Flamante Delito


Rui Rocha,

Nanda.jpg 

Por ser verdade e me ter sido pedido, deixo nas linhas que se seguem, e para memória futura, público testemunho dos principais pontos analisados, com profundidade desigual mas constante brilhantismo, no jantar do Delito de Opinião que ontem decorreu algures em Lisboa.

Presentes, para além deste vosso servidor, a Teresa Ribeiro, a Ana Vidal, a Isabel Mouzinho, a Francisca Prieto, a Marta Spínola, o Luís Naves, o Diogo Noivo, o Zé Navarro, o Luís Menezes Leitão, o Fernando Sousa e o Pedro Correia. Perguntados, todos aos costumes dissemos nada.

Os trabalhos iniciaram-se com uma sempre salutar comparação entre Lisboa e Porto, as características dos habitantes locais, os modos de vida, os aporrinhamentos e as consumições. Estando algo distraído com a escolha do prato principal, imagino que o Porto tenha aqui obtido larga vantagem. Parece-me bem. Falou-se ainda sobre o Alentejo em geral e sobre uma célebre manifestação em que se exigia a abertura de um teatro em Barrancos. Todavia, vendo o que aconteceu ao Henrique Raposo quando cometeu prosa sobre o tema, entendo que o que a este respeito se passou na mesa ali deve ficar.

Ao contrário, quando se trata de abastecer o depósito, não se deve ficar aqui e nem sequer em Badajoz. O Diogo Noivo, que tem nesta matéria abundante experiência, confidenciou que os postos de combustível raianos alinham os preços pelos que se praticam do lado de cá. Se queremos abastecer bem devemos adentrar o país vizinho e fazer mais uns quilómetros. Com a devida licença do Ministro Caldeira Cabral, o Diogo mandou-nos a Mérida.

E falámos de Sócrates. O veredicto foi claro. O programa do seu 1º governo constituiu um dos melhores diagnósticos das necessidades reais do país. E sim, se não soubéssemos do resto, uma parte substancial do primeiro mandato mereceria uma nota positiva. Todas estas conclusões, que também subscrevi, foram postas em cima da mesa ainda antes de ser aviada pelos presentes a primeira garrafa de vinho, o Luís Lavoura caia já aqui redondo no chão se isto não for verdade.

De Sócrates saltámos para os mass media o que vale por dizer que fomos do lume para a frigideira. Da frigideira foi precisamente de onde nos chegou o bife que despachámos com regimental aprumo e galhardia. O Zé Navarro desenvolveu uma elaborada teoria das fontes jornalísticas. Em resumo, para que brote água é preciso que a fonte queira lixar alguém.

Na vertente internacional, decidiu-se por unanimidade e aclamação que Trump é estúpido, que a Hillary fez uma má campanha e que os americanos não gostam dela. Não foi todavia possível chegar a consenso relativamente ao facto de os resultados das eleições terem sido determinados por os americanos serem intrinsecamente bimbos. Iniciou-se a este propósito uma acesa polémica que evoluiu para uma profunda análise antropológica do homem branco e pouco instruído residente no município de Odivelas. O chamado Homem de Rust-Velas.

Continuou a discussão em direcção a Leste, sempre procurando o necessário equilíbrio geopolítico. Praga ou Budapeste? Pois divisão de opiniões. Que Praga, defendeu a Ana Vidal, não desfazendo. Que Budapeste, insurgi-me eu, creio que acompanhado pelo Luís Naves que tem com a Hungria certa afinidade.   Na dúvida, acabou por assentar-se, até nova ronda negocial, em recomendar-se a visita das duas. Praga no Inverno e Budapeste no Verão. Registe-se, em todo o caso, o voto de vencido do Zé Navarro que entre uma e outra gritava Nápoles.  Por mera coincidência, tais entusiasmos acabaram por ocorrer em momentos em que a baliza defendida pelo Ederson se encontrava em perigo, circunstância que levou o Luís Naves a exigir que se lavrasse protesto escrito pela falta de patriotismo do Zé. Sobre a Hungria e com relevância, ficámos ainda a saber que não há especial inconveniente em entrar num novo ano subidos a uma cadeira desde que o momento seja seguido pela entoação do hino húngaro.

Houve mais? Seguramente. Mas como disse Zeinal Bava a Mariana Mortágua na Comissão de Inquérito, “não me lembro”.  E com dizer “não me lembro”, defende o Zé Navarro, Bava disse tudo para quem o quisesse ouvir. Tal como eu aqui. Agora, que prestámos uma singela homenagem a Fernanda Tadeu pendurando os nossos casacos nas costas das cadeiras, isso não vos posso esconder.

delitos.jpg

31 comentários em “Flamante Delito”

  1. O melhor do jantar foi a tua inédita aparição em repastos do DELITO, Rui. Honraste-nos enfim com a tua presença. E cá estou eu, honrado também, a
    fazer questão que tal facto fique mencionado em adenda à acta.

  2. Pela leitura da “acta”, julgo que correu tudo harmoniosamente e que assim vai continuar, aqui no Delito.
    Só não apreciei a referência que fez ao Lavoura e que até me pareceu um bocado despropositada, desculpe lá. Temo que o homem tome essa citação por um elogio e não faça o mais pequeno esforço para se emendar…

  3. O que eu constato é que, de todos os presentes neste jantar, uma boa parte somente faz parte do Delito de jure, porque de factu raramente ou nunca nele escreve. Pelo que, isto é mais um jantar de amigos do que um jantar de blogue…

    1. E, tomando por boa a sua conclusão, um dos amigos – que escreve num blogue – entendeu deixar no blogue em que escreve, algumas palavras sobre o jantar. O blogue é coisa privada que só frequenta quem quer e fazendo-o de absolutamente livre vontade. Não se rege por imperativos de coisa pública (que essas, aliás, em matéria de regras estão cada vez mais longe de constituir bom exemplo; excepto na arte de expelir normas esmagadoras para o cidadão, ou melhor o ” contribuinte” e de que, no que concerne a um módico de decência e reciprocidade, se colocam elas descaradamente a salvo).

      Portanto ao jantar em causa, e dentro dos limites da boa educação, que não vejo aqui feridos, é absolutamente lícito e da inteira disponibilidade do autor chamar-lhe o que bem entender. De facto e de direito.

      Já você parece reger-se por uma notável vontade de, digamos, chatear.

      Costa

  4. É imperdoável que tirem uma fotografia depois da mesa desfeita e com os casacos espalhados pelas costas das cadeiras. Vê-se logo que a Helena não esteve presente.
    O nosso leitor Luís Lavoura deve ter comentado para com os seus botões que “eles são um pouco desorganizados”.
    Mas tirando isso, espero que o próximo convívio possa coincidir com uma das minhas deslocações a Portugal.
    Abraços para todos e obrigado ao Rui pelo relato.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *