A OCDE, as polícias e uma ajuda ao Governo


Diogo Novo,

Mais um relatório incómodo de uma organização internacional. A OCDE, em relatório apresentado ontem, suscita sérias reservas sobre a estratégia do Governo português – e sobre o seu irritante optimismo, acrescento eu. Mário Centeno já veio dizer umas coisas, e digo ‘coisas’ porque a intervenção do Ministro das Finanças soou mais a birra do que a exposição de argumentos válidos. Enfim, o Governo tem uma bota para descalçar. Aqui, no DELITO, damos uma ajuda. Em vez de se perder com profissões de fé sobre as contas públicas, que só convencem os convertidos, o Governo deve focar-se num disparate defendido pela OCDE: Portugal tem polícias a mais. Esta sim é uma conclusão fácil de invalidar.
A conclusão da OCDE a respeito das polícias portuguesas tem dois problemas. Em primeiro lugar, não é claro que tipo de corpos de polícia são contabilizados. Mas ficamos com a impressão que se compara o que não é comparável. Vejamos os casos de Portugal e de Espanha. Portugal tem apenas duas forças de segurança, a PSP e a GNR. Espanha também conta com duas forças de segurança nacionais, a Policia Nacional e a Guardia Civil, mas dispõe ainda de forças de segurança regionais – por exemplo, a Ertzaintza (País Basco) ou os Mossos d’Esquadra (Catalunha). Se o País Basco e a Catalunha têm forças de segurança próprias, o esforço de alocação de efectivos pedido às polícias nacionais nestas regiões é inferior do que em países onde as forças de segurança nacionais são obrigadas a cobrir na íntegra e sozinhas todo o território de um país, sem o apoio de forças locais com competências para garantir a segurança e a ordem pública. Logo, comparar Portugal e Espanha tendo apenas em conta as respectivas polícias nacionais constitui um erro clamoroso.
Em segundo lugar, importa saber se analisar o número de polícias em função da população faz algum sentido. Olhemos, por exemplo, para o Alentejo. É provavelmente a região da Europa onde o número de polícias per capita é mais elevado, mas onde o número de polícias por quilómetro quadrado será dos mais baixos no continente. Em matéria de segurança, a cobertura de território, mesmo que com baixa densidade populacional, é crucial porque o vazio de forças de segurança pode constituir um incentivo à prática de determinados crimes (fabrico de estupefacientes, crime organizado, etc). Mas a OCDE, tanto quanto é possível perceber, apenas equaciona o factor demográfico. Asneira da grossa. Coisa diferente é saber se não teremos demasiado polícias alocados a funções designadas como “não operacionais” (administrativas, de apoio logístico, e outras semelhantes), mas disso a OCDE não fala.
E cá está, duas razões para o Governo e a maioria que o apoia desfazerem um relatório incómodo, embora recorrendo a argumentos devidamente fundamentados e que ecoem para lá da jihad liderada por João Galamba.

0 comentários em “A OCDE, as polícias e uma ajuda ao Governo”

  1. Não se esqueça que por cá também há polícias municipais e inspectores polícias – Judiciária e Fronteiras.

    1. Não esqueço, não senhor. Mas não são forças de segurança. A Polícia Judiciária é um Órgão de Polícia Criminal, e as Polícias Municipais nem isso são.

  2. Além de analisar o número de polícias pode também analisar-se as suas funções. Algumas delas podem, por vezes, ser privatizadas. Por exemplo, há uns anos os polícias passavam multas de estacionamento; agora essa tarefa está atribuída a fiscais, os quais são pagos pelas empresas municipais que gerem o estacionamento. Outro exemplo são os seguranças privados, que cada vez mais fazem funções que dantes pertenciam à polícia.
    Para saber se há ou não polícias a mais é preciso primeiro ver quais as funções de que a polícia está incumbida.

    1. Os Seguranças Privados são uma anedota, em Portugal. Além de andarem de lanterna, têm um medo, que se pelam, de retaliações dos gangs (sobretudo em Lisboa) – muitas vezes fecham os olhos, pois pelo que recebem e pelas armas letais luminosas não vale a pena correr riscos.

  3. “e sobre o seu irritante optimismo,” Eu também preferia o pessimismo de Passos Coelho e o vamos empobrecer. Animava a gente.

