Dicionário prático de neologismos, 1: Assédio


blogprimario94472,

Comecei a trabalhar na redacção do semanário O Jornal, a tempo inteiro e com salário zero – estágio, chamavam-lhe eles – a 2 de Janeiro de 1983. Ainda não havia o capitalismo neo-liberal e não sei que mais, nem a crise dos mercados financeiros, nem o modo de vida do Sócrates, enfim, nada dessas coisas tenebrosas que vieram perverter o mundo e, segundo os entendidos, atrair as pessoas para a extrema-direita, a loucura e a morte. Certo é que, sem nenhum desses horrores no horizonte, já se praticavam os estágios gratuitos, mesmo em jornais de esquerda como, segundo as boas línguas, era o caso daquele.

Tive sorte: o jornal, então maioritariamente masculino, queria jovens do sexo feminino para mandar para a Assembleia da República. Explicaram-me os chefes que, sendo a maioria dos deputados do sexo masculino, convinha que fossem entrevistados por jornalistas do sexo oposto, com decotes generosos, para os levar a responder com maior sinceridade. O Rogério Rodrigues foi incumbido de me levar ao Parlamento para me apresentar as pessoas.

Não correu muito bem: assim que me viu, Almeida Santos fez-me uma festa na cabeça e pespegou-me dois beijos nas bochechas, antes que o Rogério tivesse tido tempo de explicar quem eu era. “Homem, vocês agora vão buscar jornalistas ao infantário?” – perguntou, embaraçado, Almeida Santos. Ofendida, retorqui que já tinha 20 anos. O então Ministro de Estado e dos Assuntos Parlamentares declarou: “Pois olhe, eu não lhe dava mais de 15”. Assim terminou a minha promissora carreira de repórter parlamentar. Aproveito para prestar as minhas homenagens a Anabela Neves, minha colega de turma na universidade, e a Maria Flor Pedroso, que honraram e honram a difícil e delicada especialização do jornalismo parlamentar, em décadas de trabalho isento e exemplarmente rigoroso. Entraram para a profissão nessa época em que as redacções machas queriam meninas para impressionar os deputados, e sobreviveram magistralmente a essa sinuosa forma de assédio profissional.

 

A palavra assédio, pura e simplesmente, não existia. Quando o orientador de estágio que me fora designado no jornal começou a sussurrar-me que tinha de ir jantar com ele para garantirmos que eu conseguiria o emprego, valeu-me o apoio da Clara Pinto Correia, que entrara um ou dois anos antes para o jornal e tinha uma inteligentíssima capacidade de contra-ataque. Aconselhou-me a Clara a que marcasse o jantar na agenda de serviço do jornal, que estava colada na parede, no meio da redacção. De facto, essa boa acção teve o condão de anular de imediato o apetite do meu orientador. Pouco depois, consegui que me transferissem para a secção de cultura e passei a ser orientada pelo Fernando Dacosta, a quem devo lições essenciais sobre jornalismo, teatro, literatura e, sobretudo, dignidade humana.  

Ao fim de um ano e meio de estágio gratuito, o José Carlos Vasconcelos e o António Mega Ferreira, respectivamente director e chefe de redacção do JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, contrataram-me para a redacção deste jornal cultural, que passava então de quinzenal a semanal. Um belo dia, fui encarregada de entrevistar um escritor já em processo de consagração que, enquanto ia respondendo à entrevista, tentava meter-me as mãos em todas as partes do corpo (excepto, salvo erro, os tornozelos e os pés). Lembro-me de ter pensado de mim para comigo: “Respira fundo e faz de conta que estás numa daquelas comédias italianas desesperadamente ansiosas por parecerem picantes”. O literato Don Juan extraira da minha cândida pessoa a confissão de que eu queria um dia escrever romances e, enquanto me dedilhava, dissertava sobre a superior facilidade de escrita que eu experimentaria se me deitasse com ele. Respondi-lhe que, mesmo que o talento se contagiasse sexualmente, preferiria escrever à minha maneira, e não à dele, o que o fez concluir, escandalizado: ” Além de pespineta, você é uma arrogante”.

Infelizmente, esses dois grandes defeitos não o fizeram desistir do assédio, antes pelo contrário, e o ordálio continuou por uns tempos, sem que eu me tivesse queixado a ninguém. Nem me ocorria. Nesses tempos considerávamos tais ataques como “normais”. Preço a pagar pela ousadia de querermos afirmar-nos num mundo de homens. 

 

Hoje, sabemos identificar o assédio. Continuamos todavia a deixar que nos desmereçam. A aceitar que nos diminuam. A pactuar com o desmerecimento e a diminuição de outras mulheres. Sem sequer darmos por isso. 

– Ele a mim tratou-me sempre muito bem.

A frequência com que ouço esta frase, entre mulheres e contra mulheres, em situações de relações pessoais ou laborais, e o que ela representa de falta de solidariedade, cobardia, indiferença, obediência e auto-depreciação, leva-me a pensar que o pior assédio é o do medo. Invisível, inatacável, persistente, mantendo cada ovelhinha no seu lugar.

