
É quase impossível exprimir o sentimento de perda perante o desaparecimento de Mário Soares, o verdadeiro fundador do regime democrático, que a ele deve praticamente tudo. Na verdade Mário Soares foi simultaneamente a maior figura da oposição ao regime anterior, o político combativo que enfrentou na rua a deriva totalitária durante a revolução, o homem que construiu a nossa constituição e depois aceitou revê-la num sentido mais liberalizante, e finalmente o homem que comandou a integração de Portugal na Europa. Três vezes primeiro-ministro, duas vezes presidente da república, Mário Soares é seguramente a maior figura política do actual regime constitucional.
Nesta hora em que nos deixa, acho que a melhor forma de o recordar é evocando as palavras de André Malraux em 1946 sobre outro grande estadista, o General de Gaulle, cuja manifestação nos Champs Elysées contra o Maio de 1968, aliás inspiraria Soares no comício da Fonte Luminosa: “Conheci um número relativamente elevado de homens de Estado, mas nenhum — e de longe — que tivesse a sua grandeza. Para compreender a sua acção é preciso não esquecer que ele é um homem de destino e que sabe que o é. O homem de um grande destino, talvez trágico, de qualquer forma dramático… Fazem-me rir todos aqueles grotescos que lhe pedem contas. Não o seguimos para sermos pagos. Ele não deve nada a ninguém“. É o país em geral que tem uma dívida enorme a Mário Soares e que, neste momento em que nos deixa, deveria reconhecer adequadamente.

o boxexas comportou-se como Kerensky até ficar borrado de medo
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A Ganda Alez Bico! Sábias palavras de quem também deu o corpo ao manifesto. Bem me lembro de ver o Alez Bico nos corredores da Boa Hora conjuntamente com Mário Soares a defender pro bono os detidos pela PIDE. Espero que tenhas chegado longe. Abraço fraterno, meu ganda democrata
Ó Alan veja o que aconteceu com o Reino Unido na década de 70. Parece que também faliram. Aliás após as revoluções é normal os países não ficarem lá muito bem em termos financeiros, sobretudo com as fugas de capitais e das supostas elites feitas com o antigo regime.
“Fala-nos do Dom.
E ele respondeu:
Dais muito pouco,
quando dais aquilo que vos pertence.
Quando vos dais a vós mesmos
é que dais realmente.
(…)
E que é o medo da miséria,
senão a própria miséria?
(…)
E para o homem generoso,
procurar aquele que vai receber
é maior alegria do que dar.
E haverá alguma coisa que possais conservar?
Tudo quanto possuis será dado um dia.
Portanto, dai agora,
para que o tempo de dar seja vosso
e não dos vossos herdeiros.
(…)
Procurai primeiro
merecerdes seres doadores
e instrumentos de doação.
Porque, em verdade,
é a vida que dá à vida,
e quando julgais ser doadores,
sois apenas testemunhas.
E vós que recebeis
– e todos sois doadores –
não atireis para cima de vós
o peso da gratidão,
sob pena de impordes um jugo
a vós mesmos e àquele que dá.
Mas elevai-vos
juntamente com o doador,
usando os dons como asas.
Porque ligar demasiada importância
à vossa dívida
é duvidar da sua generosidade,
que tem por mãe a Terra magnânima
e Deus como Pai.”.
Khalil Gibran in O Profeta
Deus te acolha, Mário.
Alan, aqui para a gente, o Soares foi sempre um tipo em que a cena do medo nunca o assistiu. Lembra – se da Marinha Grande, ou do processo do assassinato de Humberto Delgado? Ou quando o homem esteve preso no Limoeiro?
Um homem com H grande, a figura que o tempo julgará como um acima de todos os outros, aquele que colocou o interesse dos ideais acima do seu, que corajosamente se ergueu contra os poderes do Estado Novo e investidas da esquerda radical no pós 25 de Abril. Polémico, lutador e agitador ficará para a eternidade com o epíteto de dinossauro politico. Nunca votei Soares, mas um grande obrigado.