Do Princípio ao Fim (17)


Bandeira,

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Se era para escrever sobre James Joyce, eu antes queria ter aludido ao início de The Dead, a última história em Dubliners: “Lily, the caretaker’s daughter, was literally run off her feet”. Olhe esse “literalmente” – Acha que Joyce teria sido capaz de o escrever por engano? Sherlock Holmes diria que o erro (my dear Watson) estava em tomar o erro por erro, porque não havia erro de todo. A haver um, seria o de considerar que toda aquela gente da sociedade de Dublin que corria para a festa e cujos casacões a criadita tão descalçadamente amontoava nos braços estavam vivos, na mais bela acepção da palavra; não o estava sequer a criadita, apesar de não ser gente da sociedade de Dublin. Eu iria por aí adiante, até ao ponto em que Gretta conta ao atónito Gabriel, seu marido, a história do rapaz de Galway que aos dezassete anos morrera de amor por ela. Eu podia ter escrito sobre isso e ter-me-ia sentido justificado porque a minha própria mãe, menina ainda, em inocência levou um rapaz como o de Galway a um fim semelhante. E depois contar-lhe-ia a si, agora que nem Gretta nem Gabriel – ou a minha mãe e o meu pai – nos podem ouvir, como o jovem pretendente deixou à minha mãe uma nota com uma única e ingrata palavra: “Ingrata”. E nos céus de Lisboa, como nos de Dublin, nevaria e a neve seria as almas de todos os mortos do mundo.

 

Se quisesse falar de pretendentes podia também ter dissertado sobre Ulysses, o pau-de-sebo da literatura e um livro a que podemos chamar livro sem risco de hipérbole porque, usando o critério do avô de João Ubaldo Ribeiro (perdoe se erro em um ou outro detalhe, ou mesmo no texto todo, estou sem tempo e cito de memória), não merece tal designação um volume que não se tenha em pé sozinho. Existirá em toda a literatura final mais excitante do que esse em que Molly Bloom dá o “sim” e que ditou a interdição da obra no então desenvolvidíssimo mundo falante de inglês? Se existe, por favor envie-me um exemplar em envelope inviolável e numa língua que eu seja capaz de ler.

 

Porque perdi a minha mãe há três meses e ganhei um neto há três dias, todavia, forçoso era que falasse sobre o princípio e o fim de Finnegans Wake, que Joyce escreveu, melhor, ditou já velhinho e praticamente cego. Ele dizia não perceber o problema da suposta ilegibilidade da obra: quem não a compreendesse lendo, que o fizesse em voz alta e de súbito tudo, e tudo é a vida na mais bela acepção da palavra, faria sentido. Não por acaso um físico, um homem bom e curioso, baptizou certa partícula elementar com o nome “Quark”, nome até então tão enigmático quanto a tal partícula e que emerge em igualmente enigmática frase do livro. Eu já lhe tinha dito que perdi a minha mãe há três meses e que ganhei um neto há três dias? O tempo que mediou estes dois extraordinários acontecimentos, vivi-o como um Finnegans Wake, um amontoado de partículas elementares que, lidas em voz alta – vividas – parece fazerem sentido. A última frase de Finnegans Wake, “A way a lone a last a loved a long the”, é também a primeira, e prossegue na primeira, que é também a última: “riverrun, past Eve and Adam’s, from swerve of shore to bend of bay, brings us by a commodius vicus of recirculation back to Howth Castle and Environs”. E de súbito tudo faz sentido, outra vez, e outra vez, e outra vez. “Seja”, dirá o sorumbático leitor, “mas leu mesmo todo o Finnegans Wake?”. É claro que não. Pensa que sou o quê, louco?

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