A sedução populista


Luís Naves,

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A CDU da chanceler Angela Merkel sofreu uma pesada derrota no Estado de Mecklenburgo-Pomerânia, ficando atrás da AfD, Alternativa para a Alemanha, partido populista e anti-imigração que nas últimas eleições federais, em 2013, ficara abaixo do limiar de 5%. Independentemente dos aspectos da política interna deste pequeno Estado alemão, a votação terá leituras complexas e sugere que a questão das migrações se tornou politicamente tóxica.

Os democratas-cristãos estão em plena hemorragia de votos, como se pode ver neste gráfico, onde são aparentes as transferências directas da CDU para a AfD. No último ano, o partido de Merkel perdeu sete a oito pontos percentuais, andando agora pelos 33%; a AfD ganhou algo de semelhante e estará acima de 10%. A maior incógnita é saber em que ponto do declínio eleitoral os barões da CDU-CSU decidem livrar-se da líder ou se esperam até às eleições federais de Outubro do próximo ano.

 

Os líderes que não escutam os eleitores estão condenados a perder eleições. A rebelião populista que alastra nas democracias ocidentais tem muitas formas, mas elementos comuns: estes eleitores desconfiam dos banqueiros, dos meios de comunicação e dos políticos, recusam novos acordos de liberalização do comércio, são vagamente anti-americanos, gostam de líderes carismáticos de língua afiada, detestam a conversa da abrangência, têm urticária às burocracias não eleitas, querem travar a imigração, sobretudo a de muçulmanos. Como mostrou o Brexit, a resposta das elites não tem sido eficaz. Apesar de serem diabolizados, estes movimentos de protesto continuam a cavalgar a onda de descontentamento gerada pela crise de 2008.

A insegurança económica é hoje fortíssima nos países ocidentais e os perdedores da globalização recusam aceitar a política do costume. Objectivamente, a vida das pessoas mais pobres piorou: nos bairros degradados há má convivência, nas fábricas mecanizadas menos empregos. O terrorismo causa alta insegurança, os ricos enriqueceram e vivem em condomínios fechados, a classe média perdeu as ilusões e os trabalhadores são sensíveis à ideia de que os seus rendimentos estagnaram por causa da imigração em massa. As elites fracassaram. Onde havia empresários paternalistas que cuidavam dos seus trabalhadores, agora há gestores cuja capacidade é medida em função do número de colaboradores despedidos. A imprensa esqueceu-se de servir os leitores e não faz qualquer esforço para compreender o descontentamento popular, não perdendo uma oportunidade para definir estes votantes como xenófobos e de extrema-direita. Os intelectuais parecem ter desistido de descodificar o mundo, têm medo de dizer o que pensam e adoptaram linguagem politicamente correcta, que nada explica. Os políticos talvez não tenham verdadeiras soluções ou não avaliam a poderosa sedução destas ideias.

0 comentários em “A sedução populista”

    1. Precisamente, ainda bem que as pessoas começam a notar as manipulações da linguagem construídas pelos jornalistas.

      Qual a diferença entre Social e Populismo?

      Populismo é só empregue contra o Populismos que não gostamos.
      Se gostarmos já se chama Social.

      Redes Sociais ou Redes Populistas?

      E quando aquilo que não gostamos não é Populista então cria-se expressões como Austeritário. Já não: Anti-Populista.

      É tudo construção de linguagem da Cultura Marxista que enferma o jornalismo.

  1. Muito bem. Todavia continuo a discordar do epíteto populista.
    Na realidade assistimos à globalização da miséria. Essa globalização ao invés de se ter focado no desenvolvimento interno e harmonioso das nações, partilhando os recursos de que cada um dispunha para que o equilíbrio económico-social fosse estabelecido nelas e entre elas, optou pelo sistema do enxuga concentrando o poder nas mãos de algumas corporações.

    O resultado dessa desorganização das estruturas sociais, verificado com a prioridade dada a salvar tais corporações, abriu a porta não aos populismos mas ao despertar de impulsos de sobrevivência natos que sempre ocorre nestes quadros.

    Acontece que a carência de elites agrava esta situação. Evidencia-se, isto sim, a charlatanice do discurso do rigor que muitos dos auto-endeusados economicistas e politiqueiros proclamam.
    Volto a afirmar que o pitagorismo não pode reduzir à essência o que é humano.

  2. Tenho grande consideração por Angela Merkel. Devo ser o único em Portugal. O Povo não quer saber de verdades. Quer é colo. Veja-se o caso de Trump. Foi sempre assim. Com Cristo e Barrabás. Deixando a religião, veja-se o caso do príncipe João e o rei Ricardo. Um príncipe que conseguiu governar e dar estabilidade à Inglaterra e um rei que desprezou e fez pouco do seu Povo. Quem é que é cantado até aos dias de hoje? Robin e Ricardo! Quanto às elites, estas não fracassaram pela simples razão que não existem. É assustador ver que tipo de gente é que se guindou ao poder.

