O dia mais longo da minha vida


Pedro Correia,

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Faz hoje quinze anos ocorreu o dia mais longo nas vidas de muitos de nós. Uma data que poderia passar à História como o “dia da infâmia” se essa designação não tivesse sido escolhida por Franklin Roosevelt para reagir ao cobarde bombardamento de Pearl Harbor pela aviação nipónica, em 7 de Dezembro de 1941.

Parecia uma tranquila terça-feira de Verão como qualquer outra em Nova Iorque. Mas aquele 11 de Setembro de 2001 – quando o século XX terminou de vez e este século teve o seu verdadeiro início, afogado em estilhaços e cinzas – assinalava afinal uma fronteira histórica.

Daqui a centenas de anos os herdeiros dos nossos herdeiros evocarão esta data como nós hoje lembramos a queda de Constantinopla (29 de Maio de 1453, outra terça-feira) ou a tomada da Bastilha (14 de Julho de 1789, também numa terça-feira). Uma data que fez vacilar, talvez para sempre, as linhas divisórias que críamos imutáveis entre segurança e liberdade.

 

Naquela trágica manhã, as Torres Gémeas do World Trade Center – símbolos do orgulhoso poderio financeiro norte-americano que pareciam desafiar o céu com a sua aura de fortalezas inexpugnáveis – desmoronaram-se como pedras de dominó. E pressentimos logo ali que um pedaço da nossa existência mudaria para sempre. A era global tornava-se também na era do terror sem fronteiras nem barreiras, à mercê dos caprichos homicidas de uma guerra insidiosa que passou a ter por palco os mais inesperados e banais pontos do quotidiano de qualquer de nós. Uma estação ferroviária, um bar, um autocarro, um hotel, uma praia, uma avenida, um templo, um pátio de escola.

O casamento do mais impiedoso fanatismo ideológico com a tecnologia de vanguarda consumava-se ali, naquelas torres em chamas – prelúdio de muitos outros incêndios que devastariam tantos países na década e meia subsequente. Com múltiplos pontos negros em cidades mártires: Londres, Madrid, Paris, Istambul, Bombaim, Bagdade, Moscovo, Haifa, Jerusalém, Ancara, Beirute, Riade, Cabul, Grozni, Bruxelas, Tunes, Mombaça, Davao, Casablanca, Carachi, Charm el-Cheik, Amã, Mossul, Islamabade. E nas ilhas de Bali, Djerba e Mindanau. E na Península do Sinai. E no Quénia. E na Nigéria.

 

Estava em casa à hora do almoço e assisti a tudo na televisão, como aconteceu a tantos de nós. Logo acorri ao jornal, iintegrando-me numa das equipas de trabalho que se mantiveram em laboração contínua, produzindo sucessivas edições. Surgiria nas bancas um jornal diferente, praticamente sem outro tema: naquele dia, na redacção do Diário de Notícias, estávamos convictos de que não escrevíamos só para o leitor da manhã seguinte. Estávamos também a dar um contributo para o rascunho da História.

E sabíamos de algum modo que tudo seria diferente a partir daí.

 

Cerca das três da madrugada de 12 de Setembro, quando abandonei enfim as instalações do jornal e cruzei em ritmo fatigado as ruas circundantes, entretanto despovoadas, percorreu-me uma sensação de estranheza: havia calor mas senti frio. As imagens das vítimas indefesas de Nova Iorque, com os seus apelos lancinantes e as suas preces desesperadas, não me saíam da cabeça.

Ainda cá estão quinze anos depois.

0 comentários em “O dia mais longo da minha vida”

  1. “Daqui a centenas de anos os herdeiros dos nossos herdeiros evocarão esta data como nós hoje lembramos a queda de Constantinopla (29 de Maio de 1453, outra terça-feira) ou a tomada da Bastilha (14 de Julho de 1789, também numa terça-feira). Uma data que fez vacilar, talvez para sempre, as linhas divisórias que críamos imutáveis entre segurança e liberdade.”

    Um bocadinho exagerado. Quando acontece do nosso lado parece sempre muito grande. Mas a vida continua e se não fosse este constante repisar dos media já pouca gente se lembrava disto. Como acontece aos genocídios no Ruanda, aos mortos na guerra do Iraque e a tantos outros acontecimentos que esquecemos num instante.

    Aliás se pensarmos bem até nos esquecemos de mortes que continuam a acontecer. Pensemos no que aconteceu com a indignação pelas crianças afogadas no Mediterrâneo:
    Devido à falta da atenção mediática certa, provocada por insuficiente poder financeiro, são tão olvidáveis que até nos esquecemos delas, mesmo sabendo que estão a morrer neste momento.

