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Paulo VI e Salazar: fotografia do Século Ilustrado, Maio de 1967
A asneira anda cada vez mais à solta nas redacções. Sem revisores de textos, sem editores com capacidade ou competência para detectar erros, com jornalistas cada vez mais impreparados, os periódicos debitam disparates a uma velocidade estonteante.
Enquanto leitor atento, vou anotando estes erros como reflexo condicionado de mais de duas décadas passadas a rever textos alheios em redacções de jornais. Devo confessar que nesta matéria já quase nada me impressiona. Mas ainda consegui arregalar os olhos de espanto ao ler na contracapa da última edição do Expresso um par de erros do tamanho da Sé de Braga. Numa notícia que encima a página, sob o título “Só Salazar não deu tolerância de ponto”. A propósito da próxima vinda do Papa Francisco a Portugal.
Escreve o semanário fundado por Francisco Pinto Balsemão – em prosa anónima – que em 1967, quando pela primeira vez um Papa visitou Fátima, “o ditador recusou encontrar-se com Paulo VI, depois de o Papa ter recebido, em Roma, representantes dos movimentos de libertação das ex-colónias portuguesas”.
É difícil escrever tantos disparates em tão pouco espaço. Bastava o anónimo escriba do Expresso dedilhar na Rede para logo lhe aparecerem imagens do encontro entre Salazar e Paulo VI, que aliás forçou o então Presidente do Conselho a deslocar-se à Cova da Iria pela sua recusa de visitar Lisboa. Uma dessas imagens, muito conhecida, ilustra este texto.
De resto, jamais Salazar poderia irritar-se com a audiência papal aos dirigentes dos movimentos africanos (Agostinho Neto, Amílcar Cabral e Marcelino dos Santos) pois já estava fora do poder quando esse encontro ocorreu, a 1 de Julho de 1970 – mais de três anos após a vinda de Paulo VI a Fátima e precisamente 26 dias antes do falecimento do fundador do Estado Novo, substituído em Setembro de 1968 por Marcelo Caetano.
Se algo ainda pode conferir utilidade aos jornais é a capacidade de nos transmitirem conhecimentos ou avivarem a memória. Mas como poderá isso acontecer se as redacções andam cada vez mais ignorantes e amnésicas?
ADENDA: Toda a peça é lamentável, começando pelo título. Salazar não “deu” tolerância de ponto: decretou o dia 13 de Maio de 1967 feriado nacional. Como é do conhecimento generalizado, um feriado dispensa do trabalho muito mais gente do que a tolerância de ponto, destinada aos funcionários públicos.

Não é amnésia é realidade alternativa, fake news políticas que o Expresso já faz há muito. Todas no mesmo sentido.
É muito para lá de amnésia ou seja esquecer-se de referir um facto, ou de um único erro. Isto é escrever uma notícia baseada em informação falsa.
Quando estamos a lidar com factos (neste caso, não-factos) ocorridos respectivamente há 50 anos e há 47 anos o termo certo parece-me mesmo ser este: amnésia.
Nada condizente com um jornal fundado em Janeiro de 1973. Com obrigação acrescida, portanto, de ter boa memória.
PBSUCESS?! Inventado??
Não me lembro, estou com amnésia.
Ao que sei, o Expresso ainda não se retractou. Pode?
Não faço a menor ideia. Só hoje vi o jornal – e deparei logo com este disparate impresso.
Não se relacionou com os movimentos africanos mas sim com o reconhecimento oficioso da anexação de Goa pela Índia. Salazar censurou junto de Cerejeira a posição do Vaticano. Penso que Salazar não foi receber o Papa ao aeroporto. Para Paulo VI tanto se lhe dava. Salazar tinha os dias contados. Salazar estava cada vez mais fora da história .
Salazar foi receber Paulo VI à base aérea militar de Monte Real, sim. Também há registo fotográfico disso.
Obrigado, Pedro!
Mas já agora, fica aqui, sobre o mesmo assunto:
Franco Nogueira afirmou que Salazar lhe dissera, quando teve conhecimento da possível visita do Papa: “Enquanto eu for vivo, o Papa não entra aqui… não lhe daremos visto”.
Sim. Essa frase foi registada por Franco Nogueira no último volume da sua biografia do fundador do Estado Novo. Mas como bem sabemos os políticos raramente cumprem as promessas. Salazar, como é óbvio, não foi excepção.
Bem, se a frase a ter em conta é “os políticos raramente cumprem as promessas”, Salazar deve ser considerado uma excepção, visto que de modo geral as cumpriu.
E bem sabemos que, relativamente a muitas promessas, o problema não é o facto de não terem sido cumpridas, mas sim de terem sido feitas. Infelizmente, costuma-se confundir (propositadamente) as duas coisas.