      1. Quais factos?

        A saída limpa?
        A banca sólida, segura e confiável?
        Os três orçamentos por ano, para ver se acertavam nas contas?
        As demissões irrevogáveis?
        Os estudos sobre a Reforma do Estado?

        1. Um PIB que cresce de forma anémica, uma dívida que aumenta de forma preocupante, a despesa pública que dá sinais de não estar tão controlada assim, os investidores que não confiam na economia nacional, conflitos de interesses que ninguém sabe se existem ou não porque o código de conduta é para inglês ver, salários que continuam baixos, impostos que continuam altos apesar de se proclamar diariamente o fim da austeridade, trapalhadas monumentais como a da Caixa ou da TSU…enfim, “peaners”, como diria esse grande analista que é o Jorge Jesus. Está tudo a corre bem.

          1. O PIB está com uma anemia, diria não regenerativa, desde o ano 2000.

            Quanto à confiança dos investidores recomendo que se faça como na Bolsa. Despeçam-se uns quantos portugueses, do país, que eles, os investidores, adoram. A chamada reestruturação da pátria.

  4. Parece que ontem o nosso Presidente-Rei desancou a UTAO, para além da OCDE/troika (que são da mesma raça). Ao que parece Teodora Cardoso enganou-se nas contas do deficit. Valha-nos Centeno qual centelha de luz e esperança!

      1. Desde que o Glorioso seja campeão, tudo joia!
        E Diogo, quando é que isto, alguma vez, correu bem?

      1. Os dados são os mesmos.
        São usados os referentes a 2014.
        (Com uma ligeira discrepância: a OCDE assinala 432,1%000; o PORDATA indica 430,1%000).

  5. Já agora, o critério:
    “Inclui o pessoal dos organismos públicos cujas funções principais são a prevenção, deteção e investigação de crimes e a detenção de alegados criminosos, com exclusão do pessoal auxiliar e administrativo.”

  6. Policias:

    Consideraram os “seguranças” das 10.000 boîtes e casas de alterne e os inspetores da AT .

    Feliz governo este que conta com um excelente adido de Imprensa e um oportuníssimo comentador!
    “sabem de quem estou a falar”

    1. 10.000 boîtes!! Os inspetores da AT fazem segurança do alterne? Bem me parecia pela maneira como nos f…..

  7. Sou só eu que acho, ou ter um organismo de coordenação económica a pronunciar-se sobre o número de polícias de um Estado, é o sapateiro a querer passar muito para além da bota

    Parece que a folha de Excel é omnisciente.

    1. Esperemos que algum organismo de coordenação psiquiátrica se queira pronunciar sobre o grau de idiotice do comentário supra.

    2. Creio que é só mesmo o jo a achar. Além do mais, e como diferentes indicadores demonstram, a segurança e a ordem pública são factores essenciais para o desenvolvimento económico (vide o que se passa com o turismo em Portugal, em particular com o crescimento feito à conta – pelo menos, numa fase inicial – da instabilidade e da insegurança nos países do sul do Mediterrâneo).

      1. Mas a segurança e a ordem pública não são somente função do número de polícias.

        Precisamente o exemplo dado, dos países do sul do Mediterrâneo, mostra que não é exatamente por falta de polícias que há insegurança.

        1. Lavoura, mas onde é que está escrito que a segurança depende apenas do número de polícias? A dimensão do efectivo é importante, mas não é o único factor de relevo.

      2. Estará o Diogo Noivo a sugerir que, se Portugal seguisse os conselhos da OCDE e tivesse menos polícias, então a sua segurança aumentaria e daí decorreria maior desenvolvimento económico? Eu acho que não…
        Eu calculo que o conselho da OCDE nada tenha a ver com o fomento da segurança e da ordem pública em Portugal, mas tão-somente com a redução das despesas do Estado português…
        E é nesse sentido que digo que, se querem analisar o número de polícias, então também devem analisar os números de diversas outras categorias de funcionários públicos. Porque todos eles constituem despesas do Estado português.

        1. A sugerir o quê, Lavoura? Eu já tinha ouvido que a linha que separa o ‘spin’ da demência é ténue, mas acho que só agora percebi exactamente o quão ténue é.

      3. Há gente tão formatada na ideia que os países se governam com folhas de Excel, que nem conseguem compreender a diferença entre teorias económicas e prática política.