      1. Defina em que lado está e talvez eu assim lhe possa dizer se estou nesse.

        O lado onde o 11 de setembro é relembrado todos os anos várias vezes ao ano.

        Há também o lado de onde as crianças que se afogam todos os dias no Mediterrâneo vêm. E não me diga que são iguais.

        Já se morreu mais gente este ano no Mediterrâneo do que nas torres gémeas. Parece que estão a fazer-lhes uns monumentos em arame farpado por toda a Europa.

        1. Espantoso contorcionismo, que estabelece uma ligação directa entre os atentados da Al Qaida nos EUA há 15 anos e as mortes por afogamento no Mediterrâneo década e meia depois.
          E que é capaz de usar estas mortes para erguer trincheiras ideológicas.

          Em resumo: você não condena o 11 de Setembro nem o morticínio de Madrid nem os atentados em Londres nem os brutais homicídios de Paris porque são “deste lado”.
          O seu lado é portanto o da alegada equidistância moral entre assassinos e vítimas. Ou seja: tão culpado é aquele que põe a bomba como aquele que leva com ela.
          E ainda utiliza os afogados no Mediterrâneo como pretexto.
          Quase seria notável se não fosse repugnante.

          1. Parece que para si ou por mim ou contra mim.
            Quem acha que o atentado das torres gémeas não foi a maior catástrofe desde a queda de Constantinopla(?) é um leal seguidor de terroristas.
            Guarde lá a faca.
            O que eu lhe digo é que algumas catástrofes são bem mais mediatizadas que outras, e não é por isso que têm menos importância. O hábito que por vezes se tem de graduar o valor dos mortos conforme eles são televisionáveis ou não é lamentável.
            Pretende então que os mortos do mediterrâneo são assassinos e como tal menos merecedores que os de Nova Iorque?
            Ou só censura assassinos se os mortos forem pessoas do seu agrado?

          2. Censuro todos os assassinos. Não peço ao guru ideológico que me forneça a lista dos crimes bons e dos crimes maus para sair em defesa do indefensável.
            Deixo isso a seu cargo. Mas não lhe invejo a tarefa.

          3. Então, no seu entender, dizer que o atentado das torres gémeas não é a maior catástrofe desde a queda de Constantinopla é indefensável.

            Ou é só indefensável não concordar consigo?

            Tem de se explicar melhor, está a ficar confuso.

            Você censura todos os assassinos, só pensa que há assassinados de primeira e de segunda e pensa que afirmar isso é uma traição às suas vítimas de eleição.

            Repare os refugiados sírios fogem dos mesmos assassinos que deitaram as torres abaixo, no entanto os monumentos para eles são feitos de arame farpado.

      2. Está do lado dos árabes comunas oprimidos. Dos que querem vir viver para a terra dos opressores porque a vida no Ocidente é uma porcaria imunda governada pelo Diabo.

  2. Verdade, já pensei nisso tantas vezes: o século XXI começou realmente no dia 11 de Setembro de 2001. Coincidência: terça-feira sempre foi o dia da semana que mais detestei.

    1. Nunca mais conseguirei esquecer esta terça-feira, Teresa. As vidas de quase todos nós mudaram naquele dia. Todos nos lembramos onde estávamos, o que sentimos, as emoções que nos assaltaram, a profunda angústia ao observar tudo aquilo, a impotência perante o terror.

  3. Em quinze anos, o que se pensa do que aconteceu?
    Será que a história é feita com as mãos dos que pensam ter direito a comandar os destinos desta terra, que a cada dia é martirizada pelo fanatismo dos que seguem o ALÁ da sua glória!

  4. O Pedro fala por todos nós, nem mais nem menos.
    Um dia terrível, com a sensação talvez semelhante à “Queda do Império”? – depois de o percebermos.
    Estava no cafezinho do costume, no almoço, quando esta imagem que nunca se me apagará dos olhos, me fez suspender o diálogo e, por segundos, questionar que raio de filme era aquele, o que era aquilo àquela hora…a fracção de segundo necessária para entender que o mundo tinha mudado para sempre, longe de perceber até onde.
    O fim de uma era.
    O fim da segurança, da confiança, das fronteiras, literalmente.
    O terror e a dor espelhados naqueles olhares e em todos nós, vive agora ao nosso lado, ultrapassando-nos sempre.
    Um dia que ainda não chegou ao fim.

  5. Muito bem escrito. Devemos recordar estes dias (memórias) para que tenhamos noção do valor da segurança e da liberdade.