Salazar, como outros políticos, fez inúmeras promessas que não cumpriu.
Realizar eleições tão livres em Portugal “como na livre Inglaterra”, por exemplo.
Inúmeras? Essa é nova: afinal Salazar era apenas um democrata incumpridor, rendido ao populismo eleitoralista. Bolas…
Se anunciou eleições em Portugal “tão livres como na livre Inglaterra” e não cumpriu o que anunciara, pareceu um incumpridor de promessas.
E em política o que parece é.
Sobre Salazar ainda nem sei o que pense, do politico, pois do homem pouco se sabe, realmente.
Existe algo de belo, romântico naquela visão acádica, pastoral, rústica que Salazar tinha/fingia ter da Vida….Portugal era um andar descalço, contente, um assobio despreocupado ao destino, uma canja de galinha, no sitio da alma, um burro carregado, um varejar da azeitona, um tanque publico e pudico, uma ladainha, coberto no preto da ignorância, um país vedado a cerca, a vela em vez da corrente eléctrica, o balde, ao sanitário…assim um Portugal de refugio às complicações da modernidade….e afinal o que conta o protesto da barriga se a cabeça se encontrar consolada, sob um céu estrelado?
Com força de vontade a gente acredita, se a mentira aliviar o peso da verdade…
A gente acredita, pelo menos eu…
Um imenso turismo rural, dir-se-ia pela sua descrição.
Assim é. Além de que muitas vezes, uma pessoa diz algo, depois reconsidera e muda de opinião. Foi o caso! O Estadista analisou melhor a situação nomeadamente porque era uma visita pastoral e religiosa e alterou a sua posição, pelo que o foi recebera Monte Real. E isto é que interessa!
Em qualquer caso assim se vai prosseguindo, com método, a formação da geração mais bem preparada de sempre (eu aprendi “melhor preparada”; mas isso será sem dúvida meu anacrónico preciosismo). A geração dos “feed” de notícias, para quem ler mais de 140 caracteres – ou lá quantos são – é coisa intoleravelmente cansativa e entediante, e que em qualquer caso muito provavelmente nem leu o texto do Expresso mas sim uma sua qualquer resumida invocação.
Será só inexperiência de gente impreparada e não acompanhada; será incompetência grave, mas sem dolo? Ou deliberada re-escrita da História: “fake news” de esquerda e, como tal, de inquestionável bondade?
Cedo a teorias da conspiração? É capaz…
Costa
Não alinho em teorias da conspiração nem me parece que possam ter fundamento algum neste caso.
Parece-me algo muito mais simples: um exemplo gritante de incompetência. A escrever, a editar, a validar.
Nem o que eu escrevi, meu caro, significa necessariamente que eu alinho. Pergunto-me é se essa gente, nessa sua gritante incompetência, não perceberá que com ela, com ela também, potencia e legitima o surgimento e sedimentação dessas teorias numa audiência que manifestamente não prima pela vontade de olhar de forma crítica o que lhe é levado aos olhos. E fá-lo, essa gente incompetente ou domesticada, ou as duas coisas, a partir de uma posição de influência (ainda, suponho) e por isso de responsabilidade.
Dessas teorias ou das suas concretizações mais “terrenas”, nem que em reacção defensiva, assustada ou exausta, e a um mal apenas percepcionado, ou desproporcionadamente avaliado (o mal e a solução proposta). Coisas como a recente vitória eleitoral nos EUA, ou o avanço de uma direita apresentada como portadora de todo o mal na Europa.
Coisas perante as quais os mesmos incompetentes se assustam (mais, creio, do que se indignam) e rasgam exuberantemente as vestes. Ou, se evitado o que opiniosamente tomam dogmaticamente como o pior, respiram vitoriosamente num alívio que afinal bem pode ser mero adiamento. Mas sem o incómodo de ir muito além disso no seu labor jornalístico (para além da militante busca dos “podres”, de tablóide ou afins, que existam no passado de quem ousa ir fora do politicamente correcto).
Costa
O mais irónico é que jornais como este, que tanto têm esgrimido contra o conceito de “pós-verdade” e ridicularizado as ‘fake news’ alheias, sejam afinal os primeiros a praticar uma coisa e outra. Não por premeditação, estou convicto, mas por mera incompetência.
Boa tarde,
Se quiser, pode acrescentar mais uma asneira grossa do Expresso, com algum tempo já.
Aquando da morte do Mário Soares, foi-lhe dedicada uma edição inteira da revista.