 

0 comentários em “Dicionário prático de neologismos, 1: Assédio”

  1. Não me leve a mal! Mas porque é que as mulheres se submetem a dores quotidianas, do tipo, saltos altos, ou outros utensílios da moda, como unhas de gel (nem uma caneta às vezes conseguem agarrar) ? É para se sentirem belas, ou chamar a atenção do macho?Isto claro está seguindo Darwin e o seu livro Selecção Sexual (o salto alto realça as nádegas, o batôn vermelho simula a cor rubra do orgasmo, as unhas de gel aumenta o comprimento dos dedos, etc). Bem sei que temos a capacidade de controlarmos os instintos, mas tudo isto é muito animalesco.

  2. Poucas vezes li a palavra assédio tão bem definida.

    Infelizmente é uma palavra que hoje é usada para tudo e em todo o lado, até dentro da intimidade do próprio casal, onde o “assédio” devia ser o “sal” do casamento.

  3. Excelente texto, Inês.

    Há o risco do excesso de sensibilidade: por receio de tudo parecer assédio (e hoje já pode ser de mulheres sobre homens – ou entre pessoas do mesmo sexo), evitam-se comentários, piadas, até mesmo elogios, e cai-se no amorfismo do politicamente correcto. Um pouco como sucede nos campos em que é fácil ser acusado de racismo ou homofobia. No limite, uma atracção até pode ser real.

    Dito isto, é verdade que inúmeras situações de assédio – i.e., com um fundamento de condescendência e pressão – continuam a existir.

    1. Claro, José António. Mas nas situações reais que descrevo, não havia qualquer dúvida de que se tratava de relações de poder/submissão: o chefe contava com a cedência da estagiária a troco de emprego, o escritor contava com a cedência da jornalista a troco de fama e possível progressão. No caso do escritor, a coisa piorou: a dado momento, o senhor propôs ao director do jornal escrever um texto a meias comigo e pediu uma sala isolada para trabalharmos os dois. Acabei por escrever sozinha esse texto – que foi, de facto, assinado a meias, e representou o ponto final num inferno que durou alguns meses. A questão continua a ser a que Virginia Woolf enunciou, e é basicamente esta: como podemos trabalhar a fundo nos nossos talentos se passamos o tempo inteiro numa guerra defensiva, cheias de ressentimento e/ou raiva e/ou medo?

      1. Já respondo à tua pergunta, mas deixa-me começar por Virginia Woolf. À época, ela tinha toda a razão. Contudo, em alguns pontos, no mundo de hoje (enfim, no mundo “ocidental” de hoje), tem felizmente um pouco menos.
        Vejamos. Na questão do “quarto só para ela”, permanece mais difícil para as mulheres conseguirem espaço – e tempo – só para elas. Mas Woolf também referia outros pontos (*). Por exemplo, a vergonha associada à actividade da escrita: uma «senhora» não se dedicava a essas coisas, razão pela qual Jane Austen escondia os manuscritos e várias mulheres assinaram como homens durante o século XIX. Hoje, este problemas já não se coloca (ou, pelo menos, não tanto: ainda haverá uma certa tendência para olhar de lado as mulheres que escrevem livros confessionais e, digamos, licenciosos). Woolf mencionava igualmente factores como o grau de instrução e bem-estar financeiro para explicar porque não seria possível aparecer uma Shakespeare feminina no século XVI. Convenhamos que o grau de instrução – e mesmo o de independência financeira – das mulheres é hoje incomparavelmente mais elevado do que era no século XVI ou no início do século XX.

        Quanto à tua pergunta, não há resposta fácil para actividades «normais». É evidente que uma gestora, uma polícia, uma professora ou uma jornalista enfrentam frequentemente uma pressão extra. Já me é um pouco mais fácil responder a uma escritora: aproveitando o ressentimento, a raiva e o medo para fazer literatura. De resto, numa sociedade perfeita, em que toda a gente se sentisse bem consigo própria e com os outros (uma utopia, eu sei, mas vamos aceitá-la por instantes), qual seria o papel da arte?

        _______
        (*) Sim, estive a folhear o livro.

  4. “Entraram para a profissão nessa época em que as redacções machas queriam meninas para impressionar os deputados, e sobreviveram magistralmente a essa sinuosa forma de assédio profissional.”

    Sim, isto é assédio aos deputados.

    “Um belo dia, fui encarregada de entrevistar um escritor já em processo de consagração que, enquanto ia respondendo à entrevista, tentava meter-me as mãos em todas as partes do corpo (excepto, salvo erro, os tornozelos e os pés).”

    Isto não é assédio. Isto é abalroamento parcial, pois ficam a salvo os pés e os tornozelos.

    “O literato Don Juan extraira da minha cândida pessoa a confissão de que eu queria um dia escrever romances e, enquanto me dedilhava, dissertava sobre a superior facilidade de escrita que eu experimentaria se me deitasse com ele.”

