O nascimento de Jesus Cristo e a política


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The Adoration of the Magi  
ANTONIO VIVARINI (Murano, 1440-1480) 
Gemäldegalerie, Berlin

 

O Natal é vivido pela maioria das pessoas como um acontecimento “familiar”, no qual se celebra o nascimento do Rei dos Judeus (embora nas actuais sociedades pós-modernas já muito poucos façam essa associação). Nesta lógica de pensamento, a época natalícia é sobretudo um fenómeno social com um brutal impacto económico. No entanto, e remontando às origens do Natal, na pequena cidade de Belém, vislumbrava-se algo mais do que a componente familiar/social. Efectivamente, não foi preciso muito tempo para que o nascimento de Jesus Cristo fosse assumindo um carácter político e para que lhe tivesse sido atribuído uma dimensão para lá da manifestação familiar/social.

 

O Império Romano acabaria por constatar essa tendência nos seus terrítórios, ao ver transformado um fenómeno social e religioso numa questão política. A fundação da Igreja de Roma por São Pedro, o Pescador, e o respectivo “aval” do Império acabou por ser uma resposta política a um problema que extravasava as esferas social e religiosa. Porém, esta componente política raramente é associada ao nascimento de Jesus Cristo e ao Natal na altura das pessoas se reunirem na noite da Consoada. Aqui, sobressai sempre o espírito familiar daquela noite de Belém. Mas, repare-se que mesmo nesse ambiente surgiu o primeiro sinal político, com a presença de emissários (Três Reis Magos) que, vindos do Próximo Oriente, deslocaram-se à Cisjordânia para ver o recém nascido “rei” dos judeus. Aliás, este acontecimento gerou de imediato preocupações políticas na corte do Rei Herodes, sentindo-se este ameaçado com o nascimento de Jesus Cristo.

 

Tal como se veio a verificar mais tarde, as preocupações de Herodes adensaram-se, tendo o nascimento de Jesus Cristo transformado-se numa problemática de poder para a corte hebraica, originando as mais vis e perversas tácticas de propaganda e contra-informação, de forma a fragilizar o novo “Rei dos Judeus” perante o Império e mais tarde face ao Sinédrio. Apesar disto, a verdade é que o Natal é unicamente associado a uma noite idílica de criação, esquecendo-se quase sempre os ventos turbulentos que tal acto trouxe consigo. Por isso, seria um exercício interessante e curioso se as famílias aproveitassem esta época festiva para se reunirem à mesa não apenas para comer e trocar oferendas, mas para discutir e debater a sociedade que os rodeia, os seus problemas e desafios. Estariam a celebrar verdadeiramente o nascimento de Jesus Cristo.

 

Publicado originalmente no Diplomata a 23 de Dezembro de 2015.

3 comentários em “O nascimento de Jesus Cristo e a política”

  1. Hoje mais do que nunca me interrogo da pertinência de se comemorar o Natal. Por várias ordens de razão
    A primeira, a data da natividade, que qualquer assinante do canal história, sabe não fazer sentido. Segundo o facto do nascimento de Jesus Cristo não constar em todos os Evangelhos e os reis magos, salvo erro, só aparecerem num deles. A terceira relacionada com o Evangelho segundo João, onde nem o nome da mãe de Jesus é referido. Quarto, ser o Cristianismo do principio ao fim uma versão low cost do judaísmo. Porque o comemoro? Gosto de bolos

  2. Muito bem.

    Não se celebra o nascimento de Jesus sem que este nasça em cada um. Na realidade o nascimento de Jesus não é um acontecimento em família, mas para constituir família com todos os demais, “Meus pais e meus irmãos são os que fazem a vontade do Pai”.

    Se “ninguém vai ao Pai senão por MIM” e se “sem Mim nada podeis fazer”, então, para que isso aconteça é necessário desejar o Prometido do Pai. A obra de Jesus compreende-se à luz da ressurreição, uma vez que o tal Prometido, O Espírito Santo, o Paráclito, é-nos oferecido através do Sopro de Jesus sobre os seus apóstolos e discípulos depois desse acontecimento.

    Obviamente que o que nos é oferecido através desse Sopro não é somente o renascimento, mas também a ressurreição da morte ontológica, a morte do Ser. Esta morte só é vencida através desse Espírito prometido que nos impele a agir em conformidade com a tal Vontade que se vai descobrindo, proporcionando-nos neste agir a união ao Filho e ao Pai, pois são estes a conclusão da promessa: “Se alguém me ama, guardará a minha Palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada”. (Jo 14,23)

    A questão política na vida de Jesus é bastante subtil. Esta subtileza pode ser encontrada também quando Pilatos oferece ao público a possibilidade de se soltar Barrabás ou Jesus. Quando ele refere “quem quereis que vos solte?”, usa a tal subtileza, pois Jesus, ou a afirmação de ser o Filho de Deus (Pai), tem origem na palavra judaica Bar Abba (Filho -Bar – de Deus ou Filho do Pai – Abba). Como ambos, Barrabás e Jesus, possuem a mesma nomeação, Bar Abba, fica espelhado que o destino de Jesus seria o da Cruz. Cruz que é escândalo para Judeus e semente de cristãos. Mas também símbolo da vitória, a vitória sobre o mundo e sobre a morte. Mais ainda, o resgate vitorioso de todos nós manchados pelo pecado.

    Muito poderia dizer-lhe, Alexandre, sobre a envolvente política na vida de Jesus. Porém concluo da seguinte forma: Jesus não é um acontecimento político, Ele é a Ressurreição e a Vida.

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