    1. É fundamental preservarmos e cultivarmos a memória, Sara. Desde logo para evitarmos repetir erros já cometidos. Erros trágicos, muitas vezes: subestimar o terrorismo foi um deles.

  6. Para o publico, em geral, nenhuma das transtornantes imagens daquele dia 11 de Setembro alguma vez se esvairá da memória.
    Para um jornalista, com acesso privilegiado ao pormenor da informação, acredito que a lembrança seja exponencialmente dolorosa.
    Foi o fim da inocência para o mundo, tal como o conhecíamos.

  7. Meu caro Amigo

    Como já lhe contei há uns anos também tive um dia longo.

    À 1 da manhã nasceu o meu neto mais velho, comemoramos por aqui os 15 anos dele neste momento.

    Às 11 da noite soube finalmente que o meu filho do meio, na altura à beira dos 29 anos, não estava no piso 44 da torre 2 à hora dos atentados pois a reunião que o tinha levado a N.Y. havia sido antecipada para a véspera ao fim do dia.

    Para além destas minhas “petites histoires” fica que muitas coisas mudaram num só dia na vida de todos nós à face da Terra e continuem a mudar como “consequência de”.

    Não é que essas coisas não acabassem por acontecer com o tempo, como sempre de forma gradual e sem ligação aparente, mas ali deu-se como que uma “revolução”.

    Grande abraço

    1. Teve o impacto de uma revolução, não duvido. Algo de nós ficou ali para sempre, fixado nas imagens daqueles condenados sem remissão.
      É motivo, meu caro, para felicitá-lo pelo 15.º aniversário do seu neto e do feliz acaso – ou o dedo do destino, como queiramos – que em boa hora permitiu poupar a vida do seu filho.
      Um abraço amigo.

      1. Meu caro

        Muito obrigado pelas suas palavras.

        Felizmente nunca saberemos se o meu filho podia lá ter “ficado” ou não, mas quis deixar o meu testemunho.

        É que leio por aqui e por ali muita gente a fazer grandiosos discursos, que acham muito bonitos, mas desconfio sempre que é gente que não imagina o que é passar umas boas horas em frente a um ecrã a pensar que um daqueles que “fugia” era talvez um familiar seu muito próximo.

        A maior parte das pessoas discursa sobre o seu amor à Humanidade mas depois, como é normal, preocupa-se mais com um terçolho que lhe apareceu de repente do que com um furacão do outro lado do mundo que matou dez milhares de pessoas…

        Outro abraço amigo

        1. Amar a Humanidade em abstracto é sempre o mais fácil, meu caro. Demasiado fácil, nos dias que vão correndo. O pior é quando surgem os casos em concreto: grande parte do humanitarismo da maioria evapora-se num ápice.
          É um gosto recebê-lo por cá.

  8. Dia 06 de Agosto de 1945 uma segunda-feira e o dia 09 de Agosto seguinte, uma quinta-feira, mereciam segundo o meu ponto de vista e na perspectiva do autor ocupar um simples parágrafo. A menos que só seja relevante o mal que acontece às terças-feiras.

    1. E porque não o dia 1 de Setembro de 1939, quando começou a II Guerra Mundial, na sequência do pacto germano-soviético, provocando quase 50 milhões de vítimas mortais?

      1. Porque não!
        Fosse essa a abordagem principal do seu artigo e eu diria que sim. Mas não é sobre grandes guerras que escreveu. Nem tão pouco sobre incursões militares. E, não sendo o fulcro da discussão disso não falarei.
        Nasci no tempo de “Hiroshima e Nagasaki”, esse ano que subverteu o calendário e contou menos dois dias.
        Para alguns que se arrastaram anos sob o efeito da bestialidade, de facto foi o “dia mais longo das suas vidas”. Para outros, não passou do dia mais curto das suas vidas, resumido a breves segundos.

          1. Pior do que diz, a minha “humanidade” morreu em 1965, algures em África.

  9. Caro Pedro:
    O 11/9 intriga-me deste ponto de vista.
    Depois de o homem ter avançado tanto no conhecimento, inclusive do seu próprio corpo – em essencial do imbricado e complexo cérebro – como é possível praticar tamanha crueldade.
    Mesmo sem nos esquecermos de que somos meio racionais meio animalescos, mesmo sem nos esquecermos de que o nosso lado selvagem, predador, nunca nos abandonou.
    E pior: parece estar a renascer com enorme vitalidade e violência, basta que nos lembremos dos comportamentos humanos na Síria, Coreia do Norte, Iraque, Afeganistão, Paquistão, Indonésia, Líbia, Tunísia, em Israel e na Palestina, em Madrid, Londres, Paris, Bruxelas, etc., etc.
    (Manuel Silva)

    1. Meu caro:
      Salvo erro foi Freud que nos ensinou como teve início a civilização: aconteceu no dia em que o homem primitivo substituiu a pedrada pelo insulto.~
      Infelizmente estamos a seguir o caminho inverso. Não é de agora: já tinha acontecido com o nazismo, quando cultores de música erudita e de poesia clássica conceberam o Holocausto.

