Dez livros para comprar no Natal


Pedro Correia,
 

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Livro nove: LX80, de Joana Stichini Vilela e Pedro Fernandes

Edição Dom Quixote, 2016

272 páginas

 

Por mais que as mensagens em voga nos instiguem a “viver o presente”, seja lá o que isso for, o revivalismo é uma fonte inesgotável de descobertas capazes de somar o conhecimento ao prazer quando transpostas para livro. É o caso deste volume, que merece ser cumprimentado pela escrita ágil e elegante, aliada ao notório bom-gosto gráfico. LX80 insere-se numa série, que já nos conduziu às duas décadas anteriores, sempre centradas na capital.

Está paginado nuns casos em forma de revista e noutros como caderneta de cromos, percorrendo toda a década que entre nós começou com a comoção nacional gerada pela trágica morte do primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro e terminou com Marcelo Rebelo de Sousa a divertir o País com um mergulho no Tejo que animou a campanha autárquica de 1989 sem no entanto contribuir para o seu sucesso nas urnas em Lisboa.

Foi uma década de nomes inconfundíveis – e em certos casos irrepetíveis. A década de António Variações, Ana Salazar, Kruz Abecasis, Tomás Taveira, José Maria Tallón, Carlos Paião, Fernando Chalana, Paulo Futre, Pedro Caldeira, Dona Branca. A década do Frágil e do incêndio do Chiado. A década das Amoreiras (que nasceram) e do Monumental (que morreu).

Também a década do Pão com Manteiga e do Independente. A década do Kilas e do Serafim Saudade. A década das rádios-pirata e do Bloco Central. A década da Vila Faia e dos Heróis do Mar. A década da televisão a cores e da banca privada. A década dos aquaparques e do bebé-proveta. A década de muitas e variadas e por vezes desvairadas siglas: AD, UHF, PRP, TSF, FMI, CEE.

Foi ainda a década da vitória do Sporting por 7-1 em Alvalade, frente ao Benfica – a diferença mais desnivelada de sempre entre os dois históricos rivais do futebol português.

Uma década inesquecível, aqui revivida por Joana Stichini Vilela e Pedro Fernandes. Para alguns de nós parece ter sido ontem, para outros terá sido há uma eternidade. O livro, confesso, deixou-me nostálgico: nada a objectar, tudo a favor.

9 comentários em “Dez livros para comprar no Natal”

  1. Pedro, será que revivemos o passado como ele deveras aconteceu, ou como pensamos que ele aconteceu? Ou deveria ter acontecido? O passado com que vestido pelas mãos do presente. O passado visto pelo passado nunca parece ser tempo irrepetível.
    Com o passado poderia suceder o mesmo como quando escolhemos a nossa música favorita. Foi deveras a música, a letra, que nos cativou, ou o sentimento, uma emoção, que nos acompanhava quando a ouvíamos? Um sentimento apanhado na rua que em nada se relacionava com o que escutávamos? Ou uma emoção, bem singela, como quando comemos uma fatia de bolo.

      1. Os mortos falam pela boca dos vivos.

        “O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol”
        Eclesiastes

  2. O passado, e as coisas acontecidas, como o berço da ficção? E não a possibilidade, que acompanha o amanhã? Alimentaríamos assim o sonho com passados que nunca existiram.
    Bebo chá inglês…

    1. De facto a censura hoje em dia pratica-se essencialmente sob a capa da correcção política.
      A lista dos interditos porque “parece mal” engrossa de mês para mês. Abrange ideologias, sexo, género, minorias, maiorias, etnias, crianças, adolescentes, mulheres, velhos, deficientes, doentes disto, doentes daquilo, pobres, remediados, brancos, pretos, mulatos, ciganos, muçulmanos, protestantes, testemunhas de Jeová e sei lá que mais.
      O Ricardo Araújo Pereira deu nos últimos dias duas excelentes entrevistas – à Visão e ao DN – a falar disso.

      O livro que recomendas merece de facto uma leitura atenta. Já o tinha mencionado, aqui:
      http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/sugestao-um-livro-por-dia-8719270

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