
Há marcas, etiquetas, que nos acompanham ao longo da vida. Por uma razão ou por outra mesmo quando deixamos de as ver elas insistem em reaparecer nas circunstâncias mais estapafúrdias. A "His Master’s Voice" é uma delas. Já não sei há quanto tempo não compro um disco dela, mas o certo é que está sempre presente. Na política portuguesa e "à portuguesa", como dizia um conhecido opinador, ela é um must. Normalmente surge através de rumores, de fontes anónimas, de fontes bem colocadas e bem informadas, cuja identidade se esconde por detrás do megafone. Ninguém lhes conhece o rosto nem o percurso. Só se lhes conhece o ponto de chegada, habitualmente revelado pela voz de terceiros. E este, presumo eu, será, invariavelmente, nalguns lugares deste país "mal frequentado", de onde transborda para as páginas dos jornais, para as rádios e as televisões. Só assim se compreende o sigilo quanto à origem. Não se sabe quem faz a ligação. Sabe-se quem transmite a nova. Depois das queixas dos assessores anónimos de Belém, por causa, diz-se, de um irrelevante assessor do primeiro-ministro que se fazia convidado à hora das refeições, veio agora um ilustre advogado dar voz às queixas de alguém que não se queixou e que normalmente não se acanha quando se trata de dar entrevistas e fazer intervenções públicas. Jorge Bleck devia esclarecer quem são "as pessoas próximas do primeiro-ministro" que exercem pressão e ameaçaram o dr. Alexandre Relvas. Eu não conheço a família do primeiro-ministro, nem sei o que "são pessoas próximas", mas a simples notícia de que essa gente existe deixa-me apreensivo e preocupado. Depois do que aconteceu com as revelações do Freeport, seria bom que o próprio Alexandre Relvas identificasse essas "fontes próximas do primeiro-ministro". Empresários de sucesso e de mérito, gente vertical, de carácter, corajosa e sem medo, não pode depender de "pessoas próximas" de um qualquer primeiro-ministro para falar e exercer livremente os seus direitos. Menos ainda quando para as denúncias se usa o megafone de terceiros. A não ser que por "pessoas próximas" Jorge Bleck se estivesse a referir a um qualquer contínuo de S. Bento ou a um primo ou tio do "Zézito". Família nem sempre podemos escolher. As companhias sim.