  10. Também assisti em directo ao ataque do segundo avião à Torre. Antes disso apenas se via a outra Torre largando fumo.
    Assisti num café, onde estava mais gente que não se apercebeu do que se estava a passar. No início eu também não me apercebi – o som estava muito baixo -, parecendo-me, as primeiras imagens, que estavam a transmitir um filme de ficção. Mas, infelizmente, assisti a um desastre de grande dimensões, a um acontecimento histórico, que mudou substancialmente as nossas vidas e cuja data, como diz, vai ser lembrada por muitos e muitos anos.

    1. Depois daquela tragédia nada voltou a ser como dantes. É uma data que traça uma linha fronteiriça na história universal: o terror inscrito nos mais banais gestos do nosso quotidiano.
      Com a liberdade a ceder contínuo terreno de então para cá. Entre a liberdade e a segurança, a esmagadora maioria das pessoas prefere a segurança. É o instinto de preservação da espécie a funcionar.

      1. Boas

        E depois de todas as tragédias, veio mais uma, patrocinada pelo “nosso” Barroso e outros e, quantos anos levará mais o Iraque e todo o médio oriente a recompor-se daqueles “11 de setembros”? Quanto valerá agora 1 kg de segurança e um grama de liberdade?

        1. O Médio Oriente anda há muito mais tempo em ebulição contínua, como todo o século XX plenamente demonstrou. Apontar responsabilidades ao “nosso Barroso” é ignorar seis mil anos de guerras na região.

          1. Ângelo Correia
            Empresário. Presidente da Câmara do Comércio e Indústria Árabe-Portuguesa. Cônsul Honorário do Reino Hachemita da Jordânia em Portugal. Ex-ministro da Administração Interna e Ex-deputado escreveu em 2004:

            “Paradoxalmente, a intervenção da coligação militar anglo-americana influenciou a política prosseguida nos restantes Estados do Golfo, de um modo consonante com os objectivos propostos por Washington. Quase se diria que, onde os Estados Unidos não aplicaram acções militares, o outcome político é positivo, e, onde o fizeram, a regressão é manifesta.”

  11. O mundo tem os criminosos que merece sendo a USA o maior deles, no fundo a morte, destruição e manipulação tem sido a historia da Humanidade, enquanto nao investirmos na mudança da nossa natureza e evoluir a nossa consciencia todos esses fenomenos vão-se multiplicar e manifestar numa escala da vez maior. O sec 21 começou no 9/11 e pouco ou nada se aprendeu, mais um seculo condenado.

    1. Conclusão do seu brilhante raciocínio: as três mil vítimas inocentes assassinadas faz hoje 15 anos em Nova Iorque “estavam mesmo a pedi-las”.
      Ainda bem que se mantém anónima. Percebo-a bem: eu teria nojo de assinar um comentário desses.

          1. Não há besta sem crueldade, os USA teem os criminosos que merecem e atraem o karma correspondente às suas politicas imperialistas e nada acontece por acaso muito menos no world trade center onde se brincava com o destino da humanidade.

          2. Há sempre alguém disponível a ovacionar os carrascos e escarrar nas vítimas. Hoje está você de turno, a picar o ponto. Mantenha o anonimato: faz bem em não associar o nome ao escarro.

    2. A América cria riqueza, democracia e liberdade. O seu amigo Alá mais o outro pastor psicopata barbudo nunca criaram senão miséria — e muito menos postos de trabalhos remunerados: explosivos, sem dúvida, mas mal pagos. E não me venham com a exploração e o petróleo porque quem o vende são os árabes, os mesmos que maltratam mulheres e inventaram a escravatura.

      1. Os que do lado de cá abominam o “imperialismo” norte-americano e o execrável “sistema capitalista”, chamando-lhe todos os nomes, deviam ser consequentes e passar para o lado de lá.
        Deviam experimentar a atmosfera totalitária do jiadismo, rumando a uma das zonas “libertadas” pelo Daech, prostrados perante o Islão.

