More or less


Pedro Correia,

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A falta de cultura exibida como flor na botoeira é uma das características dominantes nestes dias em que quase tudo se nivela forçosamente por baixo. O sábio e o burro vivem irmanados à mercê de um clique digital. Razão tem o pai da Internet, Tim Berners-Lee, em mostrar-se  preocupado com a desinformação galopante, potenciada pelo seu invento.

Lembrei-me disto ao ouvir há dias num canal televisivo o jovem curador da “primeira exposição-manifesto” no novíssimo Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia de Lisboa, intitulada Utopia/Distopia. Dizia ele que este evento se destina a “celebrar os 500 anos da Utopia de Thomas “Moore” (pronunciando “Múa”). E adulterou duas vezes o apelido de sir Thomas More para que ninguém ousasse duvidar da sua falta de conhecimentos na matéria.

“Estamos mais desinformados que nunca”, reconhecia amargamente Berners-Lee na sua carta publicada há dias no blogue da Fundação World Wide Web. Tem motivos de sobra para concluir isto, quando a Utopia de More é atribuída por alguém com supostas responsabilidades culturais a um tal Moore. Presumivelmente da família do ex-007. Moore, Roger Moore.

São sinais dos tempos: verdade ou mentira, rigor ou imprecisão, More or less. Tanto faz. E siga a banda.

 

0 comentários em “More or less”

    1. Palavras do insuspeitíssimo Tim Berners-Lee:
      «É um dos grandes paradoxos do nosso tempo. A Internet democratizou a comunicação como nunca na história. Agora todos somos emissores e receptores de conteúdos. Qualquer pessoa ou organização, através de um simples blogue, pode gerar informação com capacidade de influenciar outros. A conclusão é que estamos hoje mais desinformados. As mensagens na Rede são tão torrenciais que custa distinguir o verdadeiro do falso.»

      Antes, os ignorantes calavam-se – ou falavam sem ser escutados. Agora, os ignorantes “produzem conteúdos”. Que no universo digital têm a mesma relevância do que o pensamento de um sábio.

      1. “Antes, os ignorantes calavam-se – ou falavam sem ser escutados. Agora, os ignorantes “produzem conteúdos”. Que no universo digital têm a mesma relevância do que o pensamento de um sábio.”
        Com esta concordo.
        É como no voto: o voto de um ignorante (que por vezes nem sabe o nome de quem é primeiro ministro) tem a mesma relevância que o de uma pessoa sábia em matéria de política.
        Deveria o voto ser restringido a quem passesse num exame? Seria simples nas cabines de voto ter primeiro um teste com perguntas tão simples como “diga o nome do primeiro ministro” etc. As respostas seriam dados no computador (escolha multipla). Não haveria discriminação ideológica. A quem reprovasse no teste o computador anulava ao voto. Etc. Também já houve voto censitário etc. etc.

        1. Ao contrário do que supõe, é residual a percentagem de pessoas que ignoram o nome do primeiro-ministro.
          O problema não são os ignorantes que têm consciência de o ser.
          O problema são os ignorantes que além de não fazerem a menor ideia que o são ainda aparecem nas pantalhas e nas redes sociais a mandar bitaites como se tivessem algum tipo de sapiência.

  1. E o problema não é somente a desinformação. Muito problemático é também que a internet se transformou numa droga viciante. Sobretudo para jovens e com as redes sociais. Há muitos jovens que se tornaram net-dependentes e que não são capazes de fazer nada de útil, porque estão sempre a pensar na rede.

  2. Curioso: na web pode-se encontrar várias discussões sobre a pronúncia de More e Moore, e parece não ser nada incomum que os vocábulos sejam (ou tenham sido) pronunciados da mesma forma. Embora a relação se faça no sentido contrário ao descrito no post: pronunciar Moore como More.

    Bem, a fonética ainda está longe de ser considerada uma ciência exacta…

    1. Voltamos ao mesmo: a ignorância que a web dissemina, ao proclamar que não existem verdades absolutas e tudo é relativo.
      O “achismo” como nova modalidade olímpica dos tudólogos de turno.

      Deixo como contributo para o debate o ‘trailer’ do filme ‘Um Homem Para a Eternidade’, centrado precisamente na figura de Thomas More:
      https://www.youtube.com/watch?v=I4ypQ1Rkgd8

      1. a ignorância que a web dissemina

        Mas a web também dissemina conhecimento. Graças à web há a wikipedia, que dissemina muitíssimo mais conhecimento do que qualquer enciclopédia.

          1. Acrescento isto, na linha do que você escreveu: a Wikipédia é uma excelente ferramenta de trabalho. Mais: é uma conquista civilizacional.