  3. Ora nem mais. E o que acontece por cá? 3 partidos que juntos, em termos reais, não devem nem representar 25% da população assaltaram o poder para defender uns o próprio acesso ao poder e os outros as suas regalias.

  4. Uma vez mais, caro Naves, não acrescentaria uma vírgula!!
    O estranho caso, que não é, verdadeiramente, estranho, do silencio de intelectuais e pensadores públicos, com assinaláveis excepções, já não revela apenas a circunstante tibieza. Revela, sobretudo, um fim de ciclo de pensamento em que as palavras, que se lhes adivinham mesmo quando não proferidas, se reduzem a estribilhos cansados que não disfarçam a natureza de circunstancia!!
    Uma vez que o pensamento crítico entrou em modo de hibernação urge-lhes inventar palavras novas para dizer as mesmas coisas!!

  5. Líder é aquele que lidera.
    Chamar líder a alguém que tenta saber quais as tendências populares por sondagens para seguidamente manifestar a mesma opinião é errado.

  6. Há populismos e populismos.
    O populismo de Trump é radicalmente diferente do populismo de Bernie Sanders. As elites souberam fazer a cama a Bernie. Há elites e têm objetivos razoavelmente claros: manter o status quo. Acontece que o status quo é profundamente anti-social nos seus mecanismos.

    Logo, qualquer resposta eficaz passa por desmontar a estratégia das elites, retirar-lhes poder e recentrar a política no bem comum. Qualquer político que assuma estes objetivos será, por definição, populista. Porque há momentos da história em que o que é popular é também justo.

  7. Caro Naves, falando de estribilhos cansados, permita-me este exemplo do mui influente tariq ramadan https://www.theguardian.com/commentisfree/2016/sep/05/politics-of-fear-britain-anti-extremism-prevent-government-radicalisation

    Para além do bom argumento, que me parece já evidente, de que os mais radicalizados pouca relação doutrinal têm com o Islão religioso e que apenas o empregam como discurso legitimador, num mosaico de reminiscências culturais ou identitárias, não resiste aos clichés de antanho. Estes, por sua vez, não resistem a duas linhas de pensamento crítico!!
    Num tempo em se pedem respostas aos intelectuais e pensadores, estes insistem em arremessar perguntas sobre perguntas!!

    1. É preciso ter lata ou ignorância, você para começar vai buscar um extremista muçulmano…

      Só precisa de ir à imprensa de países muçulmanos para perceber que o Islão “radical” tem tudo que ver com o Islão “religioso”. Pode começar pelas palavras do próprio e o apredejamento de mulheres adulteras segundo o Islão.

      Nada surpreendente o jornal de Esquerda chamar um Islamista como Ramadan…

      1. Lucklu, Vcmcê é falho de entendimento. Lê-se com o olhos não com os pés!!
        Eu dei o exemplo do tariq ramadan a propósito de estribilhos cansados entoados por influentes intelectuais (o facto de eu discordar de tariq ramadan não lhe diminui o papel de influente intelectual…assim como apesar de entender o guardian como panfleto doutrinário, ou exemplo do pináculo do jornalismo panfletário, não lhe diminui a influencia cultural e social).
        Ninguém se referiu a “países muçulmanos”. Referia, eu, que apenas acompanhava o autor na análise que faz sobre papel de mera capa legitimadora ou identitária do islão religioso nos “jovens radicalizados”. São émulos ou reminiscências de identidade, que não passam, verdadeiramente, de sub cultura!
        Quanto ao resto, de tariq ramadan, como disse, não resiste a clichés de antanho e à repetição de estribilhos exaustos!!
        Quanto ao Lucklu, aprenda a lêr e leia antes de queimar!!

        1. Você disse ” bom argumento” você disse “de que os mais radicalizados pouca relação doutrinal têm com o Islão religioso”.

          Ora é falso.
          Os mais radicalizados são os mais cumprem os preceitos do Islão.
          Tariq Ramadan é um extremista político que diz uma coisa ou outra conforme quem tem pela frente.
          É capaz de dizer que o Islão não tem nada radical e no parágrafo seguinte dizer que se deve ter cuidado com o combate contra o apedrejamento de mulheres porque está em muitos textos Muçulmanos e se deve apenas defender uma moratória…

          1. Se percorrer a prolixa literatura que por aí anda sobre este assunto irá concluir que as principais categorias se referem ao fascínio proto redentor, à esteticização do gesto como o elemento kitsch, teatral, emulador e preenchedor de um limbo de sub cultura.
            A questão cultural e identitária suplanta, em muito, a gnose religiosa!! Há vastos exemplos do ridículo e anedótico, no entoar de litanias em árabe sem saber ler uma linha em árabe. O ponto comum será o do resgate de identidade e a sedução estética!! Mesmo entre aqueles que se levantaram em armas e rumaram ao levante.

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