  12. com todo o respeito, mas se o Pedro tem (ainda ) na cabeça aquelas vitimas, e mais as outras que refere por cidades, o Pedro é humano ?, quantas cabeças tem ? Se calhar no caso das cidades que refere nao viu imagens, e assim sendo, a cabeça náo as tem, logo a cabeça é normal. Evidentemente existem coisas que marcam cada pessoa , coisas que acontecem alheias a essas pessoas. Explico melhor : se um individuo se diz chocado, e ainda incomodado, com determinado acontecimento, é normal é humano. Não é normal, e intriga, se um mesmo individuo se dizer chocado com o domingo, a segunda, a terça, a quarta, a quinta, a sexta, o sabado.

  13. Mesmo com os avanços da tecnologia e medicina não creio que alguma vez venhamos a saber se o 11 de Setembro de 2001 será visto da mesma forma que a queda de Constantinopla ou a Tomada da Bastiha. Tenho no entanto as minhas dúvidas Pedro.

    Isto é ainda mais notório com a queda de Constantinopla, que não representou apenas uma mudança de agulhas nas políticas internacionais mas mudou completamente o peso geopolítico do mundo de então, com uma nova potência a emergir.

    Aquilo que lhe poderia ser comparável seria um Daesh (ou EI, ou aqueles tipos fanáticos de preto) a conseguir um estado de facto que os outros países não tivessem escolha senão tratar como real (mesmo que não o reconhecessem). Seria uma tragédia maior (apesar de tudo os otomanos não eram nas suas práticas muito diferentes dos restantes estados/reinos/impérios europeus da época) mas apenas isso seria comparável na dimensão política, na minha opinião.

    Já a comparação com a Tomada da Bastilha faz mais sentido. Um acontecimento muito forte no imaginário e que tem mais peso pelos dominós que iniciou que pelo acto em si (dentro de pouco tempo haverá mais mortes resultantes de problemas de saúde causados por inalação dos resíduos das torres que directamente pelos ataques). O 9/11 continuará a pesar, não porque significou uma mudança directa, mas porque estilhaçou a sensação de segurança que os EUA (ainda e sempre o estado indispensável) sempre cultivaram. A ascenção de Trump provavelmente nunca teria acontecido sem aquela dia em 2001.

    1. O 11 de Setembro de 2001 foi uma linha fracturante fortíssima na história universal, João.
      Quanto mais o tempo passar mais isso se tornará evidente.
      Certas datas estabelecem fronteiras na história, marcando princípios e fins de ciclos.
      À distância de 15 anos, parece-me já certo que esta data será assim assinalada pelos historiadores futuros. O mundo mudou, as questões mudaram, as respostas passaram a ser diferentes, as alianças refizeram-se, grande parte da geopolítica anterior foi posta em causa. E o nosso próprio quotidiano sofreu alterações drásticas.
      Tal como os investigadores concluem hoje que o século XX começou verdadeiramente em Agosto de 1914, com o início da I Guerra Mundial que enterrou de vez o optimismo histórico até aí dominante, o século XXI começou verdadeiramente a 11 de Setembro de 2001. As repercussões mais profundas dos atentados desse dia ainda estão por avaliar. Mas não custa antecipar que terão enorme impacto a longo prazo – político, estratégico, social, cultural.

  14. Estava a almoçar em Alvor, a filha mais nova a fazer zapping, passa pela FOX News onde sobressaia o conhecido breaking news a vermelho , nós tirámos-lhe o comando e ficámos a ver aquilo que aparentemente parecia ter sido um acidente aéreo, um avião atingira uma das torres do WTC e mais não se sabia.
    Olha, olha olha !!! Fora o segundo avião que connosco e tantos outros milhares em directo, entra estrondosamente torre adentro. Não podia ser coincidência. Telefonei ao meu irmão. Nessa tarde não fomos à praia nem largámos a TV.
    Chorámos porque sim. Não conhecíamos ninguém mas era como se fossem chegados. Todos eles. Os que estavam nos aviões, os que se lançaram à sua sorte, os que estavam simplesmente lá, seja lá um aeroporto, ou uma das torres do WTC.
    passámos a noite a conversar, com toda aquela raiva nas perguntas sem resposta que sentimentos mistos faz crescer como fungos parasitas.
    Foi o princípio do medo.

    1. “O princípio do medo”. É um grande título, Dulce. Infelizmente, 15 anos depois, há quem não perceba – ou finja não perceber. Como fica patente nesta caixa de comentários.
      Há dias que mudam as nossas vidas. Este foi um deles.
      Um dia concreto, não um dia abstracto. Por isso todos quantos o vivemos nos lembramos bem onde estávamos e o que sentimos quanto tudo aconteceu.

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