    2. Sendo que Thomas More viveu no século 15 ou 16, é impossível sabermos como se pronunciava o seu nome. Mesmo a ortografia não nos informa de tudo, a pronúncia e as regras ortográficas podiam nesse tempo ser diferentes.

        1. O que tem a pronúncia do apelido More a ver com “regras ortográficas”?

          Não há dúvida de que o apelido se escrevia More. Mas, como se lia nesse tempo? Não sabemos, porque não estávamos lá para ouvir… Nada nos garante que o apelido “More” fosse pronunciado como a palavra “more”. Nem nada nos garante que a palavra “more” fosse pronunciada nesse tempo da mesma forma que atualmente o é.

          1. Parabéns. Com esse relativismo do “nada nos garante” coisa nenhuma, habilita-se a ser curador de exposições em museus alfacinhas.

      1. Sabe-se como era pronunciado sim senhor. Morus em Latim e More em Inglês. Curiosamente, “moore” pronuncia-se também como “more” apelido.

  3. O conceito de “Cultura Geral” , caiu em desuso.
    Agora existe a COLTura, arte de disparar disparates em todas as direcções.
    Ainda há dois dias, numa daquelas alturas em que o tempo não passa e as conversas são como as cerejas, me garantiram que a Guerra no Pacífico acabou em 1946, retorquindo com um peremptório “é mentira”, quando afirmei que Okinawa foi em 1945… ok, ide, ide… ide ler a Bola, o Record e o feed do MSN, do Sapo e do FB, as Bíblias desta geração…

    1. Como eu a entendo, Dulce. Já tive centenas de conversas dessas, onde a teima maior vinha sempre de quem menos percebia do assunto.
      Vivemos no tempo do achismo militante. Basta alguém começar uma frase por “eu acho” para logo parecer que o conteúdo é válido.

  4. Não é a pronúncia do inglês, por parte seja de quem for, que me aflige.
    Mas aproveitarei todas as oportunidades que me aparecerem pela frente – e esta é uma delas – para gritar por socorro em nome da nossa língua que está a ser sistematicamente condenada à morte por quase toda a gente, que não respeita a sintaxe nem as regências, elidindo toda e qualquer preposição menos óbvia.
    Distraímo-nos longamente com a polémica do AO, linguisticamente irrelevante – insisto – e com o excesso de formação ou a falta dela e permanecemos impávidos e serenos perante tão criminoso atentado ao nosso mais importante património que é a Língua Portuguesa.
    Não exagero quando temo que, a prazo, o Português de Portugal seja definitivamente uma língua morta. Pelo menos no que respeita a textos filosóficos, científicos, jurídicos… Mais uma ou duas gerações e, se nada for feito, mais ninguém se entenderá a esse nível.
    João de Brito

  5. Um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua da sua terra: todas as outras as deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro.

    Na língua verdadeiramente reside a nacionalidade; e quem for possuindo com crescente perfeição os idiomas da Europa, vai gradualmente sofrendo uma desnacionalização. Não há já para ele o especial e exclusivo encanto da fala materna com as suas influências afectivas, que o envolvem, o isolam das outras raças; e o cosmopolitismo do Verbo irremediavelmente lhe dá o cosmopolitismo do carácter. Por isso o poliglota nunca é patriota. Com cada idioma alheio que assimila introduzem-se-lhe no organismo moral modos alheios de pensar, modos alheios de sentir. O seu patriotismo desaparece, diluído em estrangeirismo…

    Por outro lado, o esforço contínuo de um homem para se exprimir, com genuína e exacta propriedade de construção e de acento, em idiomas estranhos — isto é: o esforço para se confundir com gentes estranhas no que elas têm de essencialmente característico, o Verbo — apaga nele toda a individualidade nativa. Ao fim de anos, esse habilidoso, que chegou a falar absolutamente bem outras línguas além da sua, perdeu toda a originalidade de espírito, porque as suas ideias forçosamente devem ter a natureza incaracterística e neutra que lhes permita serem indiferentemente adaptadas às línguas mais opostas em carácter e génio. Devem, de facto, ser como aqueles corpos de pobre, de que tão tristemente fala o povo, que cabem bem na roupa de toda a gente.

    Além disso, o propósito de pronunciar com perfeição línguas estrangeiras constitui uma lamentável sabujice para com o estrangeiro. Há aí, diante dele, como o desejo servil de não sermos nós mesmos de nos fundirmos nele, no que ele tem de mais seu, de mais próprio — o Vocábulo. Ora isto é uma abdicação da dignidade nacional.

    Não, minha Senhora! Falemos nobremente mal, patrioticamente mal, as línguas dos outros!…

  6. A resposta às torrentes de informação é simples: estudar, aprender a reconhecer as fontes, pensar … aprefeiçoar-se.
    Ter cultura mas sobretudo ter espinha. Coisa rara.
    Emular Tomás “more than most”.

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