Li hoje o enésimo post sobre aquilo que as pessoas, ao chegarem ao fim das suas vidas, lamentavam. Em quase todos os casos se fala em lamentar o que não se fez e não aquilo que se fez. Lamentamos não ter passado mais tempo com a família, não ter aceite aquela oportunidade do outro emprego, não ter feito uma certa viagem, etc.
Confesso que ainda me falta algum tempo para poder ser considerado como estando “no final da minha vida”, mas este raciocínio, como descrito acima, parece-me conter uma falácia. É normal que lamentemos aquilo que não fizemos precisamente porque não o fizemos. Envolve um desconhecido que podemos glamorizar e imaginar como perfeito. Aquilo que fizemos é conhecido, dissecado e esquecido, fora um ou outro elemento mais memorável. O que não fizemos pode ser construído como queremos.
Infelizmente, quando este tipo de posts (ou estudos) surgem, nunca há ninguém a fazer a mais simples das perguntas: porquê? Porque razão lamenta não ter feito viagem X quando fez viagens A, B e C. Porque razão lamenta não ter aceite posição A em vez de B? Fiz ocasionalmente esse exercício. A resposta é invariavelmente dada no condicional: «poderia ter sido…», «se calhar teria…», «quem sabe se não teria…». Não há uma certeza absoluta sobre o melhor desfecho dessa escolha. A única excepção é o lamento de não ter passado mais tempo com família.
Pessoalmente opto por outra forma de pensar ou viver: aceitar e perguntar a mim mesmo o que posso retirar daquilo que fiz, de que maneira aprendi, cresci. As escolhas definem-nos, não só pelo que demonstram sobre nós quando as fazemos mas também pela forma como nos influenciarão no futuro. Aceitá-las, mais que lamentar tê-las feito, parece-me melhor filosofia do que esperar pelos últimos anos e reimaginar uma história pessoal contrafactual. Especialmente quando a factual pode e deve ser tão interessante como a outra.

Do que fazemos, nada tem realmente importância. Ter ou não ter filhos, ganhar pouco ou muito. O que importa são as nossas representações do mundo e da vida. Aquilo que decidimos dar importância, ou conferir sentido. Mas não havendo, realmente, sentido algum tanto dá o que fazemos ou não, desde que a luz continue acesa e o baile aberto.
É verdade que a importância que damos às escolhas/coisas determina tudo. A partir daí, no entanto, as coisas têm importância precisamente porque lhes atribuímos tal.
As opções são circunstanciais, mas as circunstâncias não são opcionais. (frase do livro “desaforismos” de Georges Najjar Jr)
Verdade.
Caro João André
Pois eu, se voltasse atrás, repetia tudo o que fiz, asneiras incluídas. Foi tudo isso que me permitiu ser quem sou e gostar do que sou. Talvez lhe tivesse acrescentado umas coisitas – bem agradáveis, por acaso – mas que a moral da época me impediu de fazer. Felizmente, tive oportunidade de as fazer mais tarde e fiquei satisfeita. Ainda vieram a tempo…
:-)))
É também assim que eu penso Helena e exactamente pelas mesmas razões. As escolhas mais recentes são aquelas que eu penso que talvez devesse ter feito de outra forma (ainda não tiveram tempo de se/me estabilizar) mas em geral prefiro focar-me naquilo que sou devido a isso.
Onde a sua teoria não bate mal, é que experiência é o número de asneiras que um individuo faz na sua vida. Só se tem essa experiência é que se pode saber que devia ter ido por outro caminho.
Fazem parte, sem dúvida. E bem importante. Mas é essencial aprender com elas.
Se captei bem o sentido, também alinho por essa bitola, isto é, não faria nem farei nada de diferente do que aquilo que já venho fazendo.
O despertar da consciência vai sempre contra os contractos sociais que se estabelecem previamente.
E estes contractos sociais retiram quase sempre a consciência de si mesmo, porque são voltados para o exterior.
Dizia Hegel que “o animal tem consciência imediata do mundo exterior, um sentimento de si próprio, mas não a consciência de si próprio, que distingue o homem. Este só nasce verdadeiramente a partir do instante em que toma consciência de si próprio como sujeito conhecedor.”
Camus, in “O Homem Revoltado”, afirmava: “agir é destruir para criar a realidade espiritual da consciência”.