Um dos textos, da autoria creio que de uma Ângela Silva (não tenho a certeza do nome, mas creio que é este…) começa, pomposo, mais ou menos desta forma: “Sinto-me como um passarinho que fugiu da gaiola, disse M Soares quando abandonou a presidência”. Logo a seguir, a jornalista discorre acerca do pouco sentido daquela afirmação, tal o notório prazer com que ele tinha exercido o cargo. Só que há um pequeno problema, o M Soares disse esta frase, sim, mas quando foi demitido pelo Eanes, não lhe sei dizer agora a data mas creio que era o governo PS/CDS.
Estou a contar isto porque na altura me apeteceu escrever diretamente para o Expresso mas o tempo foi passando e às tantas perdi o timing
Cumprimentos
Qualquer dia inicio aqui uma série sobre temas destes.
Prostituição Comunicacional Portuguesa, eis tudo.
Vai da mais reles ignorância à mais despudorada mentira ( desde que “ideologicamente encomendada”…).
Valha a verdade que aparentemente, a coisa rende : pelos vistos ainda há quem compre (leia?) esse papel higiénico impresso…
Não gosto desse vocabulário, nunca o pratico e demarco-me frontalmente dele. Sobretudo quando é praticado por alguém que se mantém anónimo.
Tem toda a razão, aliás até fico surpreendida por ver um cavalheiro defender as boas palavras.A minha luta quando entro num comentário é precisamente de os homens que neles postam, usarem um vocabulário reles e até mesmo ordinário.
Acabo muitas vezes por fazer denuncia, por falta de respeito à minha pessoa que deve ser respeitada,(pelo menos é o que penso).
Não devemos exigir menos que isso. Nada de baixar a fasquia.
Tem toda a razão, aliás até fico surpreendida por ver um cavalheiro defender as boas palavras.A minha luta quando entro num comentário é precisamente de os homens que neles postam, usarem um vocabulário reles e até mesmo ordinário.
Acabo muitas vezes por fazer denuncia, por falta de respeito à minha pessoa que deve ser respeitada,(pelo menos é o que penso).
Pois aqui neste blogue a regra é esta: respeitar os outros, a começar pela linguagem que se utiliza.
O Expresso: semanário de reverência.
Com o Zé do Laço, Pica-Pau…a amnésia é por conta ……fazem bem companhia ao JN e ao DN….os fund(ilhos..) são inesgotáveis !
Zé do Laço?
Nicolau S……
Esse laço anda cada vez mais lasso.
o titulo de pastorinho dos amanhãs que cantam fica-lhe mesmo a matar. Até faz dó o que um jornalista se ridiculariza, sem querer ou por querer quimeras.
O mais inacreditável é que certos jornalistas, sempre prontos a invocar a ética da responsabilidade aplicada aos políticos, a recusem para eles próprios.
O episódio Baptista da Silva bastaria para o subdirector do ‘Expresso’, nessa mesma semana, ter renunciado àquela função. Mas lá continuou instalado na poltrona. Como se nada se tivesse passado. Como se não tivesse feito cobrir de ridículo o jornal. Belo exemplo que deu aos jovens jornalistas do próprio ‘Expresso’…
Sem dúvida.
Acabei de o ouvir há pouco, na Antena 1; o homem vibrava com as novas sobre a economia cá do “burgo” … e não é que fiquei animada!!!
Quanto ao tema do post, há muito que não leio o Expresso.
Estamos quites, Maria. Eu há muito não ouço esses comentários na Antena 1.
É o Zé do laço e o Mira Lentes (RC). Está sempre a olhar para a câmara 1, o que é profundamente irritante. Se calhar vê o fantasma gordo do meio-irmão em todo o lado.
Mui provável referência ao Professor Doutor Artur Baptista da Silva, cujo “nom de plume” é nicolau santos…
Esse Professor Doutor é uma sumidade. De tal maneira que logo se sumiu dos olhares públicos, para desconsolo dos inúmeros admiradores que granjeou naqueles fugazes dias de inesperado protagonismo público.
Felizmente resta-nos o seu ‘alter ego’, que – esse sim – continua a escrever no semanário de maior circulação nacional. Foi-se o Eça, ficou o Ega.
Amnésia e ignorância — tudo virtudes desenhadas à balda pela Escola Pública
Não duvido que a ignorância esteja a ser cada vez mais apontada como virtude nos dias que vão correndo.
Obrigado pela sua observação. Às vezes acho que os media publicam demais e depois não têm tempo para verificarem o que publicam nem nós tempo para ler tudo. Eu lembrava-me duma grande celeuma do regime de Salazar com o Vaticano a propósito duma visita do papa à Índia pouco depois da invasão de Goa, Damão e Diu pela União Indiana, que ocorreu em Dez/1961. Vi agora na net que Paulo VI visitou a Índia de 2-5/Dez/1964, andava eu no 6º ano na sede do Liceu Camões (do 1º ao 5º andei na secção do Areeiro) e lembro-me de se ter discutido o tema nas aulas de Religião e Moral, a propósito do que é de César. Lembrava-me do Papa ter recebido os líderes dos movimentos de libertação mas já não me lembrava do timing (do Salazar estar “off”). E é chato os jornais terem erros destes, a internet usada com cuidado parece ser melhor, à partida não se confia tanto, o que acaba por ser um bom princípio, se bem que trabalhoso.
