
Na segunda-feira, dia 2, o Observador deu grande destaque a um trabalho de fundo sobre a precariedade laboral na Uber. Um dia depois, dia 3, o mesmo jornal publica uma notícia onde se refere que os taxistas exigem nova reunião com o Governo, se queixam dos “ilegais” (leia-se Uber e Cabify), e alertam para a “revolta” que sentem. Por outras palavras, o primeiro texto debilita a reputação da Uber e o segundo, publicado 24 horas depois, dá nota da força dos taxistas. Pura coincidência, certamente.
Mas – hipótese académica – admitamos que não é uma coincidência. Partindo deste princípio, não é difícil encontrar nestas duas notícias o reflexo de uma campanha de comunicação contra a Uber. Em primeiro lugar, depois do desastre calamitoso que foi a última manifestação de taxistas, o sector do táxi precisa de enfraquecer o opositor e, por outro lado, de abrir espaço mediático para a sua causa (um espaço que tem estado fechado em virtude das alarvidades feitas e ditas durante a última manifestação, muitas das quais visaram jornalistas). Estas duas notícias, e em particular a sua sequência, servem estes objectivos na perfeição. Em segundo lugar, os taxistas precisam de mudar o terreno de jogo. Explico-me: até agora, o debate público Táxis versus Uber deu-se sempre no âmbito do serviço prestado ao consumidor. Ora, neste campeonato a Uber ganha 10 a 0. Por isso, os táxis têm que levar o debate para outro lado. Por exemplo, para o lado das condições laborais, um assunto intimamente relacionado com a lei e com a fiscalização, algo que (surpresa!) vai ao encontro da narrativa dos taxistas. Mais uma vez, estas duas notícias – sobretudo a primeira – cumprem o serviço.
Voltemos à realidade. A hipótese académica que aqui desenhei é um disparate. Se o sector do táxi mete as condições laborais na arena de combate dá um tiro no pé. E uma campanha contra a Uber tão óbvia no conteúdo, na forma e no timing seria de tal forma amadora que é mau demais para ser verdade. Só pode ser fruto de coincidência. Se não for, os taxistas têm um estratega de comunicação para demitir.

Caro Diogo Noivo:
Mas o Observador não é uma coutada dos auto-intitulados liberais?
Portanto, não percebo a lógica da campanha contra a Uber.
Ou serão apenas auto-intitulados?
Há muitas outras coisas que não percebemos neste mundo.
É o que nos vale.
Caro Manuel Silva,
Já há algum tempo que não percebo muito bem o que é o Observador, o que talvez seja positivo. Mas note-se que, a haver campanha – que evidentemente não há – , ela não seria feita pelo Observador, mas sim pelo sector do táxi. O Observador é apenas o meio.
Quanto ao liberalismo pátrio, poderíamos escrever um longo ensaio em vários tomos e sinto que não chegaríamos a qualquer conclusão útil.
“até agora, o debate público Táxis versus Uber deu-se sempre no âmbito do serviço prestado ao consumidor. Ora, neste campeonato a Uber ganha 10 a 0”
Ou foi feito um levantamento exaustivo ou alguém anda a fazer “spin” pela Uber (mesmo que involuntário).
No fundo o post afirma:
A Uber é melhor que os táxis e quem diz o contrário mente.
Não é uma maneira muito isenta de tratar um assunto.
Dizer que, em Lisboa e em matéria de serviço ao cliente, a Uber é melhor do que os táxis é tudo menos estranho ou inaudito. Basta experimentar os dois serviços e perceber. Mas pedirei ao Pedro Correia orçamento para que doravante, no DELITO, passemos a realizar estudos científicos exaustivos.
Por outro lado, por razões que não vêm ao caso, conduzo pouco e uso táxis e Uber em Lisboa e em Madrid com uma frequência quase diária. Sem margem para dúvidas lhe digo que: (i) os táxis em Madrid são incomensuravelmente melhores que os táxis em Lisboa – razão pela qual a Uber me parece menos competitiva na capital espanhola; (ii) a Uber em Lisboa presta um serviço ao cliente que os táxis, ano após ano, se mostraram incapazes – e indisponíveis – para prestar.
(já agora, e sem querer interromper ou aborrecer, o post não é sobre a qualidade do serviço prestado).
os táxis em Madrid são incomensuravelmente melhores que os táxis em Lisboa
Em que é que são melhores? Gostaria que detalhasse. São mais rápidos a atender a chamada? Os automóveis são mais confortáveis? Os condutores são mais atenciosos? Ou quê?
Mais confortáveis, mais limpos, e os motoristas mais educados. Informação determinante?
Caro Diogo Noivo:
Três coisas me intrigam no serviço de táxis em Lisboa, que uso cada vez menos, vou a pé ou de Metro.
Uma coisa é a escolha administrativa dos táxis nas praças. Se estiver em 1.º lugar um a cair de podre, com um taxista macambúzio, barbudo e a cheirar mal, e há demasiado disso em Lisboa, o cliente tem de ir nesse, pois não pode optar por outro com óptimo aspecto e um taxista mais uberizado no aspecto, que também há muitos, felizmente.
Afinal,quem paga a corrida?
O cliente ou o senhor da ANTRAL?
E onde está a liberdade de escolha?
Nas lojas eu só vou à que quero.
A 2.ª é a relação qualidade preço, muito pior do que em Espanha, que também conheço razoavelmente bem.
A 3.ª é a razão porque não se modernizou, e teima em não o fazer, o sector dos táxis?
Talvez a minha 1.ª dúvida explique um pouco essa razão.
Dúvidas que partilho, caro Manuel Silva. Parece-me perguntas óbvias e mais do que legítimas. Quanto à última, julgo que a resposta mais imediata é falta de concorrência real.
Você tem que tomar o primeiro táxi da fila porque os outros taxistas se recusam a fazer o serviço. É muito simples – os taxistas defendem-se corporativamente uns aos outros, tal como muitos outros profissionais (os médicos, por exemplo) fazem. Os bons taxistas recusam-se a fazer concorrência aos maus taxistas, da mesma forma que os bons médicos se recusam a dizer mal dos maus médicos.
É o corporativismo, uma tradição muito arreigada entre os portugueses. Não se trata especificamente dos taxistas.
“(já agora, e sem querer interromper ou aborrecer, o post não é sobre a qualidade do serviço prestado).”
O post não é sobre o serviço prestado, mas fala dele, logo: ou tem partes irrelevantes para o assunto, ou também é sobre o serviço prestado.
O meu comentário também não é sobre o serviço prestado. É sobre o spin involuntário que considera bom aquilo que é baseado em novas tecnologias, só porque são novas, e se surpreende por motoristas não terem os meios para produzir spins inteligentes que agradem à nossa classe bem-pensante.
Já reparou que nunca ninguém liga a pormenores, como por exemplo a Uber começar a atividade por cá ilegalmente e seguidamente ter uma lei feita à medida? Parece que desde que desde que se tenha boa imprensa as leis não interessam muito.
É um fenómeno que tem mais semelhanças com a eleição de Trump do que parece à primeira vista. Quem consegue uma boa imagem nas redes sociais e conseguir arrastar os media com ele, até pode assassinar alguém em Manhattan e ser eleito presidente.
Sobre o assunto, recomendo o post “Fábulas do ovo e da galinha” n’O Insurgente.
Obrigado. Irei ler.