Portanto, é necessário que “o Homem se torne naquilo que ainda não é.” Para isto é necessário superar a morte, aceitando-a e até mesmo desejando-a.
Jesus afirmou na conversa com Nicodemos: “Necessário vos é nascer de novo”.
Como vê, João, nem Hegel nem Camus trazem nada de novo. Só é novidade o que experimentamos de novo.
Abraço, padrinho.
Caro Vento,
bem oportunas as referências. Claro que filosofar às vezes tem o problema de embater naquilo a que a realidade mais tarde dá contexto: sabemos hoje que há vários animais com consciência de si mesmo, ainda que a maioria continue a ser de facto inconsciente de uma individualidade.
Se bem o entendo (não do post, mas em geral), será católico. Curiosa a referência a Hegel e quando este considera que um homem nasce verdadeiramente só quando toma consciência de si próprio. Esta definição anda um pouco às avessas com a ICAR, não? 😉 (é só provocaçãozinha, não é ataque). Já as mulheres suponho que para Hegel só nascerão quando casam.
Caro João,
Católica significa Universal. Como tal a Universalidade engloba em si mesma um fenómeno de inculturação e acolhimento da diferença, conservando o primado do cristianismo, de Jesus. Tudo ao contrário das correntes que pretendem, em nome de um Estado e de uma pseudo-ciência, uniformizar as consciências universalmente.
Aliás, esta é a ortodoxia que se vive. Veja, por exemplo, o que ocorreu também na ex-Europa de leste, na China, na Coreia e outros pontos mais. Existe uma ortodoxia de estado que impõe a sua corrente sobre os demais. O mesmo se passa actualmente em Portugal e em outros países do ocidente.
Creio que o capitalismo ocidental, incluindo o capitalismo de esquerda, vive de certo modo um saudosismo em relação aos fenómenos anteriormente citados. E como não é capaz de se reformar em si mesmo tende a reproduzir os modelos.
No que respeita às mulheres, parece-me que só agora alguns sectores femininos começam a ter consciência de si mesmas. Mas ter consciência de si mesmas não significa que já se tenha avançado para a tomada de consciência de si próprias como sujeitas conhecedoras. O Conhecimento é algo de muito vasto.
Aliás isto aplica-se a mulheres e homens, foi isto que Hegel afirmou:
“Este só nasce verdadeiramente a partir do instante em que toma consciência de si próprio COMO SUJEITO CONHECEDOR.”
Eu vivo na expectativa de um dia poder afirmar “sei que nada sei”. Reproduzir esta sentença é ter a consciência e o conhecimento que só se poderá afirmar isto depois de muito se saber.
Portanto, não me surpreende que homens e mulheres andem bastante baralhados. E reconheço que seja difícil entrar no próprio baú e daí tirar coisas novas e velhas.
Eu estou em crer que de certo modo se vive no estado animal que Hegel referiu, isto é, o Homem possui um sentimento de si, porque voltado para as aparências, para o exterior, mas não possui o conhecimento de si próprio. Este anda moldado pelos contractos sociais que em nome dele e dela se estabelecem, mas não cria um contracto consigo mesmo. O Homem tem sido, e é, uma espécie de Maria vai com as outras. As excepções têm acabado na cruz, qualquer que seja a cruz.
Por outro lado, o homem, e agora refiro-me ao género, também anda muito folclórico; e nesta dança, ao pretender misturar muitas roupagens, acaba por perder a genuinidade de si mesmo.
O folclore não é bom nem é mau, é genuíno. Mas é necessário que seja genuíno, isto é, que se respeite as características que definem as diferentes expressões, e não as misture. O homem tem de ser homem e a mulher, mulher.
Conheço um sem número de mulheres solteiras, também divorciadas e viúvas; e em nenhuma delas reconheço a expressão da felicidade. Também conheço algumas casadas que não são felizes.
Os homens parece que andam mais estáveis, solteiros e casados, porque são os que menos se queixam das mulheres. Creio que o homem revela mais espírito de sacrifício. 😉
Eu não me queixo das mulheres, mas também não ando a armar em D. Quixote para defender um não sei quê. Entendo-me com elas face to face.
Ainda sobre a felicidade. Como se pode, João, buscar a felicidade no outro quando esse outro é um(a) infeliz?
O Homem tem de se resolver primeiro a si mesmo(a) para pode ir ao encontro do outro.
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Permita ainda que acrescente algo que indigna por ser verdade. Leia esta notícia:
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