Há cada vez menos controlo de qualidade na produção jornalística.
Antes havia pelo menos três estruturas intermédias de controlo: a revisão dos textos, a editoria e a direcção.
A primeira desapareceu. Foi “descontinuada”, por ser considerada obsoleta em tempo de “rigorosa contenção de custos” (não aplicada noutros sectores da produção jornalística).
A terceira, praticamente também. Os directores e subdirectores andam demasiado ocupados a aparecer nas televisões como comentadores: alguns passam lá mais tempo do que nos jornais.
Sobram os editores, que não chegam para as encomendas ‘multimédias’ que lhes chegam a todo o momento e de todo o lado. Isto para falar dos competentes. Os outros, os incompetentes, são casos perdidos: certos estagiários sabem mais que eles.
Na Revista do Expresso seguinte (de 6/Mai/2017) convidaram o António Marujo que lá descreveu a vinda do Papa Paulo VI a Fátima em 1967 com estes pormenores correctos. Mas não vi nenhum pedido de desculpas pelos enganos da contra-capa que referiu, o Expresso faz-me às vezes lembrar o Cavaco Silva na sua famosa frase sobre enganos e dúvidas.
A soberba é um pecado mortal também no jornalismo.
Desejo comentar porque li qualquer coisa. É um episódio da história recente, omissão grave se ocorresse na imprensa inglesa ou francesa. Alguém que tenha lido pouco mais que as notícias do jornal sabe que Salazar confidenciou ter saudado “Sua Santidade” e ouviu “Sua eternidade”…
Os cristãos progressistas portugueses sabem o desalento sentido quando 3 anos antes a diplomacia portuguesa em transe obrigou o Papa, na viagem à Índia pouco depois da anexação, a desmarcar a visita a Goa.
Dois erros grosseiros numa notícia paginada com grande destaque – a abrir a última página do jornal. Já para não falar na confusão que se faz entre feriado nacional e tolerância de ponto, como se esta não tivesse um âmbito mais restrito do que o primeiro.
Não fui indagar se houve ou não um pedido de desculpas do jornal. Sei que a ética da responsabilidade que lá se pratica é muito reduzida ou nula. Basta manter-se em funções o membro da direcção que há mais de três anos apresentou ao País um burlão cadastrado, garantindo que se tratava de um reputado especialista da ONU.
Quando o jornalismo baixa a estes níveis, entra numa espécie de bar aberto em que tudo vale. Siga para bingo.
Acresce que até foi Salazar que “instituiu” a tolerância de ponto.
O todo engloba a parte. Só o anónimo escriba do ‘Expresso’ não percebeu.
Os mentirosos compulsivos, devem ter aprendido com o tal Sócrates: https://youtu.be/2I5Jqu2FTGs
Extraordinário como a ignorância cresceu e se tornou atrevida nestes tempos em que a informação se encontra à distância de um click (ou vários, de preferência, para confirmar minimamente)…A pós-verdade – aquilo a que, quando eu era nova, se chamava “mentira”- está a devorar tudo; é isso que torna o mundo perigoso. Bem-hajas, repito – passo a vida a dizer-te bem-hajas, Pedro.
Eu é que agradeço o teu incentivo, Inês. Vou continuar a fazer o meu Observatório da Imprensa aqui no DELITO, cada vez com mais frequência. É algo que quase nunca se pratica por cá – existe uma espécie de temor reverencial na aldeia jornalística portuguesa, onde todos são primos e primas. Estou-me nas tintas para isso. Entendo que os órgãos de informação não podem continuar sem um escrutínio crítico, sob pena de se afundarem cada vez mais na iliteracia e na irrelevância.
Por mim até fazia um blogue destinado só a este tema: matéria-prima não falta, vontade também não. É um antigo projecto meu que talvez arranque um dia destes.
Tenho na minha mão a edição 1002 da FLAMA de 19 de Maio de 1967, em que se pode ver fotograficamente a receção no aeroporto de Monte Real, pelo Presidente da Republica e todo o Governo da altura incluído o Presidente do Conselho de Ministros. Isto para dizer que independentemente da bandeira de cada a um verdade não se compadece com a mentira.
Grande verdade.
Infelizmente é o jornalismo que temos. Mas o “fenómeno” não se passa só na imprensa !!! Pobre país este !!!