    Aqui não se verifica a possibilidade de uma superior facilidade de escrita. Creio que estamos perante um assédio, fazendo apelo à preguiça.

    “Nesses tempos considerávamos tais ataques como “normais”.”

    Normais, mas entre aspas.

    “Hoje, sabemos identificar o assédio.”
    Por acaso eu sei. Tem havido umas jeitosas que atravessam e atravessaram a minha vida que se têm dedicado a ser dengosas em torno da minha pessoa. Curiosamente, ao sentirem-se rejeitadas, parece-me que o despeito e a feminilidade ferida torna-as agitadas e furiosas. E algumas delas até fazem tudo para vingar a rejeição.

    Finalmente, algumas dessas que refiro também me confidenciaram – não sei bem se por confidência ou outro propósito – que têm sido bem tratadas por outros rapazes que conheço. Mas apesar do bom tratamento de que têm sido alvo não deixam de marcar, ou marcar-me, (com)a sua presença junto de mim. E quando estou acompanhado, tal é a amizade, fingem mesmo que não me conhecem ou não me vêem.
    Olhe que tenho vivido com um medo de partir varas. Como é que um ser frágil como eu pode suportar tanto? Como se pode viver em equilíbrio num mundo também de mulheres?

    Creio que nesta matéria não existe défice de paridade. Não obstante, estou em crer que só começa a existir assédio depois de uma afirmação por parte de quem é assediado. E essa afirmação só pode ser: Não ou Não quero.

  5. Para além do “assédio”, literalmente falando (belo texto a mostrá-lo, mas sem nomes), retiro essa boa memória do “assédio” (trabalho gratuito, felizmente com nomes metidos).

  6. Para mim e no limite, todo o poder que um homem exerce sobre outro é uma indignidade, pela simples razão de que ninguém é mais que ninguém, por definição.
    Se esse poder inclui o assédio, então a indignidade multiplica-se por muito.
    Nota: não confundir função ou hierarquia com poder.
    João de Brito

  7. Complicado.
    As mulheres não se podem assediar, a prostituição deve ser banida. Isto equivale a dizer à rapaziada: olhem, masturbem-se. Era o que eu (e toda a malta) fazia diariamente na minha juventude (já lá vai muito tempo). Apesar de estarmos convencidos (pelos padres, professores e outros) que era pecado grave que dava entrada directa no inferno e que, além disso, era extremamente prejudicial (aqui entravam os médicos) à saúde. Qualquer mal estar e nós atribuíamos à prática da masturbação. O sofrimento era por vezes terrível e deixou marcas para toda a vida a muitos.
    Agora já não estou em idade destes sofrimentos mas textos como este e outros fazem-me pensar no que por aí vai para as novas gerações.
    E estou convencido que muitos discursos de homens, incluindo os que por aqui depositam comentários elogiosos, são hipócritas. A natureza do homem, as infra estruturas biológicas, não podem ter mudado tanto numas décadas. Acho que os jovens de hoje continuam a ter erecções prolongadas e quase dolorosas tal como no tempo da minha juventude. Mas poucos se atrevem a escrever a verdade. Não é assim?

    1. De facto se as mulheres tivessem tusa como nós é que seria bom e estaria tudo resolvido. Infelizmente elas fogem (nem sempre mas nunca se sabe).
      João.

    2. Escreveu sobre tempos de uma grande dureza.
      Talvez com a era da robótica e das bonecas de insuflar, e também com uns orçamentos rectificativos para financiar a tecnologia, a rapaziada fique mais satisfeita. A bem da saúde pública.

      Ironias à parte, o problema que hoje se patenteia, a meu ver, possui duas situações concretas:
      – O ajuste de contas com o passado, em que se atribui todo o tipo de insucessos, traumas, frustrações e raivas à suposta sociedade machista, ainda que as situações tenham personagens concretos;
      – E a tentativa de supremacia do género, em nome da paridade e outras mais.

      De certa forma estes comportamentos sociais fazem-me lembrar os discursos de alguns sectores dos ex-países colonizados, como é o caso também do Brasil, em que passam a vida a atribuir a razão do seu desordenamento social aos anteriores colonizadores. Há como que uma desresponsabilização e vitimização de si mesmos perante as realidades que hoje vivem e que também então consentiram.
      E quem pensar que a matéria legislativa responderá a tais factos, engana-se. Será criar uma bolha social virtual que fará pensar que todos são felizes e perfeitos, ainda que mantenham uma natureza contrária a esses padrões virtuais.
      No fundo constrange-se a evolução natural com matéria jurídico-social, isto é, reprime-se a evolução. É sabido que todas as grandes transformações socias na história foram feitas espontaneamente e não através da lei, da vingança e do constrangimento.

      1. Pois, o problema é que agora o politicamente correcto é os homens fingirem que a sua sexualidade é como a feminina.
        João

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