, esse relacionamento com a sua mãe deve ter-lhe dado uma grande tranquilidade, aprofundando o sentimento de que tudo é efémero.

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