        Imaginemos que estas pessoas levam o carro ao mecânico porque a suspensão não trabalha. Achariam perfeitamente natural que o mecânico dissesse:

        Olhe Dr. tem de trocar a mulher por uma mais leve se não o carro avaria.

        1. Tomo boa nota que o caro jo decidiu responder aqui e não mais acima. Registo com agrado.
          Quanto à metáfora, temo que vai ter que explicar melhor. Em que medida se relaciona com o que estamos aqui a debater?

          1. Vejamos, eu sei que a economia já se está a colocar na posição de religião.

            Tal como os seguidores de uma religião em particular os seguidores de teorias económicas consideram que as mesmas têm resposta para tudo e em tudo devem ser utilizadas.

            A polícia e a necessidade de segurança é, até no entender dos liberais mais radicais, uma função exclusiva do Estado. Ter um organismo económico internacional a perorar sobre a maneira como a segurança do Estado Português é feita é no mínimo deselegante, no máximo uma ingerência.

            Acho espantoso que haja portugueses que perguntem ao merceeiro como deve ser guardada a casa, ou que achem normal que o merceeiro deva ser ouvido sobre isso.
            Ou que perguntem ao mecânico se a mulher é muito gorda e se a devem trocar, só para manter a imagem.

          2. A segurança é essencial para a estabilidade financeira e para o aumento da qualidade de vida, dois dos objectivos da OCDE. Na verdade, a segurança é condição prévia ao desenvolvimento económico sustentado. Logo, é normal e desejável que a OCDE a considere um factor merecedor de atenção. O lamentável é que trate o tema desta maneira.

          3. “Em que medida se relaciona com o que estamos aqui a debater?”

            Penso que o Jo usa o sistema continental . Para o peso, o kilograma

      4. Diogo há anos que ouço que a criminalidade está a descer, em Portugal. Ponha-se a policia a vigiar as matas.

  8. Eu gostaria de saber se, além de se pronunciar sobre o número de polícias, a OCDE também se terá pronunciado sobre os números de diversas outras categorias de funcionários públicos. Por exemplo, os números de militares, de investigadores científicos, de educadores de infância, de magistrados do Ministério Público, de assistentes sociais, de enfermeiros, de funcionários do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, etc etc etc. Tudo números interessantíssimos e sobre os quais a OCDE certamente que poderia dar valiosos conselhos a Portugal.

      1. Tenho mais que fazer. Literalmente.

        E os excertos que vi referidos – neste post e um outro, em que a OCDE sabiamente vaticina, ou prognostica, ou aposta, que o desemprego em Portugal não diminuirá mais – não me sugerem que a leitura valha muito a pena.

        1. Não te esqueças de ir dar banho ao cão. Além do mais, esse é um trabalho útil que está ao teu alcance.

  9. Em relação ao aos polícias/GNR dado no exemplo, só considero uma coisa estúpida e acredito o relatório tenha alguma razão.

    Que é o facto de o trabalho de secretária, limpeza, bar, refeitório nestas instituições ser feito por elementos destas forças, o que é só idiótico, além de ter um custo muito superior ao que seria normal (numa empresa), impede que estes façam um dos seus deveres mais importantes. Só nestas instituições é que o pessoal da limpeza ganha acima 1200/1300€/mês.

    1. Como escrevo no final do post, “[c]oisa diferente é saber se não teremos demasiado polícias alocados a funções designadas como ‘não operacionais’ (administrativas, de apoio logístico, e outras semelhantes), mas disso a OCDE não fala”. Não duvido que a organização do efectivo possa ser melhorada – e muito -, mas isso não é o mesmo que dizer que há polícias a mais. Desde logo, o relatório da OCDE não o demonstra.

      1. Não o demonstra porque estes sapateiros estão a tentar-se colocar muito acima do chinelo.

        Vejo que concorda comigo: é estúpido dar pareceres sobre segurança interna baseados somente no rácio entre a população e o número de polícias.

        Também não é muito inteligente dar crédito a este tipo de relatórios.

        Se a OCDE se preocupasse em explicar porque tem falhado consecutivamente as previsões que tem feito sobre Portugal já estaria a falar de algo que deve conhecer. E já agora explicar porque é que pensa que, depois de falhar tanto, ainda merece crédito.

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