Amar, amar perdidamente…


Ana Vidal,

Desengane-se quem pensou que o discurso político em Portugal está esgotado. Bem sei que quase tudo já nos foi prometido e depois negado, bem sei que os programas e declarações de intenção não nos arrancam já mais do que um encolher de ombros enfastiado e descrente, bem sei que um irreprimível bocejo é a nossa resposta mais frequente à previsibilidade dos debates eleitorais.

 

Mas… atenção, muita atenção: a zona onde vivo acordou um dia destes com uma ideia nova, fresca, inesperada, brilhante. Há uma sorridente senhora do PS que promete ensinar-nos a… AMAR! Isso mesmo, leram bem. A nova Florbela não explicou ainda como pretende fazê-lo, é certo. Ficamos sem saber se vai fundar uma nova seita religiosa, abrir um bar de alterne, uma sex shop ou um motel de estrada (já há alguns por aqui, e por sinal o outdoor que apregoa as maravilhas de um deles está a poucos metros de um dos cartazes da criativa candidata do PS) ou se irá ministrar cursos práticos de kamasutra aplicado, mas alguma ideia estará por detrás daquele sorriso confiante. O penteado, a idade, a pose, a roupa, apontam para uma solução respeitável. Mas o sorriso é maroto e há ali um dentinho desalinhado que me deixa inquieta. O que será que vai na cabeça de Leonor Coutinho? Como será que ela nos quer pôr a amar melhor do que até aqui? E porque achará a senhora que em Cascais se ama pouco, ou mal? Tenho pena de já não votar em Cascais. Juro que lhe daria o meu voto, só para ver este enigma resolvido.

 

 

(Agora a sério: será possível que ninguém se tenha apercebido de que este slogan perde completamente o efeito de trocadilho quando passa da expressão oral à escrita? Se a ideia era sugerir que o concelho de Cascais, pela mão do PS, vai "saber a mar" por mais cuidados com o ambiente, menor poluição, melhor qualidade de vida, sei lá… a verdade é que, da mensagem, fica só o ridículo de uma promessa que mais parece saída de um pastor da IURD, para não dizer pior. Entretanto, Capucho agradece e dorme mais descansado.)

 

43 comentários em “Amar, amar perdidamente…”

  1. Ora bolas, esta prosa e mais o cartaz fez-me lembrar uma música dos ‘Delfins’; é preciso ter cuidado, é necessário não nos precipitarmos e ler com toda a atenção, a imagem passa e, dear Ana, caso não saiba, em política aquilo que parece é.

    É.

  2. Olá Ana! Este cartaz é um must e encaixava na perfeição na sua série ‘silly season’. Na verdade, a julgar pela amostra junta, não me parece que a respeitável senhora possa dar algumas dicas úteis no sentido apontado pelo cartaz. E também não me parece que saiba a mar. Que tenha uma levíssima lembrança do cheiro a maresia, vá lá, ainda concedo, mas mais do que isso, não me parece.
    Este outdoor é um verdadeiro desastre, um autêntico erro de casting em termos comunicacionais.
    Um abraço 😉

    1. Olá, Luís. Não seja tão severo com a senhora, às vezes as lições vêm de onde menos se espera…
      Mas, em termos políticos, o cartaz é mesmo um desastre.
      Abraço 🙂

  3. Os estrategos da senhora poderiam ter avolumado a coisa e publicado no cartaz:
    AMAR E AMAR HÁ IR E VOTAR.
    Então é que ficava mesmo uma perfeição…

    (Ana, hás-de ver também o da Elisa Ferreira no Porto, que é outra pérola)

    1. Excelente, essa proposta. Ainda te contratam para a próxima campanha…
      Vou procurar o da Elisa Ferreira, que não conheço. Onde é que irão desencantar estes criativos?

  4. Qual asneiraram qual carapuça.

    O Slogan está certo…. Ou já se esqueceram do episodio do BMW quando ela era Secretária de Estado da Habitação?

    É muito amor…

      1. Não te lembras, Ana? Olha que esse episódio ficou nos anais da história política xuxialista. Puxa lá bem pela memória…
        Já agora, aproveito para dizer que ainda não vi um único cartaz, seja de que partido for, que desperte um mínimo de atenção, faça esboçar um sorriso ou provoque algum empolgamento.
        Gostava de saber é se esta sensaboria é culpa dos criativos, ou dos próprios políticos que estão cada vez mais cinzentos.

        1. Desculpa lá mas não concordo. Este faz sorrir. Mais: faz rir à gargalhada.
          Sim, já me lembro do episódio do BMW, Carlos. Abstenho-me de fazer ironias sobre essa história triste.

  5. Há um cartaz colocado junto aos semáforos à saída de S.João , na marginal e eu distrai-me a ler e até ia batendo no carro da frente. Esta é uma candidatura claramente para marcar o ponto, cumprir calendário, não tem ambições. Normalmente quando assim é os recursos não são grandes e os bons criativos andam por outras paragens. Com o mesmo conceito podia-se ter feito melhor, mas há coisas bem piores Ana. Atrevo-me até a pensar poderá ter sido inspirado no caso de um antigo Edil era da AD que deu uma “escaldante” entrevista a dizer que gostava muito de fazer amor no chão junto à lareira. Cascais é muito inspiradora.

    1. Há sempre pior, Ariel. Mas este cartaz é mau, muito mau mesmo. Como já disse, a desistência escusava de ser tão óbvia.
      E Cascais é mesmo muito inspiradora, Ariel!
      🙂

      1. Sim, tens razão, mas não foi isso que fizeram. E mesmo assim a mensagem peremptória seia descabida, porque Cascais já “sabe a mar” há muito tempo. E quanto a “saber amar”, já vivo por cá há bastantes anos e não tenho queixas…

    1. Isso também é o que mais me espanta, Sérgio. Nunca houve tantos cursos de comunicação, mestrados, doutoramentos… e depois falham no que é mais básico.

  6. Ana, o seu “Agora a sério” é um “caso sério”, enquanto revelador do seu talento para o “slogan” e para argumentar em sua defesa. Ana, sem ironia, será sempre uma opinião duma observadora comum, embora não sejam os cartazes que me levem a escolher mas, Lol “amei” a sua tese sobre :”saber a amar”.

    1. Obrigada, Maria. A publicidade já foi o meu métier e ainda é uma paixão. Estes atentados à boa comunicação deixam-me estarrecida, confesso. Reajo com ironia para não chorar…

  7. Tal e qual João não seria difícil , mesmo sem deixar de ser popular e acessível a todos ,isto é , de melhor “leitura gráfica” e mais apelativo, não fora esse pequeno detalhe: “pouco mar e muita areia”- muito bem visto …;)
    Entretanto, vamos sorrindo ou,como siz o ditado, “Enquanto o pau vai e vem folam as costas”;))

  8. Tal como existe a literatura light, pelos vistos agora também vamos ter a política light, pelo que esta candidata deve ser o equivalente, em política, à … Margarida Rebelo Pinto? 🙂

    1. Obrigada, Daniela. O João Gomes de Almeida publicou uma série memorável de cartazes das autárquicas, no Risco Contínuo. Mereciam um livro, estas pérolas.

    1. Ui, esse exercício criativo é perigoso.
      À la Diácono Remédios, eu perguntaria: enrola ou arranha? Pior é sempre possível, como vês. É melhor ficarmos por aqui…
      🙂

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